Nos meios económicos da Índia diz-se: “Os Ambani, quando fazem qualquer coisa, fazem-na em grande. Quer seja nos negócios quer nas inúmeras disputas que travam entre si.”
Mukesh Ambani, 52 anos, e Anil Ambani, 50, já se defrontaram tantas vezes em tribunal que um juiz, exasperado com os numerosos processos dos irmãos, lhes sugeriu que pedissem à mãe, Kokilaben Ambani, para mediar os conflitos, no seio da família.
Mas a mais recente batalha judicial não se limita a uma briga entre irmãos, nem poderá ser resolvida com um simples puxão de orelhas da matriarca, como sugeriu o magistrado. Envolve o Governo de Nova Deli e pode pôr em causa a política energética da Índia, um país que luta com um défice crescente de energia.
No coração desta disputa estão os poços de gás natural descobertos na bacia de Krishna Godavari, na costa Este da Índia, pelo grupo Reliance, um dos maiores do país, e construído por Dhirubhai Ambani, que faleceu em 2002. Três anos após a morte do pai, e com muitas zangas pelo meio, os dois irmãos dividiram o império empresarial.
Segundo o acordo entre ambos, Mukesh ficou obrigado a fornecer gás ao seu irmão a 2,34 dólares por unidade de energia, durante um período de 17 anos.
Mas esta decisão foi contestada pelo Governo indiano. Murli Deora, ministro do Petróleo, estabeleceu um preço de 4,2 dólares para todos os compradores do gás proveniente daquela bacia, Anil Ambani incluído. A pagar quase o dobro do preço que tinha acordado, Anil interpôs uma acção judicial contra o Estado e contra o seu próprio irmão que acusou de estar “em conluio” com o Governo de Nova Deli. No dia 15 de Junho deste ano, o Tribunal de Bombaim deu-lhe razão, e obrigou Mukesh a honrar o compromisso assinado.
Até ao fim
O caso parecia encerrado e mantinha-se fora da opinião pública. Mas, perante a sentença desfavorável da primeira instância, Mukesh recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça. E a acção foi apoiada pelo ministro do Petróleo.
Convencido de que estava a ser vítima de uma jogada política entre o governante e o seu irmão, Anil contra-atacou, levando o caso para a praça pública. Numa intervenção que fez junto dos accionistas de uma das suas empresas, transmitida pela televisão, Anil acusou o ministro de ter uma atitude “parcial e tendenciosa” e o seu irmão de “tentar todos os truques que vêm nos livros e mais alguns que não estão lá, para não cumprir as suas obrigações legais e contratuais”.Estas declarações provocaram uma onda de choque na Índia e o assunto passou a ocupar as manchetes dos jornais nos dias que se seguiram ao discurso de Anil.
Mas as reacções não se fizeram esperar. O ministro argumentou que o caso não se resumia a uma mera disputa familiar, pois o gás “pertencia ao povo indiano e não aos irmãos Ambani”. Mukesh, por sua vez, acusou o irmão de estar a “orquestrar uma campanha para influenciar a decisão dos juízes”.
Anil, porém, não se calou. Numa nova ofensiva, colocou um anúncio nas primeiras páginas dos principais jornais da Índia, onde questionava: “Interesse público ou privado?” E tocava num ponto sensível: “A opção do Governo irá encarecer em 50% a factura de electricidade de todos os indianos.”
A persistência de Anil acabou por ter efeito. O impacto na opinião pública foi de tal ordem, que o Supremo Tribunal viu-se obrigado a marcar a data da audiência para o dia 1 de Setembro.
Não sendo, ainda, conhecido o desfecho, sabe-se, no entanto, que Anil tem um ambicioso projecto de produção de electricidade… cuja matéria-prima principal é o gás natural. A sua divisão de energia pretende construir, nos próximos anos, centrais de produção eléctrica que utilizam gás natural, com capacidade para gerar 30 mil megawatts. Trata-se de um investimento de 20 mil milhões de euros e um terço do gás necessário para as centrais será proveniente da bacia de Krishna Godavari. Ora, com o aumento do preço quase para o dobro, Anil vê os seus potenciais lucros fugirem para as mãos do irmão.
Guerra fratricida
Este é apenas mais um episódio na longa saga de desavenças entre os Ambani. As sedes das suas empresas partilham o mesmo edifício, mas Anil e Mukesh usam elevadores separados para não se cruzarem.
O grupo Reliance, que herdaram, foi fundado em 1958 pelo pai, Dhirubhai Ambani. A primeira empresa dedicava-se ao comércio de fibras sintéticas. Mas, ao longo dos anos, o negócio diversificou-se, abrangendo actividades como petroquímica, refinaria, exploração e distribuição de energia, telecomunicações, têxteis, serviços financeiros, biotecnologia, entre muitas outras. E assim nasceu um dos maiores conglomerados empresariais da Índia. Dhirubhai faleceu em 2002 e não deixou testamento. Em 2005, e sob a supervisão da mãe, Kokilaben Ambani, os dois irmãos fazem as partilhas. Mukesh ficou com o negócio da petroquímica, com a exploração e prospecção de petróleo e gás e com a indústria transformadora. Para Anil foram as telecomunicações, o sector financeiro e a produção de electricidade.
Mas nem com a repartição dos negócios acabaram as guerras. Há uns anos, os dois irmãos concorreram, com ofertas separadas, a um concurso público para a exploração de um espaço de 7,5 hectares, numa grande área comercial, nos arredores de Bombaim, que previa a construção de um centro de convenções com um auditório de 2 mil lugares. Mukesh Ambani ganhou. Depois do concurso fechado, o Governo autorizou que a área de construção fosse multiplicada por quatro, o que valorizou, e muito, o negócio. Anil contestou a decisão e levou o caso a tribunal, mas acabou por perder.
Em 2000, antes da divisão das empresas do grupo, a entidade que gere os aeroportos da Índia arrendou um terreno ao grupo Reliance. A empresa proprietária deste terreno ficaria na esfera dos negócios de Anil. No entanto, já depois da cisão, foi Mukesh quem alugou os terrenos à autoridade dos aeroportos. O caso acabou, mais uma vez, em tribunal – os terrenos pertenciam a Anil, mas Mukesh auferia dos direitos de uso.
Ainda em Setembro do ano passado, Anil processou o seu irmão mais velho por difamação, exigindo uma indemnização de 1,3 mil milhões de euros. Anil alegava que Mukesh sugerira, numa entrevista dada ao New York Times, que ele geria uma rede de espionagem privada para “recolher dados sobre as vulnerabilidades dos ricos e dos poderosos”.
Em Abril deste ano, um caso que envolveu Anil tomou proporções mais graves. Um mecânico do helicóptero do empresário descobriu gravilha no depósito de combustível do aparelho. Houve suspeita de sabotagem e a polícia iniciou uma investigação que levou à detenção de dois suspeitos e à morte de um outro mecânico que, alegadamente, se suicidou. O caso ainda está envolvido em mistério. Segundo os jornais indianos, Anil disse suspeitar de uma conspiração dos seus rivais para porem fim à sua vida. Mas nunca referiu o nome do irmão.
Um caso nacional
Devido ao peso e à influência que os Ambani têm na economia indiana – juntas, as fortunas de ambos representam 5% do PIB do país -, as disputas entre os dois já deixaram de ser meras questões do foro familiar. “Como grandes empresários, os irmãos Ambani assumiram enormes responsabilidades para com o país. E estas desavenças afastam muitos dos potenciais investidores estrangeiros”, diz um banqueiro de Bombaim.
Um exemplo: a criação de um dos maiores operadores de telecomunicações móveis do mundo não saiu do papel devido às intrigas familiares. Anil chegou a negociar a fusão da empresa de telecomunicações da família, a Rcom, com a MTN, a maior operadora de telecomunicações de África, com sede na África do Sul, mas com actividade em quase todo o continente africano, Ásia e Médio Oriente, nomeadamente em quase todos os mercados emergentes mais atractivos. Era um negócio fabuloso: a Rcom tornava-se subsidiária da MTN, mas Anil seria o maior accionista da empresa-mãe, ficando o centro de decisão do grande conglomerado mundial com sede na Índia. Mas quando todos se preparavam para formalizar o acordo, Mukesh usou os seus poderes para o vetar. Face a esta reacção, a MTN meteu os papéis da megafusão na pasta e voltou para a África do Sul.
Guerra de milhões
As disputas entre os irmãos são de tal forma acesas, que extravasam o plano empresarial. No aniversário da mulher, Mukesh ofereceu-lhe um avião Airbus A319, no valor de 40 milhões de euros. Anil não quis ficar atrás e, passados uns meses, comprou um luxuoso iate de 50 milhões, como prenda para a sua mulher. A gurerra envolve, pois, valores astronómicos para o comum dos mortais. Mas não para os Ambani, considerados os dois irmãos mais abastados do planeta. No ranking da revista Forbes de 2008, surgiam como o 5.° e o 6.° mais ricos do mundo, com fortunas muito similares, perto dos 30 mil milhões de euros. No entanto, os negócios de Anil sofreram o forte embate da crise mundial, devido aos investimentos do empresário no sector bancário e nas telecomunicações, cujas acções caíram para um terço do seu valor.
Assim, em 2009, a mesma revista norte-americana apresenta Mukesh como o 7.° homem mais rico do mundo, avaliado em 15 mil milhões, enquanto o seu irmão mais novo passava para 34.° lugar, com uma riqueza de, “apenas”, 8 mil milhões de euros.
Disputas entre dois irmãos são sempre difíceis de entender. Apesar da afinidade, têm perfis e temperamentos muito diferentes. Anil é mais mediático. Está casado com uma estrela de Bollywood, Tina, corre a maratona, e não se limita a investir nos negócios tradicionais da família. As suas ambições vão muito mais além Em Junho, assinou um contrato de várias centenas de milhões de euros com a Dreamworks, de Steven Spielberg, que prevê a co-produção de cinco a seis filmes por ano, com actores como George Clooney, Jim Carrey e Julia Roberts. Usa os media com muito à-vontade e aproveita o mediatismo para se afirmar na sociedade.
Mukesh, por seu turno, é mais reservado. Praticante de cricket (o desporto com mais adeptos na Índia), é dono de uma equipa, os Mumbai Indians. Raramente fala com a imprensa. Tem contactos ao mais alto nível e move-se nos bastidores da política como peixe na água. Dedica-se aos negócios mais tradicionais e não arrisca tanto em actividades que não domina.
Nos meios económicos da Índia diz-se: “Se os Ambani separados conseguiram alcançar duas das maiores fortunas do mundo, imaginem o que não fariam se estivessem juntos.”