“O preço que se paga” por um governo de gestão ”é o que não se faz naquele período”. “A herança que fica é muito má”, disse esta manhã João Salgueiro, ex-ministro das Finanças do PSD, à saída de uma audiência em Belém, recordando que ele próprio fez parte de um governo de gestão durante quase seis meses.
Rejeitando escolher entre soluções boas e soluções más de governo, Salgueiro mostrou-se a favor de novas eleições caso a Constituição o permitisse. “É pena que tenhamos uma Constituição feita para conservar o passado e não para construir o futuro”, lamentou.
O economista apelou a um “projeto que mobilizasse os portugueses para terem sucesso em poucos anos”. “É preciso criar uma estratégia e uma convergência de objetivos”, frisou, recordando, numa alusão aos acordos à esquerda, que isso “não se faz em semanas.”. “Leva anos”.
“Ver-se livre de um governo chamado de direita não é um objetivo estratégico”. “É difícil ver ali um programa de desenvolvimento. É uma estratégia de oportunidade”, disse ainda sobre o entendimento do PS com o PCP, o BE e os Verdes.
Também Luís Campos e Cunha, o primeiro ministro das Finanças de Sócrates, defendeu a estabilidade política. “Estes ataques à esquerda e à direita em nada contribuem para um clima de estabilidade”, afirmou.
Manter o rumo orçamental
Considerando que a economia portuguesa continua numa situação “bastante difícil”, Daniel Bessa, ex-ministro da Economia de Guterres e presidente da Cotec, alertou para a importância excessiva que está a ser dada a determinados indicadores como o consumo ou o mercado interno: “A única questão que se tem vindo a discutir, com a qual eu posso estar menos de acordo com o que tenho ouvido, tem que ver com a importância que, do meu ponto de vista, se está a conceder ao consumo e ao mercado interno”, referiu. “Parece-me, do meu ponto de vista, excessiva”.
O economista defendeu ainda a necessidade de manter o rumo nas contas públicas, apesar das melhorias registadas nos últimos anos.
Antes, no final da primeira audiência da manhã, o economista Vítor Bento considerou “razoável esperar e desejar” por soluções governativas que assegurem condições de estabilidade política, “de rigor e estabilidade financeira, de flexibilidade e de baixos custos de contexto”, disse o conselheiro de Estado e ex-presidente do Novo Banco. “A economia precisa de estabilidade política e estabilidade de propósitos para poder planear a prazo”, concluiu.
No âmbito das audições marcadas com vista à resolução do atual impasse político, o Presidente recebe, à tarde, Fernando Teixeira dos Santos, último ministro das Finanças de um governo socialista, Bagão Félix, ex- ministro das Finanças de Santana Lopes, e Augusto Mateus, o substituto de Daniel Bessa no Ministério da Economia do governo de Guterres. Segue-se o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, antes da audiência semanal com o primeiro-ministro.