Historicamente, Portugal é um perdedor na pesca do bacalhau. E, no entanto, os portugueses foram pioneiros, em Quinhentos, na captura deste peixe, navegando até aos longínquos mares da ilha da Terra Nova (hoje uma província canadiana). Ali, o cruzamento das correntes frias polares, em especial do Labrador, provenientes da Gronelândia, com as águas quentes da corrente do Golfo, ao sul, propiciava numerosas plataformas submarinas a pequena profundidade, onde o bacalhau se concentrava, aproveitando o plâncton, a pescada e a lula para se alimentar. “Portugal terá sido o primeiro país europeu a enviar para ali expedições”, escreve Álvaro Garrido, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, no seu livro O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau (ed. Círculo de Leitores). “Cedo mostrou agressividade na cartografia” e “cedo reclamou soberania sobre as costas da Terra Nova”, acrescenta o também investigador do CEIS20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra).
São muitas as velhas e novas guerras do bacalhau que Portugal (hoje o maior mercado mundial de bacalhau salgado, consumindo cerca de 170 mil toneladas por ano) travou e continua a travar, como aqui se conta. O mais recente conflito tem que ver com o bacalhau russo que, em tempo de supostas pesadas sanções económicas da União Europeia (UE) contra Moscovo, pela invasão da Ucrânia, entra no mercado comunitário, incluindo o português, sem sujeição, sequer, a direitos aduaneiros. Mas vamos por partes.
