A votação só aconteceu já passava das 4h da manhã, numa reunião com um ponto fundamental na agenda: o futuro político de Joacine Katar Moreira. Por uma “maioria expressiva” (e já não por unanimidade, como tinha acontecido antes do Congresso), a Assembleia do Livre aprovou a retirada de confiança política à sua única representante no Parlamento. O partido fica, assim, sem qualquer representação parlamentar, pouco mais de três meses depois da estreia na Assembleia da República.
Fonte do Livre conta à VISÃO que, apesar de longa, a discussão foi “cordata” e “bastante civilizada” – muito diferente, por exemplo, do tom da última intervenção de Joacine no Congresso do partido, há duas semanas. Na reunião estavam em confronto duas posições: manter o apoio à deputada, numa tentativa de ultrapassar os diferendos que marcaram a relação entre Joacine e o Livre nos últimos meses; ou retirar-lhe a confiança política e aceitar que o partido perdia qualquer capacidade de intervir politicamente no palco mais relevante que alcançou até ao momento. A decisão caiu para o lado do corte com a deputada, com um resultado “mais expressivo” do que o esperado por alguns membros da direção.
Já ninguém esperava que o encontro resultasse numa posição unânime como a que saiu da 42ª Assembleia do partido. Nesse encontro, todos os membros do órgão mais alargado do Livre entre Congressos votaram a favor da retirada de confiança de Joacine. Mas, precisamente no último Congresso, que decorreu a 18 e 19 de janeiro, em Lisboa, alguns dos apoiantes internos da deputada conseguiram a eleição para a Assembleia, com a saída de vários dirigentes que, por opção ou por limitação de mandatos, deixaram os lugares vagos naquele órgão de direção.
Nesse Congresso, Ricardo Sá Fernandes foi uma das (poucas) vozes que se fez ouvir em defesa de Joacine Katar Moreira. O membro do Conselho de Jurisdição do partido considerava que o que o Livre estava a fazer à sua deputada era uma “injustiça”. E, em declarações à VISÃO, abria a porta a uma saída, caso não fossem cumpridos “todos os pressupostos” e “respeitados os direitos fundamentais” de Joacine.
Agora, Sá Fernandes prefere deixar a poeira assentar. “Lamento [a decisão da Assembleia], não aceito que um partido que sempre quis lançar pontes para unir a esquerda não seja capaz de fazer mais para manter uma ponte com a sua única deputada”, diz. Decisões, só mais tarde.
No final do encontro da Assembleia, silêncio. Os membros que participaram no encontro desta quinta-feira à noite (e que se prolongou para a madrugada de sexta-feira) comprometeram-se com um código de silêncio e remeteram uma posição oficial para uma conferência de imprensa que deverá acontecer ao final da manhã desta sexta-feira, 31.
De Joacine, nem sinal. Depois de deputada e direção partilharem versões diferentes sobre a convocatória para esta reunião decisiva, a representante única do Livre acabou por não comparecer na reunião em que se decidia o seu futuro político. A VISÃO tentou contactar a assessoria da deputada mas não conseguiu obter uma resposta até à publicação deste artigo.