Na Universidade Cooperativa da Colômbia, decorreram as reuniões multissetoriais que prepararam os contributos para a conferência sobre o fim dos combustíveis fósseis. Foi ali que representantes de diferentes setores trabalharam sobre os documentos previamente enviados, resultado de reuniões internacionais realizadas online desde a COP30 em novembro, tentando construir posições comuns para levar às fases seguintes do processo.
O modelo é claro: participação alargada, horizontal e aberta. Mas a promessa de uma conferência aberta e multissetorial enfrenta os seus primeiros limites: nem todos conseguem estar presentes. A participação varia significativamente nas várias salas onde decorrem os trabalhos. Juventude, movimentos sociais, comunidades afrodescendentes, agricultores, pescadores, organizações religiosas, grupos feministas e outros setores estão representados mas, em muitos casos, com presença reduzida. O setor das ONG destaca-se como o mais composto. Nos restantes, a ausência de participantes levanta dúvidas: há um problema de mobilização ou de condições materiais para a participação?
O custo de estar presente
Durante o processo preparatório, referiram-se logo as dificuldades relacionadas com financiamento. Para muitos participantes, sobretudo de comunidades e movimentos locais, a presença física implica custos impossíveis de suportar. Viagens, alojamento, e logística são barreiras concretas que limitam o acesso a um processo que se pretende inclusivo. Isso cria um paradoxo: a conferência aposta num modelo de participação aberta, mas essa abertura esbarra em desigualdades materiais. O resultado é um teste imediato ao próprio modelo.
Apesar destas limitações, os participantes mantêm o foco no objetivo: sair da conferência com ferramentas comuns e uma base de ação coletiva. “É um momento para a sociedade civil se apropriar destes espaços”, refere um dos participantes. “São eventos onde, normalmente, estas vozes não têm lugar.” A expectativa é que esta presença, ainda que desigual, possa contribuir para uma maior articulação entre movimentos e para a construção de respostas comuns.
Conferência por Territórios Livres de Fósseis
Durante a conferência, ouvimos quem vive no terreno. Vozes de comunidades diretamente afetadas, que trouxeram não apenas denúncias, mas também propostas concretas de resistência e reconstrução.
Cacique Jonas destacou a realidade de exploração vivida pelos povos e territórios que representa, em particular as três etnias indígenas ligadas à APIRA (Associação dos Povos Indígenas do Rio Aneba), da qual é coordenador. Falou da contaminação da água, do solo e do ar, e do impacto direto na saúde das comunidades, nomeadamente o aumento de doenças respiratórias. Sublinhou também a importância das alianças que têm vindo a construir, através de redes como o Grupo de Trabalho Amazónico (GTA), a APIAM, a COIAB e a APIB. Deixou um alerta claro: não repetir o que aconteceu em Belém do Pará, onde, apesar do discurso de inclusão, os povos indígenas acabaram por ser ignorados nas suas propostas e conhecimentos.
Sila Apurinã, coordenadora do GTA, reforçou esta visão, descrevendo os territórios de exploração como verdadeiros “campos de guerra”. Denunciou as chamadas zonas de sacrifício associadas à exploração de minérios, terras raras e combustíveis fósseis, e apelou a uma resposta coletiva face a esta escalada de violência sobre territórios e comunidades.
O jornalista João Paulo Guimarães sublinhou a importância da presença da sociedade civil em Santa Marta, especialmente das comunidades tradicionais e originárias de territórios como o Pará, o Arquipélago do Marajó e o Amazonas. Destacou a participação de povos indígenas de Silves, Manaus e Itapiranga, bem como representantes do Amapá e do Maranhão, que trouxeram para a conferência a realidade diária de conflitos, marcada pelos impactos da indústria do petróleo, gás e fracking, com consequências diretas para mulheres, crianças e idosos. Defendeu que este espaço deve ser, acima de tudo, um lugar de fala das próprias comunidades. E deixou uma mensagem direta: chega de zonas de sacrifício. Se isto é uma guerra, então é tempo de cuidar.
Wilson Sores, do Equador, trouxe o foco para a ação no terreno. Defendeu a necessidade de planos estratégicos que apoiem a reconstrução de comunidades destruídas por interesses extrativistas e destacou a importância de criar redes de partilha de experiências, de resistência e de estratégias, incluindo formas de desobediência organizada.
No conjunto, estas vozes convergem numa ideia central: não há transição justa sem ouvir quem está na linha da frente e sem transformar essas vozes em ação concreta.
Direção Editorial: Joana Guerra Tadeu | Reportagem: Imagens: Pedro Moura e Sílvia Moutinho | Produção em parceria com Don’t Skip Humanity.