Não estamos, nunca, à espera. Ao receber a notícia, aos 42 anos, pensei: “OK, aconteceu-me a mim, vamos lá tratar disto.” Dez anos antes, eu tinha colocado implantes mamários, fazia exames anuais e nunca deixei para depois aquilo que precisa de ser feito. Marquei logo uma ecografia e uma mamografia e fui a um médico, na consulta mais rápida que consegui. Disseram-me: “Não se preocupe, isto é um quisto, repita os exames daqui a seis meses.” Fiquei descansada, mas nas semanas seguintes só me vinha à mente a palavra “repete” e sentia um formigueiro na zona do nódulo.
Procurei uma segunda opinião no centro de exames onde costumava ir e a resposta foi outra: “Não é um quisto, aconselho que veja a questão mais a fundo.” No início do ano passado fui ao Centro de Senologia fazer nova ecografia e o médico entendeu que era melhor pedir uma biópsia. Não me preocupei até ver o relatório: um tumor, triplo negativo agressivo. Se eu não tivesse confiado na minha intuição, talvez o desfecho fosse outro. Felizmente, o cancro foi descoberto a tempo de fazer o tratamento.
Continuei serena e dei a notícia aos colegas mais próximos, à família e a alguns amigos, e informei a rádio (RFM) e não voltei a fazer o podcast ADN de Leão, mas continuo com o Sporting no coração. Pus baixa e fiquei seis meses sem trabalhar: primeiro estava a minha saúde, tudo o resto vinha depois. Tinha pela frente um protocolo de doze tratamentos semanais, quatro quinzenais e uma cirurgia. Informaram-me de que podia ter efeitos secundários, mas convenci-me de que não iria senti-los e aceitei o desafio.
O segundo confinamento ajudou, pois estavam todos em casa, como eu. Não queria apanhar Covid-19 e tinha medo de ir ao hospital, mas ia. Fui acompanhada por um médico-cirurgião do Hospital Lusíadas, que também trabalhava no Instituto Português de Oncologia (IPO). Os dias passaram, com tranquilidade e uma náusea ou outra. Após a segunda semana de químio, o cabelo começou a cair, mas continuei a maquilhar-me, comprei peruca e usei sobrancelhas e pestanas falsas, porque queria ter uma imagem com a qual me sentisse bem.
Viver jogo a jogo
Quando saía à rua, partilhava as minhas rotinas na página do Instagram, que funcionava como um Diário de Marilu (alusão ao sketch de Herman José, no programa televisivo de humor O Tal Canal). Fui vivendo jogo a jogo, como diz o Rúben Amorim. Na décima semana, com a hemoglobina a 7,5 (valor abaixo do recomendado para continuar o protocolo), o meu corpo não estava a aguentar e tive de parar. Questionei-me se estaria a fazer alguma coisa errada, mas não: era o corpo a precisar de regenerar da porrada que estava a levar e limitei-me a respeitar e a aceitar isso, sem adicionar ansiedade desnecessária ao processo.
Apoiei-me nos amigos, na família e nas medicinas complementares. Recorri ao biofeedback e, ainda, à acupuntura, onde fui aconselhada a eliminar os alimentos termogénicos (caril, gengibre e pimenta, por exemplo) e a fazer refeições de digestão fácil: cinco tipos de fruta, cozidos e grelhados, sopa à noite e só até às 20 horas. Quanto aos doces, o médico oncologista deu luz verde, mas sem abusar. Nessa altura também deixei os cigarros eletrónicos, que me queimavam os lábios. Optei pelos tradicionais, mas fumar na varanda, ao frio, era arriscado e fui dizendo a mim mesma “já vou”. Passou um dia, depois outro. Foram dois meses sem o fazer.
Retomei a vida profissional na rádio e voltei ao Café da Manhã, mas respeito mais o tempo de descanso. Antes a regra era “descanso, quando der”, agora é “descanso, e brinco quando der
Quando iniciei as sessões quinzenais, fiquei sem plafond no seguro de saúde e fui transferida para o IPO. A enfermeira ensinou-me a dar injeções na barriga para estimular a medula óssea e tive algumas dores articulares como efeito secundário. Terminei a químio em junho e fui operada em agosto. Entre tirar o quadrante onde estava o tumor e a mama toda, apoiei-me no médico e optei pela segunda solução, por dispensar radioterapia e ser mais segura. Não precisei de fazer o esvaziamento da axila e, com um implante colocado, saí do hospital com a reconstrução feita.
Quando cheguei à consulta de fisioterapia, um mês depois, já tinha recuperado a amplitude do braço: em vez de fazer os exercícios sozinha, recorri aos serviços de uma antiga fisioterapeuta do IPO. O médico perguntou-me se o fizera por preguiça. “Até pode ser”, respondi. Uma paciente não sabe o que pode, deve e não deve fazer, por isso quis ter ao lado quem soubesse fazer a manipulação e avançar um pouco mais.
Escutar sinais do corpo
Na consulta médica, marcada para a véspera dos meus 43 anos, fiquei a saber que estava tudo bem nas análises: foi essa a minha prenda de aniversário! Desde o início, acreditei que havia 50% de trabalho dos médicos e 50% de trabalho pessoal. Admito que isso pode conduzir a uma transformação, até mesmo a nível celular, e fazer com que tudo volte a funcionar no sítio certo. O cancro não me tirou nada, só me acrescentou, em consciência e autovalorização, e fez-me ver que cuidar de mim é um trabalho diário e para o resto da vida. Já o sabia, mas andava a faltar aos treinos, com tanta aceleração e solicitações.
Retomei a vida profissional na rádio e voltei ao Café da Manhã, mas respeito mais o tempo de descanso. Antes a regra era “descanso, quando der”, agora é “descanso, e brinco quando der”.
Quando aceitei o convite para escrever o livro, quis encorajar as pessoas a escutarem os sinais do corpo, em todos os dias do ano. Ao selecionar as fotografias, fiquei abismada com a minha imagem, que nada tinha que ver com o que eu sentia então: “Como é que passei por tudo isto sem sentir que foi um peso?!”
Gosto muito de viver e não tenho medo da morte. O título Escolhi Viver aplica-se à forma como aceitei – e saboreei – os ciclos das coisas da forma mais positiva possível, para ficarem bem processados no meu currículo de vida. E essa é uma escolha que, às vezes, as pessoas não percebem que também podem fazer.
