Tinha sete anos quando escreveu uma carta de apresentação.
Em 1999, chegava à redação da revista Surf Portugal um envelope para o correio dos leitores onde se lia: “Olá.
Meu nome é Frederico Morais, tenho 7 anos e ainda vão ouvir falar muito de mim.” Um presságio concretizado daí a três anos, quando Kikas, alcunha de Frederico Morais, foi campeão nacional de surf, na categoria sub-12, e confirmado no passado domingo, 4, ao ficar em segundo lugar nas meias-finais da prova havaiana Vans World Cup, assegurando a presença no circuito mundial de surf (WCT) do próximo ano algo até agora só conseguido por Tiago Pires, que integrou a elite entre 2008 e 2014.
Aos 24 anos, o surfista nascido em Cascais qualifica-se também para a final de um dos mais prestigiados troféus do surf mundial, onde defrontará o americano Tanner Gudauskas, o australiano Jack Freestone e o havaiano Ezekiel Lau. E deverá igualmente ser convidado a competir na Billabong Pipe Masters, a última etapa do circuito mundial de surf de 2016.
Esta não foi a primeira vez que Frederico igualou um feito de Tiago Pires o seu ídolo, com quem, também aos sete anos, tirou uma fotografia no mundial da Figueira da Foz e lhe pediu um autógrafo.
Em 2013, Kikas foi Rookie of the Year (estreante do ano), no campeonato Vans Triple Crown, no Havai, tal como já acontecera com Tiago.
Do alto do seu metro e oitenta, Kikas tinha tudo para seguir uma carreira no rugby, ou não fosse o pai Nuno Morais, antigo jogador e fisioterapeuta, e o tio, Tomaz Morais, ex-selecionador e antigo coordenador da Federação Portuguesa de Rugby. Mas o fascínio pelo mar falou mais alto desde que pela primeira vez, aos seis anos, experimentou uma prancha de bodyboard, numas férias em Vilamoura.
Mas Kikas achou que fazer-se ao mar deitado era fácil e quis pôr-se de pé. Na sua praia, a do Guincho, conseguiu-o logo na primeira onda que apanhou com a prancha de surf. Seguiram-se muitos treinos, dados pelo pai, que o empurrava para a frente no Atlântico bravo de Cascais.
Desde os seus dez anos, a família passou a fazer férias em jeito de surf trip, proporcionando natais no Havai, páscoas na Austrália e carnavais nas Maldivas para que Kikas tivesse aulas com treinadores experientes. Atencioso com as mulheres da família, Kikas é um irmão mais velho protetor e um neto generoso. Trabalhador, determinado e competitivo, gosta de andar com a prancha debaixo do braço e aprecia o contacto com a natureza.
Fã do rock californiano dos Red Hot Chili Peppers, há nove anos dizia, em diversas entrevistas, que queria seguir uma carreira profissional e conseguir correr os campeonatos mundiais. O momento chegou.
O caminho do campeão
Desde os dez anos que Frederico Morais soma vitórias
Bicampeão nacional sub-12 (2003, 2002)
Pentacampeão nacional sub-14 (2006, 2005, 2004, 2003, 2002)
Bicampeão nacional sub-16 (2006, 2005)
Tricampeão nacional sub-21 (2009, 2008, 2006)
Bicampeão nacional open (2015, 2013)
Rookie of the Year no Havai (2013)
Afastou Kelly Slater, 11 vezes campeão mundial, em Peniche (2013)