Chego a Quarteira num daqueles dias estranhos do Algarve em que chove e faz sol ao mesmo tempo. O céu abre-se em fendas de luz, o ar fica pesado, quente e húmido, como se o verão nunca se tivesse ido embora. No lobby do hotel onde combinei encontrar-me com Adilson, dezenas de turistas ingleses ocupam as mesas junto às janelas. Jogam cartas, bebem cocktails demasiado coloridos para aquela manhã cinzenta, conversam em voz alta como se o mar fosse apenas pano de fundo. Alguns têm a pele bronzeada pelo sol quente do Algarve, outros a lentidão confortável de quem vive em férias prolongadas.
Adilson entra poucos minutos depois. Corpo esguio, passos leves e uma forma de se mover que contrasta com aquele espaço. Não precisa de se apresentar: o corpo chega antes. Por instantes, parece abrir-se uma dobra no espaço – como se dois mundos que raramente se tocam tivessem sido obrigados a partilhar o mesmo enquadramento. De um lado, quem circula sem pensar em documentos, vistos ou autorizações. Do outro, um homem que viveu toda a vida em Portugal e que, ainda assim, cresceu dentro de um parêntesis legal.
