Quando Jesus entrou em campo o resultado estava feito. Dois a zero.Bem, trata-se de um lapso freudiano. Só no site do clube é que o nome do jogador ainda era esta semana “Cícero Jesus”. Na verdade o futebolista chama-se Cícero José, é brasileiro e tem 31 anos.Mesmo sem Jesus em campo, os primeiros dois golos do Centro Desportivo de Fátima no futebol profissional devem ter sabido bem ao ex-futebolista amador José Fetal Marto. José tem 67 anos e é “o sócio nº7”, como diz enquanto procura no porta-moedas o cartão de sócio, sentado numa das cadeiras de plástico azul da única bancada do estádio. O jogo ainda não começou e lá em baixo, junto à relva, um jogador da equipa adversária aproveita a música em altos berros para dançar. Parece confiante. Ainda não sabe que hoje perderá contra a equipa onde jogou José Marto. O sócio nº7 foi capitão de equipa no tempo em que “o campo era só seixos, a bola era quadrada, só havia uma para os jogadores todos”. Quando o clube ainda se chamava Centro Paroquial de Fátima e pertencia à Fábrica da Igreja. O Fátima foi fundado em 1958 pelo padre Manuel Henriques, inscreveu a equipa de futebol na Associação de Futebol de Santarém em 68 e mudou de nome em 88. O canalizador reformado José Marto ainda é primo afastado dos pastorinhos, vive na Cova da Iria e assiste a todos os treinos e aos jogos em casa. No Fátima, alinhou primeiro a avançado e mais tarde como médio. Nesse tempo a equipa treinava no Campo do Estoril, entretanto comprado pelo Santuário. Jogou no clube até aos 35 anos, a partir do dia em que o padre Henriques o foi buscar à equipa do Atouguia, era ele um adolescente. Antes andara no seminário durante três anos, até ao momento em que ficou “saturado daquilo e já começava a olhar para as gajas”.Isso já foi há muitos anos, no tempo em que o clube ainda não existia. No tempo em que o defesa “Estorninho” ainda não tinha marcado a história do futebol local. Terá sido ele o melhor jogador que passou pela equipa, o já falecido bancário e defesa-central Toino Marto – também primo de José Fetal Marto – mais conhecido como “Estorninho”. Era “um jogador primo-divisionário, sem favor nenhum”, como confirmará o Presidente e padre António Martins Pereira, ex-avançado do clube e colega de equipa de Estorninho.”Desportivo! Desportivo de Fátima!”, grita-se aos altifalantes do estádio municipal, “Goooooooooolooooooo!” No princípio esteve Bispo. Foi ele que marcou um canto com final feliz, convertido em golo por Samuel aos 13 minutos. Pouco depois, a equipa treinada por Rui Vitória chegou ao dois a zero. E conseguiu mantê-lo até ao final. Perante o favorito Trofense, que tem no plantel 11 futebolistas vindos de clubes da primeira divisão.A vitória no primeiro jogo do campeonato foi importante, a passagem à terceira eliminatória da nova Taça da Liga também. Sobretudo porque para aí chegar o Fátima deixou pelo caminho o Santa Clara – segunda divisão – e a Académica de Coimbra, da primeira divisão. Agora virá cá jogar o campeão nacional da primeira divisão, o gigante Futebol Clube do Porto. Será que o Fátima vai ser o novo David deste Golias do futebol português?O jogo terá transmissão televisiva e será aqui em Fátima. Na próxima quarta-feira, 26 de Setembro, às 19:15. Consagre-se ou não como novo Tomba-gigantes, o verdadeiro milagre do Centro Desportivo de Fátima já aconteceu. Foi a subida à segunda divisão do futebol português. Agora resta saber se o passo não terá sido maior que a perna. A equipa de futebol sénior do Centro Desportivo de Fátima tem o orçamento mais baixo da Liga de Honra, o menor número de sócios pagantes e uma estrutura administrativa amadora. E falando de história, o Fátima é o clube fundado há menos tempo entre todos os que participam este ano na também chamada Liga Vitalis. Mas é difícil encontrar clube mais abençoado. Embora os jogadores orientados por Rui Vitória joguem no Estádio Municipal de Fátima, costumam treinar em terra santa.”Aqui aterrou o helicóptero que trouxe de Lisboa o Santo Padre João Paulo II em 12 de Maio de 1982 para a sua peregrinação ao santuário”, é o que se pode ler numa placa de pedra colocada no Estádio João Paulo II, na Rua Padre António Martins Pereira.O Presidente e padre António Martins Pereira chegou à área VIP do Estádio Municipal 10 minutos antes do início do jogo. Ao intervalo confessa-se nervoso, embora o clube da casa já esteja a ganhar por dois a zero. Neste domingo em que o Fátima se estreia na segunda divisão do futebol nacional, o padre-Presidente celebrou a missa em Abrã. Já quando o Fátima jogou contra o santa Clara, o Presidente teve de sair de uma procissão a correr para ir assistir à segunda parte. E a seguir ainda foi celebrar uma missa. Além de presidir ao Centro de Recuperação Infantil de Fátima e de ser pároco de Abrã e Amiais de Baixo, Pereira é Presidente deste clube que tem uma bola e um livro no símbolo. E onde por coincidência jogam futebolistas com nomes tão eclesiásticos como Castigo e Bispo.Por vezes o padre Pereira usa na missa exemplos do futebol, é adepto do Futebol Clube do Porto e apologista do desportivismo. Quando esteve em paróquias alentejanas foi dirigente desportivo de dois pequenos clubes de futebol, “dava equipamentos e pouco mais do que isso”. E diz que o futebol tem sido uma forma de chegar a meios onde não chegaria de outra forma. Nasceu em Sobrado de Valongo, a mais ou menos 200 quilómetros do Estádio João Paulo II e da rua que agora tem o seu nome. Aos 10 anos veio para o Seminário, em Fátima, quando a família emigrou para a Venezuela. Só voltou a ver a mãe aos 25 anos, quando se formou em Teologia. Logo a seguir começou a sua carreira de jogador amador – sempre no ataque do Fátima – e licenciou-se em Filologia Românica. A biografia de António Pereira mistura-se com a do clube e é inseparável do seu sucesso. Também é verdade que o Santuário apoia o clube, em particular os escalões de formação. Mas o milagre do Fátima explica-se em grande parte pelo pragmatismo deste Presidente que tem no currículo várias igrejas construídas e reconstruídas, salões paroquiais, recintos desportivos… E confessa ter jeito para angariar apoios e publicidade, por já ser conhecido e merecer a confiança dos empresários da região. Mesmo assim, tenciona passar a pasta no fim do seu mandato, em Fevereiro. Já é presidente desde 2002, quando decidiu reunir uma comissão administrativa que pegou no clube para o retirar de uma situação financeira complicada. Orgulha-se de esta ser agora uma instituição que cumpre os seus compromissos. Mas apesar de gostar de dizer que o futebol o ajudou muito, quer passar a um lugar mais discreto na administração. No mesmo clube onde marcou muitos golos durante 7 anos de futebol federado.”A partir do momento em que o clube se tornou profissional, eu já não sou a pessoa certa [para a presidência].”O jogo chegou a meio. Ao intervalo, o speaker de serviço dá a boa nova aos altifalantes do estádio. Quem comprou o bilhete com o número 5683 tem direito a ir buscar um presunto ao bar. Atrás do balcão do bar onde será levantado o presunto sorteado, a saída de bifanas e afins é orientada por uma dirigente do clube. A vice-presidente Antónia Mascarenhas Rodrigues, 70 anos, é conhecida por “Toina” e pelo seu amor ao Fátima e ao Benfica. Sobre o Presidente, conta que “é capaz de não dizer a missa para ir à bola”. O próprio esclarece que só não acompanha a equipa nos jogos em casa quando tem algum funeral ou casamento nas suas paróquias. Antónia Mascarenhas Rodrigues é vice-presidente há 12 anos e conhece bem este clube de que faz parte há 26. Embora se considere “alfacinha de gema, da Mouraria”, vive em Fátima há 41 anos e é proprietária de uma frutaria próxima do Santuário. Teve um primo que jogou no Benfica e é madrinha de Sérgio Pinto – irmão do seu ídolo, o futebolista João Pinto, agora no Sporting de Braga. O clube da terra ainda não chegou a esses voos da primeira liga onde o ídolo de Antónia continua a marcar golos. Mas além da vitória inaugural sobre o Trofense, o Fátima já coleccionou uma derrota e dois empates, conquistando cinco de doze pontos possíveis. Nada mau para este estreante que tem um padre na presidência, um Bispo na defesa e um primo dos pastorinhos na bancada.
O “milagre” do Fátima
O clube estreou-se este ano no futebol profissional, tem o menor orçamento da Liga de Honra e é presidido por um padre. Leia a reportagem, conheça os segredos e veja a galeria fotográfica
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