A vereadora do PS na Câmara do Seixal, Elisabete Adrião, que foi uma das suspeitas de toma indevida da vacina contra a Covid-19, no arranque da campanha de vacinação no início do ano, foi apontada pelos órgãos locais concelhios como a primeira escolha para ocupar um lugar elegível na lista de deputados candidata por Setúbal. A autarca fez uma primeira toma da Pfizer um dia após ser indicada para o cargo de dirigente do Núcleo de Inserção Local (NLI) de Sesimbra, tendo sido uma das pessoas alvo de investigação aberta pelo Ministério Público sobre este tipo de prática – que ainda não conheceu um desfecho.
Apesar de o nome ter ainda tem de passar pelo crivo da Federação Distrital do PS/Setúbal, liderada por António Mendonça Mendes, na noite desta quinta-feira, a aprovação na concelhia do Seixal terá sido de tudo menos pacífica; ao ponto de vários dirigentes terem saído da sala onde foi votada a indicação, apurou a VISÃO. Entre esses dirigentes conta-se o próprio presidente da concelhia, Marco Fernandes, de quem não foi possível obter uma reação.
Caso entre na lista final em nono lugar – o lugar que, por norma, tem sido ocupado por nomes ligados ao Seixal – Elisabete Adrião pode chegar à Assembleia da República.
De um universo de 65 dirigentes da estrutura concelhia, Elisabete Adrião foi aprovada por 31 votos. Houve ainda quatro votos em branco e outros quatro para um segundo nome. Cerca de 25 socialistas estiveram ausentes da sala – alguns em protesto – confirmaram alguns desses elementos, que adiantaram que a proposta de tal nome partiu de Ricardo Ribeiro, membro da concelhia e atual comandante dos bombeiros de Paço de Arcos.
“Ficámos em choque, porque é o bom nome do PS que está em causa. Não precisamos que o PS/Seixal tenha a sua Margarida Martins. Sem menosprezo pelo trabalho que realizou como vereadora, às vezes há nomes que se tornam ativos tóxicos para o partido”, adiantou um daqueles dirigentes, que apela à consciência de António Mendonça Mendes – que já no passado terá vetado outras indicações pouco pacíficas.
“O presidente da Federação nas últimas eleições não aceitou que o nome indicado pelo PS/Palmela, o João Costa [secretário de Estado da Educação], entrasse. Esperamos que tenha o mesmo discernimento agora”, acrescentou outra fonte, que atribuiu a colocação do nome em cima da mesa a alguns eleitos socialistas, como Eduardo Rodrigues e Samuel Cruz.
À VISÃO, Samuel Cruz assumiu que foi um dos proponentes de Adrião e que o nome não terá levantado polémica no partido: “Haver 126 pessoas alegadamente vacinadas de forma indevida não faz delas condenadas. A Elisabete Adrião é uma mera técnica da Segurança Social, há 20 anos, que, quando muito, foi vítima de um processo, não o motor de qualquer decisão”. “Mas, jamais, quando se propôs o nome se pensou nessa questão da vacinação”, frisou.
Elisabete Adrião, de quem não foi possível ter logo uma reação a estes protestos internos, foi uma das 126 pessoas ligadas à Segurança Social que foram vacinadas indevidamente, com a autorização da diretora do Centro Distrital de Setúbal da Segurança Social, a também autarca socialista Natividade Coelho, que acabou por se demitir na senda deste escândalo.
Adrião diz não ter contado para decisão que permitiu vacinação
Já depois de o seu nome não ter passado pelo presidente da Federação do PS/Setúbal, Mendonça Mendes, a autarca socialista falou de uma estratégia que visa “estabelecer a confusão entre a qualidade de vereadora na Câmara Municipal do Seixal e a qualidade de técnica superior da Segurança Social, tentando criar um nexo de causalidade inexistente, com o facto de ter sido vacinada em Janeiro de 2020”.
“Sou vereadora da oposição, eleita pelo PS, na Câmara Municipal do Seixal, desde Outubro de 2013. Não tenho competências delegadas ou recebo qualquer salário por esse facto. Licenciei-me na Escola Superior de Educação de Almada com média final de 16 valores e sou técnica superior da Segurança Social desde 2001”, apontou, à VISÃO, por escrito, garantindo que no Núcleo de Inserção Local de Sesimbra (NLI) não exerceu um cargo de direção e que “nunca foi beneficiada enquanto funcionária pública, por ser vereadora” ou “militante do Partido Socialista”.
Elisabete Adrião defende, então, que não contou para a decisão de ter levado uma vacina sem que alegadamente estivesse num grupo prioritário: “como é evidente não tive, nem poderia ter, qualquer responsabilidade no processo decisório que conduziu à vacinação de 126 funcionários do Centro Distrital de Segurança Social de Setúbal”.
Já quanto à elaboração da lista candidata por Setúbal, a socialista desmente as fontes ouvidas pela VISÃO e frisa que não houve contestação interna na concelhia do Seixal relativamente à proposta do seu nome. Antes pelo contrário; sinaliza que “que o resultado da votação foi 31 votos a favor na nossa lista, contra 4 na lista opositora” e que o relatado por fontes próximas daquele processo “é uma pura invenção já que nenhum dos presentes em nenhuma das intervenções abordou essa questão”.
“Tal como é fantasiosa a ideia de que o candidato a deputado pelo Seixal habitualmente ocupe o nono lugar da lista. Ora, na última lista o elemento indicado ocupava o 14.º lugar, e o meu camarada Gil Costa, a quem desejo desde já as maiores felicidades, irá ocupar o 12.º lugar. Eu não serei candidata mas vou estar, como sempre, empenhada na defesa dos valores em que acredito”, concluiu a vereadora.
- atualizado a 14 de dezembro, com as declarações de Elisabete Adrião à VISÃO por escrito, uma semana após a reunião da Federação do PS/Setúbal, onde foi aprovada a lista final a correr por aquele círculo eleitoral.