Quando se deu o golpe militar do 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo, estava exausta. Acabara de ter o seu filho, e o bebé “era terrível para dormir”. Telefonaram-lhe de madrugada, a avisá-la, mas atribuiu o golpe aos ultras da extrema-direita militar, liderada pelo general Kaúlza de Arriaga, possibilidade de que na altura muito se falava. E pensou: “Vou é dormir, não estou agora para aturar isto”, recorda Maria Elisa Domingues, lisboeta nascida em junho de 1950, nesta entrevista de vida à VISÃO. Só à noite percebeu o que se estava a passar, quando o seu pai, “que era muito próximo do PCP”, lhe apareceu “completamente eufórico”. A Revolução dos Cravos virou-lhe a vida do avesso: de locutora de continuidade na RTP passou a pivot do Telejornal, com apenas 23 anos. Depois, seria a primeira mulher a conduzir entrevistas políticas na TV, que a tornaram famosa – embora diga que a mais conseguida foi a que fez ao escritor argentino Jorge Luis Borges, pessoa com qualidades que não encontrou em “político nenhum”. Seria também a primeira mulher a chegar a diretora de Programas da RTP. Lembra que, neste cargo, inaugurou o teledrama feito em Portugal, com a telenovela Vila Faia, e os longos programas de entretenimento em direto ao fim de semana, como O Passeio dos Alegres, com Júlio Isidro e Herman José, que aumentaram as horas de emissão com os mesmos meios de produção, tendência que se prolongou no tempo até hoje. Mas a sua ligação de quatro décadas à televisão do Estado foi uma montanha-russa (incluindo assédio sexual e laboral), que acabou mal: em 2011, o programa semanal que estava a fazer seria descontinuado (“Nunca ninguém me deu explicações”, diz). Fartou-se – aceitou uma proposta de indemnização para sair da RTP. “Magoada.” Antes, dentro e fora da TV do Estado, ainda teve de enfrentar uma espécie de némesis chamada José Sócrates, como ministro e chefe do governo. Já agora, gostou de ser assessora da primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo (1979-80) – embora com desentendimentos – e detestou estar no Parlamento, na bancada do PSD, como deputada independente (2002-04). E, no entanto, como também conta, a sua vida podia ter sido por completo outra. Cursou Medicina para ser psiquiatra – e envolveu-se nas lutas estudantis contra a ditadura, ao ponto de ter levado “uma grande sova” da polícia. Mas, a meio do curso, veio o amor pelo teatro e o desejo de ser atriz. Não aconteceu por um triz: chegou a ensaiar, como protagonista, para a primeira peça da Comuna, em 1972. Hoje, aos 75 anos, ainda mostra um travo de culpa por, em 1976, ter decidido ir estudar Jornalismo para Paris, deixando o filho, muito pequeno, em Lisboa. Quanto ao mais, está numa “relação completamente estável” (casou-se em 2012, aos 62 anos, com o advogado americano Sanford Hartman) e, com “imensas ideias na cabeça”, vai continuar a escrever e a publicar livros (só este ano, quer concretizar duas obras, sobre as quais, diz, as editoras a obrigam a guardar segredo). Não admira, pois, que encare “com muita angústia” a finitude. “Tenho medo da morte”, confessa.

Passou a sua infância no Alentejo. De que forma vê hoje esses primeiros anos de vida rurais?
Acho que esses anos – esses anos e a educação muito interessante que os meus pais me deram – transmitiram-me uma perspetiva muito próxima do que eram as condições de vida no País real, sobretudo das populações rurais. Estivemos em vários sítios muito rurais e tive a ocasião de observar diretamente como as pessoas eram pobres, como a vida era dura, algo que os meus pais desde sempre me explicaram muito bem. E há outra coisa de que só me apercebi mais tarde, de como é diferente. Não andei na escola, porque o trabalho do meu pai, que era engenheiro geógrafo, nos obrigava a mudar de terra com muita frequência. Portanto, fui escolarizada em casa.
