As eleições apanharam o Nós, Cidadãos! de surpresa. Joaquim Afonso, o único militar a liderar um partido político em Portugal, sabe que, desta vez, será impossível crescer – o partido só concorre em cinco círculos (Porto, Braga, Madeira e os dois do estrangeiro), sendo o único que não apresenta lista por Lisboa.
Nas legislativas de 2022, o Nós, Cidadãos! caiu para os 3 914 votos (tinham sido 12 397 em 2019). Ainda assim, o líder não deita a toalha ao chão. “O Nós, Cidadãos! nunca se apresentará fragilizado, porque representa um povo que está cansado da política dos do costume e, acima de tudo, é um movimento de cidadania que já não se revê nos partidos políticos”.
Joaquim Afonso aponta a mira aos partidos que, durante 50 anos, “andaram a governar-se a eles e aos amigos”. Defende reformas profundas na lei eleitoral e na administração pública. E alerta que Portugal “já está na Terceira Guerra Mundial”.
Sem grandes expectativas, admite que “gostava” que o País encontrasse uma solução governativa de “estabilidade” no próximo domingo, mas não acredita. “Assim que se chegar à votação de um Orçamento, eles vão chatear-se todos outra vez”, lamenta.
O Joaquim Afonso tem sido muito crítico da forma como o PS “desperdiçou” a maioria absoluta. O ato eleitoral surge numa altura imprevista, o que parece ter dificultado a entrega das listas do Nós, Cidadãos!, que só concorre a cinco círculos e é o único que não vai estar nos boletins de voto em Lisboa…
A questão da queda do Governo não foi o que dificultou a apresentação das listas, o problema foi o Presidente da República ter marcado imediatamente a data das eleições e ter demorado quase seis meses a dissolver o Parlamento. De acordo com o calendário legal, as listas têm de ser apresentadas até um determinado prazo antes das eleições, portanto, acabámos por ter apenas 10 dias para preparar as listas. Na minha opinião, se o primeiro-ministro se demitiu, o Presidente da República deveria ter-lhe dito, logo no dia seguinte, “Dê cá as chaves do Palácio de São Bento, vá embora, rua!, que esta casa não é sua”. E não deixá-lo a andar por aí a fazer propaganda, campanha por um partido que se portou mal, que em dois anos teve não sei quantas escandaleiras, demissões e substituições, quando, pelo contrário, devia ter tido sentido de Estado para governar o País como deve ser. Uma maioria absoluta é uma coisa inestimável… Permitiria fazer mudanças estruturais profundas, trazer finalmente o nosso país para o século XXI, coisa que não foi feito… Andaram a governar-se a eles e aos amigos, e foi o que se viu.
O Nós, Cidadãos! apresenta-se, então, fragilizado nestas eleições…
O Nós, Cidadãos! nunca se apresentará fragilizado, porque representa um povo que está cansado da política dos do costume e, acima de tudo, é um movimento de cidadania que já não se revê nos partidos políticos. Sabemos que isto é um paradoxo, porque, oficialmente, somos um partido político, mas costumo dizer que “uma coisa que está partida já não se endireita”. Representamos, sim, um povo inteiro que quer fazer política para além dos partidos.
O partido concentra, em si mesmo, uma série de sensibilidades distintas. O binómio esquerda-direita é algo rejeitado. Onde se situa, hoje, o Nós, Cidadãos!?
Não é questão de ser rejeitado, simplesmente não faz mais sentido. Essa classificação política de esquerda e direita é uma coisa com 200 anos, da Revolução Francesa. Nós já nem soberania temos para mandar naquilo que é nosso, quem manda é Bruxelas. O que temos de tentar é, através da vontade, com a soberania que nos resta, tentar fazer com que as pessoas tenham bem-estar no seu dia-a-dia, que as famílias tenham bem-estar. Há coisas de que ninguém fala nesta campanha, que têm a ver com a conjuntura Internacional. Quer queiramos quer não, Portugal está em guerra. E é a Terceira Guerra Mundial…

Essas preocupações fazem parte do programa para esta campanha?
Nós não fazemos programas, nem definimos políticas para quatro anos, isso é para os partidos do costume. A cidadania programa-se a 20, 30, 40 anos… E o que nós precisamos é de projetar que país queremos para no futuro. Não é, certamente, um país e uma sociedade dependente desta política protagonizada por pessoas que eram os piores alunos das suas escolas, mas que depois começaram a meter-se nas juventudes partidárias, nas associações de estudantes e, com 20 e poucos anos, já eram deputados, sem fazerem mais nada mais na vida.
Tem criticado muito os governos PS e PSD…
Claro, obviamente. Então, passados 50 anos do 25 de Abril, com tanto dinheiro que já veio da União Europeia, não se conseguiu fazer isto evoluir…
O que propõe o Nós, Cidadãos! para que esta situação seja alterada?
São coisas muito simples e muito lógicas. Primeiro, rever o sistema político eleitoral, já ninguém se revê neste sistema em que as pessoas são representadas por tipos que nem conhece nem se sabe quem são. Dou um exemplo: uma pessoa que não tenho qualquer tipo de confiança, como pessoa, como político… Eduardo Teixeira foi, durante 30 anos, cabeça de lista do PSD por Viana do Castelo, agora, como viu que não seria escolhido nas listas, aproveitou o tacho e vai pelo Chega… Mas que é isto? Que gente é esta? Por isso, somos a favor de círculos uninominais, que estão previstos na Constituição. Há 30 anos, estive com António Costa há 30 anos, em Viana do Castelo, quando era capitão de porto e ele, na altura, era ministro dos Assuntos Parlamentares, e propus-lhe fazermos essa experiência de democracia direta, numa pequena autarquia, com uma faculdade envolvida; um caso de estudo. E ele, vermelho de raiva, aos gritos comigo, porque esta gente tem medo é de perder o tacho.
E além dessa alteração da lei eleitoral?
Temos, acima de tudo, é dignificar o estatuto do funcionário público, acabar com os tachos para os amigos dentro da estrutura do Estado. Reconverter todas aquelas estruturas, desde institutos a empresas públicas, porque, segundo o plano oficial de contabilidade que rege a administração pública, direta do Estado, ninguém pode ganhar mais que o primeiro-ministro. E o que esta gente tem feito, tanto PS como PSD, é, ao longo dos últimos 50 anos, criar feudos fora da estrutura oficial do Estado para poderem dar empregos de cinco mil euros aos amigos.
A sua principal mensagem parece ser a necessidade de haver uma “moralização” da política portuguesa. É assim?
Completamente! Já tivemos esse tipo de administração pública, em que ser funcionário público era um motivo de orgulho. Hoje, um funcionário público competente é um frustrado, porque sabe que se não tiver um cartão de uma determinada cor política, ou laranja ou cor-de-rosa, não é promovido. Até ao nível de chefe de serviço já chega a partidarite. Isto tem de acabar!

O Joaquim Afonso é também alguém com percurso militar, ligado ao mar… O “mar português” continua a ser uma das suas principais bandeiras?
Afirmativo!. Não queremos que a solução do país passe só pela Europa. Sempre que nos virámos para Espanha, levámos porrada; cada vez que nos virámos para o mar, progredimos. Portanto, tem de haver aqui uma solução sensata e equilibrada com o espaço da lusofonia, que é um espaço com um potencial gigantesco, e que é a nossa área de influência estratégica há mais de 500 anos, e não pode ser desprezada. Defendemos um cartão de cidadania lusófona, até porque o Atlântico Sul e parte do Atlântico Norte é mar lusófono. Do lado de África, temos Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Do lado da América, temos o Brasil. Porque raio é que os Estados Unidos da América é que têm uma esquadra permanente no Atlântico? Não faz sentido. Devíamos criar uma força naval internacional lusófona, para garantir presença naval, combater a pirataria no Atlântico Sul, que é espaço de influência lusófona… Infelizmente, Portugal não quer ocupar esse espaço por revivalismos ideológicos palermas, que não fazem qualquer sentido. A história do país é o que é, não se pode mudar. Defendemos a lusofonia, mas sempre mantendo uma relação equilibrada com a Europa. Como disse e repito: sempre que Portugal se virou para o mar, andou para a frente.
Seria essa a solução para, como diz, a necessidade de reconquistar soberania face a Bruxelas?
Digo-lhe o seguinte: devia haver uma cadeira escolar obrigatória sobre o mar. 99% dos portugueses acha que o mar é na praia e que acaba logo ali. Nem sonham que há 400 milhas de mar português para lá do horizonte. Isso tem interesse estratégico, e se não ocuparmos o nosso espaço outros vão ocupar por nós.

O que é um bom resultado para o Nós, Cidadãos! no dia 10 de Março?
Um bom resultado era haver estabilidade governativa… Não vai haver maioria absoluta e, por isso, lá para novembro teremos eleições outra vez… Mas, nessa altura, o Nós, Cidadãos! vai apresentar listas nos círculos todos e estará preparado, porque já basta disto.
Não acredita, portanto, que estas eleições vão trazer a tão desejada estabilidade?
Até pode trazer, mas assim que se chegar à votação de um Orçamento, eles vão chatear-se todos outra vez.