“Vamos embora que eu estou cheio de fome!” Esta é uma das “falas” mais inesperadas do filme de Ivo M. Ferreira Projecto Global (título propositadamente grafado como antes do novo acordo ortográfico), que tem como pano de fundo a história do grupo terrorista de extrema-esquerda FP-25, focando-se no microcosmo de uma ficcionada célula operacional. O personagem Balela, dono de uma agência funerária, interpretado por João Catarré, na qualidade de operacional, é uma espécie de motorista para apoiar as ações do grupo. Naquele dia, o seu companheiro Queiroz, interpretado por Isac Graça, encarregado de fazer o disparo fatal – matar à queima-roupa, em plena rua, um capitalista “inimigo do povo” − segue ao seu lado, na viatura destacada para a operação. Mas Queiroz tem um ataque de pânico, fica cheio de suores frios e, paralisado, não tem coragem para executar a missão. O alvo está em movimento, caminhando a pé, pela rua, e a qualquer momento pode virar a esquina e desaparecer. O Balela, apercebendo-se do iminente fracasso da missão, pega, ele próprio, na arma, sai do carro e interpela o capitalista: “Boa noite! O senhor é fulano de tal?” Perante a resposta afirmativa, mata-o a sangue-frio. Depois, regressa ao automóvel e arranca em alta velocidade. São horas de jantar.

É provável que a cena reconstitua o homicídio de Diamantino Monteiro Pereira, administrador da Fábrica de Loiça de Sacavém, morto a tiro, em Lisboa, em 1982, sob a acusação de “exploração desenfreada” dos trabalhadores. Ou de Dionísio, administrador da Sorefame. Ele é um dos vários gestores ou empresários entre as 18 vítimas mortais, em atentados diretos, das FP-25 (Forças Populares 25 de Abril), o braço armado que resulta do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), ou PRP-BR (BR de Brigadas Revolucionárias, extintas no final dos anos 70). Mas o rol de atentados das FP-25 inicia-se a 15 de novembro de 1979, na Marinha Grande, quando um comando do PRP liquida o “arrependido” José Manuel Plácido, tesoureiro do partido, punindo com a morte as informações fornecidas às autoridades, insuportavelmente incriminatórias para vários camaradas seus, que já se dedicavam a assaltar bancos. A operação é desencadeada pouco antes do julgamento de Isabel do Carmo e de Carlos Antunes, carismáticos dirigentes do PRP, entretanto detidos. Os elementos clandestinos do PRP criam, pouco depois, as FP-25 (embora a execução de Plácido seja considerada o primeiro crime de sangue das próprias FP): a 20 de abril de 1980, a organização celebra o início da sua atividade “oficial” com o rebentamento simultâneo de centenas de petardos e o lançamento de panfletos por todo o País. E logo a 5 de maio do mesmo ano, é assassinado o militar da GNR Henrique Hipólito durante um assalto a um banco, no Cacém.
