ACOMPANHE A CARAVANA
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Dois pais de família vão de carros buscar refugiados
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A bordo da caravana
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A passagem por Espanha
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Retratos da caravana: Pedro Lapa
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“Temos um plano!”
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Retratos da Caravana: Vera Valério Batista
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Retratos da Caravana: Paulo Leão
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Caravana cumpre parte da sua missão
Quando se entra nos arredores de Viena de Áustria já se vai na expetativa de os encontrar. Há semanas que os repórteres dão notícia deles na cidade, dizendo que a maioria gasta os seus dias por perto da estação central de onde partem os desejados comboios para a Alemanha. Em terras alemãs, são poucos os que tentam continua para norte, até à Suécia, há de explicar-nos Nina, uma voluntária da Train of Hope que veio por três dias e está cá há três semanas. A maioria acaba por pedir asilo logo ali, mesmo que tenham sido despejados, sem aspas, numa qualquer cidade de nome impronunciável. “Os alemães”, diz Nina, “estão a ‘distribuí-los’ pelo país.”
A estação fica a apenas três paragens de metro do centro de Viena; sete minutos de viagem é quanto baste para um refugiado pisar o coração de uma das cidades mais bonitas da Europa. No entanto, são raros os refugiados que arriscam afastar-se dos carris que os poderão levar rumo às promessas da Senhora Merkel.
Empurrados para uma espécie de bastidores da estação, numa zona que não costumava ser utilizada, fazem de vez em quando umas incursões no seu centro comercial que ocupa 2 mil metros quadrados, mas a maior parte dos dias é passada aqui mesmo a reaprender a viver.
Não é verdade que sejam deixados ao Deus dará, como escrevi no artigo publicado na edição em papel desta semana. Recebem uma espécie de curso acelerado, dado pelos voluntários da Train of Hope que ali começaram a ajudar os refugiados há um mês e acabaram por criar uma estrutura quando os donativos se tornaram demasiado grandes para serem geridos por um grupo de amigos. No exterior das traseiras da estação têm tendas com ajuda médica, roupa e sapatos, e contentores com casas de banho. Lá dentro, têm de tudo.
Serve-se comida – à base de legumes, cuscus, arroz e massa – e bebidas quentes, distribuem-se cartões de telemóvel, esticam-se colchonetes e mantas, ajuda-se a escolher o próximo destino apontando-o nuns mapas que acabam em França e têm uma cruz em cima de dois países: Suíça e Dinamarca. O primeiro não os deixa passar, o segundo tem fama de tratar mal os refugiados.
Abdallah. Visto pela última vez a 22 de setembro
Numa das pontas deste corpo do edifício tão comprido que é difícil ver com nitidez o seu fim, juntam-se algumas crianças à roda de pequenas mesas cobertas de papéis e lápis de cor. Uma meia dúzia apenas a aproveitarem o jeito para o desenho e a boa disposição dos voluntários porque as suas famílias temem ser separadas.
“Já se perdeu muita gente na pressa da fuga”, conta Stéphanie Barbosa, filha de pai austríaco e mãe portuguesa, que aqui passa os seus tempos livres a fazer o que for preciso para ajudar. Sempre que alguém é encontrado e uma família reunida, a sua fotografia é retirada da parede dos desaparecidos. São poucos os espaços em branco e muitas as descrições em árabe e inglês. “Abdallah. Visto pela última vez a 22 de setembro, na fronteira da Sérvia/Croácia, com uma perna magoada. Não tem telemóvel! Mahmout + Ahmet à espera em Viena! Train of Hope 0688(…) Michaela.”
A organização Train of Hope, ainda não o escrevemos, tem um nome certeiro. Traduzido para português fica um piroso Comboio da Esperança, mas borrifemo-nos no estilo porque a esperança destes refugiados é mesmo um lugar num comboio que os leve a acreditar no futuro, mesmo que tenham de esperar dias infindos sentados no chão frio desta estação e as noites num dos abrigos da cidade (nem todos aceitam sair daqui, percebe-se pela quantidade de pequenas tendas de campismo montadas lá fora).
Se já era difícil arranjar bilhete, até domingo nem vale a pena tentar porque o Oktober Fest que todos os anos enche Munique de forasteiros amantes de cerveja levou ao corte dos comboios para a Alemanha. Por isso tinham dito aos portugueses da caravana Famílias Como as Nossas que era possível que alguns refugiados ouvissem com atenção o convite para irem morar em Portugal.
Passa-se por esta sala-corredor e há quem fique com vontade de encher autopullmans rumo ao sul.
Vale-nos a coluna de som de Nily Nils, um jongleur que respondeu ao desafio dos voluntários da Train of Hope e veio animar as hostes com as suas massas, bolas e bicicleta de uma só roda. “Os refugiados viveram situações tão extremas que é muito fácil passar do negativo para o positivo”, diria o alemão no final do seu show, com modéstia, no meio de muitas palmas, gargalhadas e telemóveis ligados no vídeo. Logo depois veio o pedido: será que podiam usar o seu sistema de som para ouvirem músicas sírias e iranianas em altos berros?
Homens, rapazes, rapazinhos. De braço sobre o ombro do vizinho, formam uma roda e desatam a rodopiar numa coreografia de fazer inveja ao nosso Paulo Ribeiro. Os pés ressoam no chão, abafando a voz de Nils que defende: “Temos de ajudá-los. Porque, se as diferenças das várias partes do mundo são muito grandes, não sobreviveremos. Nós, aqui, somos tão ricos que é ridículo não fazermos mais.”