Economista e professor do ISCTE
Em Portugal: 2025 marcou o fim de um ciclo político, o que teremos em 2026 não está escrito nas estrelas. No fim de 2024, não era óbvio que estaríamos hoje neste quadro político nacional. Não foi só a vitória e o reforço da votação do PSD nas eleições legislativas de maio. Foi o colapso da liderança de Pedro Nuno Santos no PS e o que ele representava de proposta de governação alternativa. O crescimento do Chega e o lugar de segunda força que passou a ocupar no Parlamento. Foi também a chegada de José Luís Carneiro a secretário-geral do PS, adotando uma estratégia de acomodação que oferece ao Chega o papel de principal voz da oposição. A redução da esquerda à esquerda do PS a um mínimo de existência parlamentar. Como se não bastasse, as eleições autárquicas de outubro correram bem a Montenegro. Tudo isto foi suficiente para que o primeiro-ministro abandonasse o discurso moderado que adotou nas campanhas eleitorais de 2024 e 2025, mostrando claramente ao que vem: reduzir os impostos sobre os lucros, desregulamentar as relações de trabalho, concessionar serviços públicos a privados, fundir agências públicas sem critério, pôr a Segurança Social nas mãos de quem sempre a atacou, antecipando a reforma que aí vem. Ou seja, o PSD de Montenegro sentiu-se suficientemente seguro para deixar de fingir que é social-democrata e passar a assumir as suas pulsões liberais. Este desenvolvimento faria prever um ano de 2026 marcado por uma governação aguerrida, disposta a adotar medidas impopulares, contando com a fraqueza da esquerda, a hibernação do PS e uma colaboração disfarçada do Chega para o que é essencial. A confiança foi tanta que resolveu avançar com uma proposta de reforma laboral, que não constava sequer do seu programa eleitoral e que se revelou inaceitável por grande parte da população. Com o sucesso da greve geral, 2025 não acabou assim tão bem para Montenegro. Não é bonito ficar visto como o Governo dos ricos e dos patrões. De algum modo, o Governo vai ter de arrepiar caminho. Vamos ver como e em que medida.
