- Qual é o pior cenário que teme para este conflito? E o melhor?
No pior cenário, não se podem excluir incidentes militares envolvendo aliados da NATO, como a Turquia. Um episódio dessa natureza elevaria drasticamente o risco de internacionalização do conflito e poderia ter consequências diretas para a Europa, sobretudo se fossem acionados os compromissos de defesa coletiva consagrados no Artigo 5.º da Aliança Atlântica. Nesse caso, cidades europeias poderiam tornar-se potenciais alvos de retaliação iraniana através de mísseis balísticos ou drones, caso Teerão detenha meios suficientes para atingir o velho continente.

Em paralelo, um cenário particularmente preocupante seria a eventual saturação das defesas aéreas de Israel e dos países árabes do Golfo. Um ataque iraniano combinando mísseis balísticos com o emprego massivo de drones, potencialmente às dezenas de milhares, poderia sobrecarregar esses sistemas defensivos. Contudo, permanece incerto até que ponto Teerão manterá essa capacidade de projeção, sobretudo após os recentes ataques israelitas e norte-americanos contra parte significativa das suas infraestruturas militares. Neste contexto, ataques a infraestruturas energéticas na região, tentativas de atingir instalações petrolíferas e centros urbanos nos Estados vizinhos, bem como perturbações significativas no comércio internacional, tornar-se-iam riscos cada vez mais plausíveis.
Ao mesmo tempo, a implicação indireta de grandes potências rivais dos Estados Unidos, como a China, poderá aprofundar a polarização geopolítica e aumentar o risco de uma escalada global. Até porque Pequim depende em cerca de 45 % do petróleo que atravessa o Estreito de Ormuz e, tem vindo a consolidar uma parceria estratégica com Teerão. Além disso, uma aceleração da proliferação nuclear regional surge como um perigo real, sobretudo se o regime iraniano concluir que a aquisição de armas nucleares é indispensável para garantir a sua sobrevivência.
Por contraste, o melhor cenário seria uma rápida mudança de regime em Teerão, em linha com os apelos de Donald Trump para que o povo iraniano se revolte contra o atual poder. Se a decapitação do regime, nomeadamente com a morte de antigo líder supremo Ali Khamenei e de outros dirigentes, desencadear uma transição interna para um governo mais moderado, apoiado por curdos, dissidentes e pela diáspora, o conflito poderá encerrar-se em poucas semanas. Essa mudança política abriria caminho a uma rápida estabilização interna e a uma redefinição da política externa iraniana.
Nesse cenário, o novo poder, com ou sem a permanência de dirigentes da atual República Islâmica do Irão, aceitaria desmantelar as ambições militares do programa nuclear iraniano sob supervisão norte-americana e internacional. Tal abriria caminho a um acordo nuclear mais ambicioso do que o defunto JCPOA, incluindo limites ao programa de mísseis balísticos e o fim do apoio a proxies regionais, como o Hezbollah, os Houthis, o Hamas e as milícias xiitas no Iraque e na Síria.
Para Washington, tal desfecho permitiria proclamar missão cumprida; para Israel, representaria a neutralização duradoura da ameaça iraniana. Uma eventual “paz trumpiana” poderia ainda contribuir para estabilizar os mercados energéticos, aliviar a pressão sobre o preço do crude e reabrir um canal de diálogo com grandes potências adversárias. Ao mesmo tempo que consolidaria alianças contra o terrorismo patrocinado por Estados e reduziria o risco de uma nova escalada nuclear no Médio Oriente.
- Como ficarão as relações dos EUA com a Europa depois desta intervenção?
As relações transatlânticas deverão atravessar um período de tensão e intenso debate estratégico, mas dificilmente sofrerão uma rutura estrutural. A Europa continua profundamente dependente da arquitetura de segurança liderada pelos Estados Unidos, sobretudo num contexto marcado pela guerra da Rússia contra Ucrânia.
Ainda assim, a presente guerra no Médio Oriente reavivou um debate antigo no continente: o da autonomia estratégica europeia. A proposta de “dissuasion avancée” avançada por Emmanuel Macron a 2 de Março, ao admitir reforçar e alargar a dissuasão nuclear francesa a parceiros europeus, ilustra a crescente inquietação quanto ao grau de dependência das decisões estratégicas tomadas em Washington.
Ao mesmo tempo, a Europa voltou a revelar dificuldade em falar a uma só voz. Apesar de se apresentar como guardiã do direito internacional, a União Europeia não conseguiu formular uma posição clara sobre a intervenção militar dos Estados Unidos e de Israel. Na prática, emergiram várias Europas: Espanha recusou o uso das suas bases militares; França alertou para os riscos de escalada; países como Alemanha e Itália adotaram inicialmente uma postura cautelosa. Já o Reino Unido, fora da União, limitou-se a autorizar um apoio restrito, essencialmente logístico e defensivo, através das suas bases aéreas na região.
Paradoxalmente, crises desta natureza produzem efeitos contraditórios. Por um lado, reforçam a centralidade dos Estados Unidos na segurança euro-atlântica, por outro, alimentam na Europa a perceção de que é necessário desenvolver capacidades próprias de defesa e decisão estratégica, sobretudo quando Washington atua de forma unilateral e arrisca desviar recursos da defesa da Ucrânia. Simultaneamente, a escalada no Médio Oriente agrava os riscos económicos globais, com perturbações no comércio internacional e nova pressão sobre os preços da energia. Estas dinâmicas podem acabar por beneficiar mais a Rússia do que a China e testar, uma vez mais, a coesão transatlântica.
- Há o risco de uma corrida às armas nucleares a partir de agora – como única forma de dissuasão e de defesa para vários países?
Esse risco é real e não começou com a atual crise. Na verdade, tem vindo a intensificar-se desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. Desde então, a arquitetura global de controlo de armamentos nucleares tem-se vindo a degradar de forma acelerada. Tratados fundamentais desapareceram ou deixaram de produzir efeitos, como o Tratado INF, e, mais recentemente, o New START. Ao mesmo tempo, a rivalidade entre grandes potências regressou ao centro da política internacional, em particular entre os Estados Unidos, a China e a Rússia, alimentando uma nova corrida aos armamentos nucleares. Pequim, por exemplo, duplicou o seu arsenal nuclear em apenas três anos.
Perante este ambiente de crescente insegurança, vários países começaram a procurar novas formas de proteção sob o guarda-chuva nuclear. A adesão da Finlândia e da Suécia à NATO representa, na prática, a extensão da dissuasão nuclear da Aliança a novos membros, enquanto a Rússia reforçou a dimensão nuclear da sua própria estratégia ao estacionar armas nucleares táticas na Bielorrússia, alargando o seu próprio modelo de “partilha nuclear”. Em paralelo, outros aliados ponderam dar passos adicionais. A Polónia manifestou interesse em participar em mecanismos de partilha nuclear da NATO e, no Indo-Pacífico intensifica-se o debate estratégico sobre a credibilidade das garantias de segurança norte-americanas, nomeadamente no Japão e na Coreia do Sul.
Se esta guerra reforçar a perceção de que apenas os Estados dotados de armas nucleares conseguem garantir a sua sobrevivência, o incentivo à proliferação tenderá a aumentar. No Médio Oriente, países como a Arábia Saudita poderão enfrentar crescentes pressões internas e estratégicas para desenvolver ou adquirir capacidades nucleares. Tal cenário tornar-se-ia particularmente provável caso o Irão decidisse avançar nessa direção. Nesse contexto, a lógica da dissuasão regional poderia desencadear uma nova dinâmica de proliferação nuclear.
O problema, porém, já ultrapassa largamente uma dimensão regional. Em várias partes do mundo coloca-se hoje a mesma questão estratégica: até que ponto são credíveis as garantias de segurança políticas e externas oferecidas por outras potências? Exemplos como a violação do Memorando de Budapeste de 1994, pelo qual a Ucrânia renunciou ao seu arsenal nuclear em troca de garantias de integridade territorial por parte da Rússia, dos Estados Unidos e do Reino Unido, ilustram bem os limites práticos dessas promessas. E se, em última instância, a dissuasão continua a ser o derradeiro garante da soberania. Num contexto marcado pela erosão dos regimes de controlo de armamentos e, pelo regresso da competição entre grandes potências, preservar e adaptar o regime global de não proliferação tornou-se um dos desafios centrais da segurança internacional no século XXI.