O filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet, é o maior êxito internacional do cinema francês de sempre. Estreado a 25 de abril de 2001, já acumulou mais de 164 milhões de euros de bilheteira, lê-se no livro de recordes do Guinness.
Foi assim que, de um dia para o outro, o mundo ficava a saber quem era a atriz francesa Audrey Tautou que interpreta Amélie. O corte de cabelo da sua personagem seria copiado até à exaustão e compraram-se milhares de anões de jardim potencialmente viajantes.
Não era o primeiro êxito mundial de Jeunet. Uma década antes, realizara, a meias com Caro Marc, a deliciosa comédia negra Délicatessen, que rapidamente se tornou num fenómeno de culto mundial. Mas para a jovem Audrey, então com 24 anos e quase só com séries de televisão no currículo, o êxito da sua generosa Amélie foi como “uma tempestade”, comparou em tempos.
“Virou a minha vida de pernas para o ar”, recorda agora, vinte e dois anos depois, numa longa entrevista ao Nouvel Observateur. “Embora seja muito independente e goste de levar uma vida normal, de repente toda a gente me reconhecia e em todos os países. Já não podia levar a mesma vida. Os dois anos que se seguiram à estreia não foram fáceis.”
A atriz teve de aprender a gerir a notoriedade e a aceitar que já não podia fazer certas coisas. Ver-se na imprensa cor de rosa foi muito traumatizante, confessa, contando como durante anos não saía de casa sem verificar se havia paparazzi emboscados. “Sou muito discreta, nunca falo da minha vida privada, mas acabei por habituar-me. E depois a tempestade passou.”
Pelo caminho, Audrey apercebeu-se de que as pessoas à sua volta tinham mudado a maneira como a olhavam e haviam perdido a espontaneidade. E que o seu sucesso também despertara a inveja de quem partia do princípio de que ela levava uma vida excecional. “Experimentei a fama aos olhos dos outros”, resume. E não gostou da sensação.
Hollywood não era uma opção
O lado B da fama não a impediu, porém, de entrar em filmes atrás de filmes. De repente, todos queriam aproveitar a boleia do êxito de Amélie. E, durante duas décadas, ela não se fez rogada.
Logo a seguir ao Fabuloso destino… vimo-la protagonizar Deus é grande, eu sou pequena, de Pascale Bailly, e Bem me quer… Mal me quer, de Laetitia Colombani, até que o realizador britânico Stephen Frears quis tê-la em Estranhos de passagem (2002). Começava aí a sua carreira internacional que, quatro anos depois, a levaria até Hollywood com O Código Da Vinci, de Ron Howard, um filme que admite nunca ter pensado vir a fazer.

“Não queria ir a Los Angeles fazer audições, porque pensava que nunca iriam escolher uma francesa”, lemos no Nouvel Observateur. “Até que um dia me telefonaram e disseram que eu era a única atriz que não tinham visto. O meu agente disse-me que ia viajar em primeira classe e, sobretudo, que ia conhecer o Tom Hanks. Fui pela experiência, descontraída, natural, sem verdadeiramente ter aprendido as minhas falas. Alguns dias mais tarde, o realizador, Ron Howard, anunciou-me que tinha sido selecionada. Nessa mesma noite, apareci na abertura dos noticiários das 8 horas.”
O filme baseado no best-seller homónimo de Dan Brown transformou-se no segundo maior sucesso de bilheteira da história desde a estreia de A Guerra das Estrelas, em 1977. Mas apostar em Hollywood não era uma opção, diz agora Audrey.
“Se quisesse fazer carreira nos Estados Unidos, teria de me instalar lá e trabalhar muito para conseguir papéis interessantes, sendo que partia com uma grande desvantagem: mesmo que se fale inglês perfeitamente, só se conseguem papéis de estrangeiros”, lembra na mesma entrevista. “De qualquer maneira, não tive nenhuma dúvida: era um não, não me interessava nada.”
A filha nascida no Vietname
Depois de interpretar Sophie Neveu, a talentosa criptologista francesa que ajuda Robert Langdon (Tom Hanks) a decifrar anagramas e enigmas, a atriz francesa continuou, então, entre comédias levezinhas que viviam da sua cara no cartaz e filmes de realizadores como Alain Resnais, Claude Miller, Cédric Klapisch.
Em 2019, John Turturro dirigiu-a em Ninguém brinca com Jesus, um misto de sequela e de spinoff de O Grande Lebowski, dos irmãos Coen. A crítica assinalou a “exuberante falta de inibição” com que Audrey interpretou a promíscua Marie – um eufemismo para overacting, representar com exagero. Mas não foi por isso que ela decidiu desaparecer de cena.

Em fevereiro desse mesmo ano, a atriz adotou uma menina nascida no Vietname, contou na Vanity Fair, em 2022. “Nunca falei sobre isso publicamente, nunca! Se o menciono agora, é porque não consigo ficar calada sobre o amor da minha vida. Seria uma entrevista um pouco falsa se não vos falasse disso”, justificou.
Ser mãe era um sonho antigo. Sobre a maternidade, em que se estreara aos 43 anos, dizia à mesma revista: “Depois de muitos, muitos anos de luta incerta e traumática, experimentei uma felicidade que vai além do que esperava.”
E, agora, ao Nouvel Obs, Audrey explicou que a maternidade mudou enormemente a sua vida. “Passo o máximo de tempo possível com a minha filha. Quero aproveitá-lo ao máximo. Já ouvi demasiadas pessoas dizerem que se arrependem de não terem feito o suficiente, que aqueles anos passaram demasiado depressa.”
Desenhar, fotografar e escrever
Quanto à decisão de parar, garante que ela vinha de trás (um ou dois anos antes do nascimento da filha), fruto de uma reflexão madura. “A dada altura, apercebi-me de que já não queria servir o mundo dos outros, mas sim servir-me a mim própria. Num cenário de cinema, tudo é organizado, hierárquico, nada é deixado ao acaso. Somos bons soldadinhos, ou pelo menos foi assim que vivi. E depois há tudo o que vem com a profissão de atriz: promoção, representação, leituras de guiões. A profissão que estava a exercer, com o estatuto que tinha, era muito exigente.”
A verdade é que, em 2017, durante os Encontros de Fotografia de Arles, onde expôs fotografias suas, sob o título Superfacial, avisara: “Esta é a primeira vez que assumo o que sou.”

Não colocando de lado a hipótese de um dia voltar à representação, que adora, Audrey não quer voltar a ser atriz imediatamente. Não se imagina a sair de casa às 6 da manhã e a voltar às 9 da noite, cinco dias por semana, durante três meses. “Privar-me da minha filha para uma sessão fotográfica, isso é um não!”
Depois do filme de Turturro, dedicou-se a tempo inteiro à filha e aos seus projetos pessoais. Neste momento, está a ilustrar um livro infantil que escreveu e a tirar fotografias que irá reunir num livro. “Como sou autodidata, tudo me ocupa muito tempo”, diz. “Embarquei em todas estas aventuras sem me aperceber da dificuldade. Já domino mais ou menos a técnica, mas ainda tenho de definir o meu estilo, encontrar uma forma de pôr em imagens o que escrevi.”
Amélia, a espia do KGB
Para matar saudades, pelo menos da sua voz, os fãs têm agora o filme de animação Nina et le Secret du Hérisson, da dupla Jean-Loup Felicioli et Alain Gagnol, que estreou na quinta-feira, 12. “Estou a trabalhar com eles pela segunda vez, e são realizadores talentosos e adoráveis. Não posso recusar-lhes nada”, diz a atriz, que interpreta Camille, a mãe de Nina. “E sabia que não ia demorar muito tempo.”
E, para janeiro de 2024, foi anunciado um espetáculo musical, baseado no romance Charlotte, de David Foenkinos. Como os ensaios ainda não começaram, Audrey Tautou só sabe que vai estar em palco com um guitarrista e que conta com a magia do encenador, Jérémie Lippmann.
“Vou fazer o que me pedirem para fazer”, diz. “Sempre funcionei com o coração. O maior realizador do planeta pode vir à minha procura, mas se ele for um tirano, nem em sonhos! Não tenho nenhuma ambição, só preciso que a pessoa a quem vou dar alguma coisa me agrade humanamente.”

Em janeiro deste ano, assistimos a um reviver o passado em Paris, quando Jean-Pierre Jeunet lançou uma curta-metragem de seis minutos, em que conta A verdadeira história de Amélie. A curta é uma colagem de cenas do filme inicial, editadas de maneira a revelar uma bomba: Amélie não é a empregada de mesa generosa que pensávamos conhecer, mas sim uma espia, recrutada pelo KGB.
Disponível no YouTube, A verdadeira história… já acumulou quase 362 visualizações, mas merecia muitas mais. É um pequeno divertissement bem ao estilo do Fabuloso destino…, que nos deixa com vontade de ver brincadeiras semelhantes com outras atrizes e atores que decidiram viver longe do cinema. Dois exemplos:
Daniel Day-Lewis

Em 2017, ninguém ficou muito espantado quando o ator britânico, então com 60 anos, anunciou que ia deixar de representar.
Há duas décadas que vinha espaçando cada vez mais os filmes em que entrava, repetindo que o seu trabalho não se justificava por si. Muito exigente, seguidor do Método, Daniel Day-Lewis sentia que não correspondia às expetativas.
O seu último filme acabou por ser o drama histórico Linha Fantasma (2018), de Paul Thomas Anderson.
Cameron Diaz

Em 2021, a atriz americana disse no podcast Hart to Heart, de Kevin Hart, que se afastou do cinema porque queria ter mais facilidade e controlo sobre o seu dia a dia.
“Para mim, o que queria mesmo era tornar a minha vida mais fácil de gerir”, explicou. “A minha rotina diária é literalmente o que consigo fazer sozinha.”
Sete anos depois de ter deixado o cinema, Cameron Diaz sentia-se mais “completa” e com tempo para “todas aquelas coisas para as quais não tinha tempo antes”. Como conhecer o seu marido, Benji Madden, e ser mãe de Raddix, em dezembro de 2019.
O seu último filme foi Annie (2014), de Will Gluck. Tinha 42 anos.