Os restaurantes ucranianos podem ter fechado portas ao público e entaipado vidros e janelas, mas dentro de algumas centenas deles o rebuliço continua a ser diário e com um propósito mais ou menos idêntico ao original: alimentar pessoas. Mesmo alguns dos restaurantes mais badalados de Kiev estão a participar neste esforço de guerra para dar de comer aos mais vulneráveis, aos profissionais de saúde, à população mais necessitada, aos soldados – os do exército e os recrutados na sociedade civil.
Em vez de refeições elaboradas, para clientes mais exigentes, um restaurante da moda no centro da capital ucraniana dedica-se agora a fabricar pão no forno e sopa de galinha para distribuir pelos defensores da cidade e pela população que se esconde das bombas nos abrigos subterrâneos. A liderar uma cozinha de voluntários, que mistura gente das tecnologias da informação com ajudantes especializados em química, está Pavlo Khrobust, 25 anos, um cozinheiro que tinha abandonado as lides há pouco tempo e decidiu voltar para os tachos e panelas após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Ao início, quis juntar-me às forças territoriais, mas percebi que era inútil lá. Comecei a pensar como poderia contribuir e descobri – a cozinhar”, admite, em declarações ao Kyiv Independent. “Em vez de uma metralhadora, agarrei numa concha e numa faca”, ilustra ao jornal publicado em língua inglesa. Legumes, papas e fruta também fazem parte do novo menu improvisado nestes tempos escassa oferta, mas muita solidariedade.
Segundo a BBC, haverá por todo o país mais de 450 restaurantes nesta espécie de missão camuflada. É usual os fornecedores, muitas vezes produtores locais, não cobrarem pelos produtos, muitos senhorios suspenderam as rendas (e até as contas de água e luz) e há empregados a aparecerem para trabalhar mesmo sem receberem salário, fora os voluntários.
No Milk Bar, também em Kiev, confecionam-se agora 500 refeições por dia para distribuir gratuitamente pela população, relata a estação britânica de televisão. “Nem sequer estou a contabilizar os prejuízos”, diz Anna Kozachenko, a proprietária, que se mantém acompanhada por 20 funcionários apesar de não lhes ter pago ordenado nas últimas semanas.
Dono de uma cadeia de 14 restaurantes, e outros tantos mercados, Mikhail Beylin está a entregar mais de oito mil sandes e cinco mil refeições quentes por dia, beneficiando de fornecedores generosos que não cobram pelos produtos ou os vendem sem lucro, adianta, desvalorizando os gastos. “Não é tempo para nos preocuparmos com finanças, lucros ou margens, agora é tempo para todos agirem de forma a impedirmos mais destruição de vidas.”
Claro que a grande preocupação é manter a cadeia de abastecimento durante uma guerra que ninguém sabe quanto tempo vai durar. Mas uma coisa é certa: enquanto houver produtos a chegar, haverá mão de obra para alimentar os ucranianos que, por uma razão ou por outra, optaram por permanecer no país.