É impossível evitar a sensação de dejá vu, olhando para as imagens de Moussa Marega a abandonar o relvado em Guimarães, neste domingo. Rebobinando jogos internacionais dos últimos anos, encontramos dezenas de jogadores negros de bola debaixo do braço e lágrimas de raiva entaladas na garganta. Mas há um caso que parece tirado a papel químico: o de Marc-André Zoro, insultado por adeptos do Inter de Milão, a 27 de novembro de 2005.
O jogador natural da Costa do Marfim tinha 21 anos e já jogava há 5 anos em Itália, onde ouvir insultos racistas era – e continua a ser – recorrente. Mas aquele dia foi como a gota de água que faz transbordar o copo. “Não aguentei mais. Só ouvia o que eles gritavam, não conseguia concentrar-me no jogo.”
Agarrou na bola e foi protestar junto do 4º árbitro, antes de abandonar o relvado. Jogadores do Inter, como Adriano, tentaram demovê-lo. Mas Zoro não conseguia mais “fingir” que não ouvia os sons guturais que chegavam das bancadas, imitando macacos.
A sua atitude foi louvada nos jornais desportivos no dia seguinte, que dedicaram manchetes à condenação do racismo. O Inter foi multado em 25 mil euros, vários adeptos foram banidos dos estádios e a jornada seguinte começou com uma manifestação simbólica, com os jogadores a mostrarem faixas que diziam “Não ao Racismo”. A UEFA fez dele um exemplo na luta contra o preconceito e prometeu multas pesadas para os clubes que não “controlassem” os seus adeptos.
Mas depois de Zoro, outros jogadores passaram pelo mesmo, sobretudo na liga italiana e espanhola. E Zoro também voltou a ser insultado. A última vez foi na Grécia, no OFI Creta, quando era treinado pelo português Paulo Sousa. Foi queixar-se ao árbitro e levou um cartão amarelo.
Quando um jogador se porta mal vê cartão vermelho e é castigado. Porque é que o estádio também não pode levar um cartão vermelho?
marc zoro, jogador que se tornou símbolo anti-racismo
No final desse jogo, voltou a falar contra o racismo, dizendo que “ignorar não é uma opção”, e prometendo fazer sempre queixa ao árbitro da partida, mesmo com o risco de ser expulso. “Dizer ao árbitro é como dizer à FIFA e à UEFA que têm de encontrar um caminho melhor. Acho que isto não vai acabar de uma vez, vai acabar pouco a pouco”, disse ao MaisFutebol, em 2014, referindo que os insultos eram “os mesmos de sempre, gritos de macaco”, mas que nunca poderia considerar “normal” aquele tipo de atitudes.
2019 | O brasileiro Serginho abandonou um jogo na 1ª liga da Bolívia por ter os adeptos a imitarem macacos sempre que ele tocava na bola. “Não aguentei mais. É preciso ententer que Deus só criou uma raça, a raça humana.”
2019 | A Sérvia foi condenada a pagar uma multa de 33.250 euros e a disputar um jogo à porta fechada pelo Comité Disciplinar da UEFA, por manifestações nacionalistas na derrota caseira com Portugal (4-2), em setembro de 2019, na qualificação para o Euro2020. Roménia, Hungria e Eslováquia foram castigados com um jogo à porta fechada devido a comportamentos racistas dos adeptos e multas de 83.000 euros, 67.125 euros e 20.000 euros, respetivamente.
2014 | Dani Alves preparava-se para marcar um canto para o FC Barcelona quando adeptos do Villareal lhe atiraram uma banana. O brasileiro comeu-a e continuou o jogo como se nada fosse… No final do jogo, disse aos jornalistas: “Estou na Espanha há 11 anos e há 11 anos é dessa maneira. Temos de rir dessa gente atrasada.” O Villareal pagou uma multa de 12 mil euros.
2013 | O italiano Mario Balotelli tentou sair do relvado num jogo entre o AC Milão e o Inter de Milão, com um estádio inteiro a insultá-lo e a atirar-lhe bananas. Estas situações continuaram a suceder-se nos últimos anos, tendo a última sido registada em novembro de 2019, com a camisola do Brescia.
2013 | O ganês Kevin-Prince Boateng abandonou o relvado aos 26 minutos de um jogo particular entre o AC Milan e o Pro Patria, devido aos insultos racistas dos adeptos. Seis outros jogadores saíram de imediato com ele, em solidariedade, e o jogo terminou ali.
2006 | Samuel Eto’o deixa de jogar, gritando “Não mais!” para as bancadas, onde adeptos imitam sons de macacos. Quis sair do relvado mas os companheiros de equipa demoveram-no. Mais tarde, contaria que o treinador Frank Rijkaard o convenceu quando lhe disse: “Estes tipos pagaram bilhete para verem macacos a jogar? Então vamos mostrar-lhes que os macacos jogam mesmo bem!”