Primeiro, como chefe de secção de uma empresa do grupo Investvar (Aerosoles), enfrentou o machismo que a desqualificava só com um olhar. Depois, apercebeu-se da decadência do negócio e ofereceu-se para sair. Com o dinheiro da indemnização – pouco mais de 5 mil euros – e apoios à criação de emprego, montou uma pequena fábrica de calçado, para onde arrastou ex-colegas e também antigas funcionárias da Clark’s. “Comecei com oito trabalhadoras e hoje tenho 37. Jurei que não iria continuar como empregada de uma fábrica, a menos que fosse a patroa. Levantei isto sozinha e em breve irei mudar para um espaço maior”, explica Cátia Rodrigues, a empresária, de 30 anos, que instalou a Saltyula, em 2009, no Centro de Apoio à Criação de Empresas, de Castelo de Paiva, “uma das melhores ideias dos últimos tempos”.Agora ela trabalha para as principais empresas de calçado, em regime de subcontratação. Quase tudo vai para o estrangeiro com a marca da Gattino, da Mustang ou de Tommy Hilfiger, por exemplo. “Não temos de nos envergonhar de nada. Alguns dos melhores designers e produtores de calçado do mundo são portugueses. Somos cada vez mais uma referência”, assinala Cátia, lamentando apenas a falta de gente para trabalhar. “Quero mais pessoas, mas onde estão elas? Quem me bate à porta tem pouca disponibilidade, prefere continuar em formações ou com o Rendimento de Inserção.” A jovem empresária paga o salário mínimo nacional (485 euros), não contesta os apoios sociais, mas “algo tem de mudar na atitude das pessoas e das instituições. Deve haver oportunidades para quem quer, de facto, trabalhar, e a formação terá de adaptar-se à realidade do mercado”. Para já, ela ascendeu a símbolo, numa terra onde o desemprego é tragédia maior.
A mulher que deu corda aos sapatos
Ex-operária, Cátia Rodrigues, contra ventos e marés, criou a sua própria fábrica de calçado - sempre a crescer e a faturar