Ao sétimo dia de San Sebastián, já vi tanta gente deprimida no cinema que começo a desconfiar que a acreditação de imprensa devia vir acompanhada por uma consulta de psiquiatria. De psiquiatria não digo, mas pelo menos amanhã há um dia com menos pressão nas sessões e podemos finalmente aproveitar o desconto no spa da La Perla. Felizmente, chegou um filme falado em português, ainda que com sotaque brasileiro, Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, para esclarecer que afinal ainda estávamos todos demasiado bem-dispostos. Há um autocarro cheio de passageiros, um motorista chamado Wesley, um viaduto, uma queda, dezenas de mortos, a suspeita de suicídio, uma mãe de 75 anos devastada e quase duas horas e meia de culpa. Netflix, portanto.
Convém, aliás, esclarecer desde já uma pequena questão: embora a Netflix tenha o filme e o leve mundo fora, Vicentina Pede Desculpas pertence geneticamente à Filmes de Plástico, esse extraordinário viveiro cinematográfico de Contagem, cidade-satélite de Belo Horizonte, que tem no nome o material mais artificial do planeta e faz alguns dos filmes mais humanos do cinema brasileiro contemporâneo. André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia construíram ali uma espécie de produtora-ninho, família, cooperativa e milagre económico, onde toda a gente parece realizar, montar, produzir, fotografar, representar ou simplesmente aparecer para beber café e conversar um bocadinho sobre filmes e cinema. Hollywood tem a Marvel. Belo Horizonte tem a Filmes de Plástico. Sei qual delas me parece atualmente mais ousada.
De Contagem para o mundo, sem mudar de vizinhos
Quem conhece Ela Volta na Quinta, Temporada, de André Novais Oliveira, No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurilio Martins, ou sobretudo Marte Um, de Gabriel Martins, reconhece imediatamente o território. E não apenas geográfico. É um cinema que olha para pessoas por quem, normalmente, o cinema passa ao lado. Gente de bairros periféricos, casas modestas, empregos pouco fotogénicos, famílias onde toda a gente sabe demasiado da vida uns dos outros e, sobretudo, rostos que não parecem ter sido escolhidos num casting entre modelos de moda. São pessoas. Gente normal e comum, precisamente aquela matéria-prima que o cinema às vezes parece esquecer que existe.
Em Marte Um, Gabriel Martins já tinha feito uma coisa bastante inovadora: filmar uma família negra da classe trabalhadora como se os seus sonhos fossem suficientemente importantes para ocupar o centro do ecrã. Agora faz algo mais arriscado e vai mais longe. Põe no centro uma mãe cujo filho talvez tenha decidido morrer levando dezenas de pessoas consigo. E aqui acaba rapidamente qualquer possibilidade de conforto ou redenção.
O filme abre com passageiros a viajar num autocarro em Belo Horizonte. Pessoas banais, destinos banais, uma manhã banal. É precisamente por isso que funciona. Wesley, interpretado por Renato Novaes — embora quase não lhe vejamos o rosto —, conduz. Há qualquer coisa errada, mas Gabriel Martins não põe música de tubarão nem escreve “atenção, tragédia daqui a três minutos” no fundo do ecrã. Depois, o autocarro cai do viaduto. E cai mesmo. Com bastante violência.
Martins quis fazer a sequência praticamente, com engenheiros, efeitos especiais e um autocarro verdadeiro a despenhar-se. Há realizadores que dizem “ação”. Gabriel Martins, aparentemente, diz: “Alguém tratou do seguro?”.
A sequência é brutal, vê-mo-la depois num câmera de vigilância, porque dura pouco. O resto do filme é aquilo que acontece quando o barulho acaba.
Uma mãe pede desculpa por um filho morto
Vicentina (Rejane Faria), recebe a notícia, identifica o filho e começa lentamente a compreender que a tragédia talvez seja ainda pior do que parecia. As imagens de vigilância levantam a hipótese de Wesley ter provocado deliberadamente o acidente. Suicídio? Depressão? Desespero? Um gesto inexplicável? O filme não nos entrega nenhum diagnóstico psiquiátrico e deixa claro que não existem vestígios de álcool ou drogas no motorista. É tudo meras suposições. Mas, deixa pairar sobretudo o fantasma da depressão e uma pergunta bastante mais importante: herdamos a culpa de quem amamos? Vicentina decide procurar as famílias das vítimas e pedir desculpa em nome do filho. É um gesto simultaneamente absurdo, comovente, inútil e profundamente humano. Ou seja, exatamente o tipo de coisa que fazemos quando já não existe nada mais de verdadeiramente útil para fazer.
Começa então uma longa — talvez demasiado longa — peregrinação por Belo Horizonte. Casa. Campainha. Família. Desculpa. Silêncio. Outra casa. Outra família. Outra desculpa. Ao fim de algum tempo começamos quase a sentir que Vicentina adquiriu um passe de transportes públicos para o purgatório. E aqui está também o principal problema do filme. Gabriel Martins tem uma ideia extraordinária e, por vezes, insiste tanto nela que quase a transforma num relatório dividido entre a desculpa e a investigação das causas. Talvez fosse mais interessante se tivesse avançado um pouco mais pelo caminho da investigação e um pouco menos pelo da expiação da culpa. Há encontros que deviam explodir e acabam simplesmente por repetir o anterior. Há dores diferentes filmadas demasiado da mesma maneira. E os 148 minutos, num festival onde ao sétimo dia já começamos a olhar para uma curta-metragem de 17 minutos como quem vê chegar uma ambulância, também não ajudam. Mas quando Vicentina Pede Desculpas respira, respira muito bem.
Rejane Faria respira e leva Belo Horizonte às costas
E sim, o filme respira sobretudo por Rejane Faria. Gabriel Martins disse que Vicentina é praticamente o oposto da atriz: Rejane é luminosa, divertida, vaidosa; Vicentina é sombra. A transformação não consiste apenas em envelhecê-la, dar-lhe uma muleta e retirar-lhe a maquilhagem. Está na maneira como aquela mulher ocupa o espaço como se tivesse deixado de ter direito a ele. Faria faz mesmo uma coisa preciosíssima: interpreta alguém que passa grande parte do filme sem saber exatamente o que sentir. Culpa pelo filho? Pena dele? Vergonha? Raiva? Amor? Medo de descobrir que o criou durante décadas sem verdadeiramente o conhecer? Tudo ao mesmo tempo.O irmão gémeo de Wesley, também interpretado por Renato Novaes, aparece quase como o fantasma físico do morto. Depois surge Fred (Giovanni Venturini), o grande amigo de Wesley, vocalista de death metal, e pensamos que finalmente vai chegar a explicação decisiva, a chave escondida, daquele homem. Não chega. E percebemos que a mãe conhecia do filho aproximadamente aquilo que todos os pais conhecem dos filhos adultos: talvez metade, num dia otimista. É nesse momento que o filme cresce. Quando deixa de procurar uma explicação para Wesley e começa a aceitar que talvez ela simplesmente não exista. Porque a morte é péssima argumentista. Raramente fecha as pontas todas.
Netflix apresenta, mas o algoritmo não deve saber o que fazer com isto
Há também uma deliciosa ironia em ver a Netflix associada a um filme destes. Uma plataforma construída para nos perguntar se queremos saltar a introdução distribui um filme de quase duas horas e meia onde praticamente nada pode ser saltado sem destruir o ritmo. Uma empresa que vive de assinantes, sugestões e escolhas pré-fabricadas recebe um cinema construído precisamente sobre aquilo que algoritmo nenhum sabe calcular: silêncios, bairros, mães, culpa, pessoas que não conseguem dizer aquilo que sentem e atores que parecem existir antes de a câmara chegar. E talvez seja essa a vitória mais divertida da Filmes de Plástico: entrar pela porta da Netflix sem deixar a Netflix entrar completamente dentro do filme.
Vicentina Pede Desculpas continua a ser, até aos ossos, cinema de Belo Horizonte. Vê-se nas ruas, nas casas, nos autocarros, nas caras, na forma como o espaço social não é cenário mas personagem. Martins conhece aquela cidade porque a atravessou de autocarro durante anos. Não está a fazer turismo antropológico pela periferia. Está a filmar a sua casa. E uma forte candidatura à Concha de Ouro? Talvez Vicentina tenha de se conformar por não a levar.
Foi o último filme em competição a entrar na corrida e não sei se será suficiente para a Concha de Ouro. Provavelmente não. San Sebastián gosta muito de nos lembrar que os festivais não são campeonatos de futebol, embora depois passe uma semana inteira a distribuir cartões, tabelas, estrelas, prognósticos e prémios como se estivéssemos todos à espera da classificação da Liga. Aliás, o funcionamento normal de qualquer festival de cinema: durante sete dias explicamos solenemente que a arte não se compara e, no oitavo, perguntamos quem ganhou.
Mas custa imaginar Vicentina Pede Desculpas a sair daqui, de San Sebastián, completamente de mãos vazias. Rejane Faria deixa uma interpretação que fica. O filme tem uma personalidade muito própria, um realizador negro a olhar para um Brasil raramente colocado assim no centro e pelo menos duas subtramas queer tratadas sem bandeirinhas nem folhetos explicativos. Sobretudo, Gabriel Martins tem mundo. E isso não se aprende num curso de realização nem vem incluído numa assinatura mensal.
O balanço da música de Tiganá Santana acompanha sem empurrar o drama, coisa cada vez mais rara quando a maioria das bandas sonoras parecem estar permanentemente a gritar-nos ao ouvido: “Agora é para sentir!”. Se Vicentina Pede Desculpas levar a Concha de Ouro, compreender-se-á. Se levar outro prémio, também. Se não levar nenhum, Vicentina pode perfeitamente acrescentar o júri à sua lista de pessoas que precisa de visitar. Só espero que, desta vez, não seja ela a pedir desculpa.