Quando alguns de nós ouviram falar num sistema de recolha de vasilhames em Lisboa, deu-se qualquer coisa aparentada com a comoção que se sentiu em 1991, quando abriu o McDonald’s do Cascais Shopping. Não se tratava de um avanço civilizacional. Era muito melhor do que isso: era a possibilidade de reproduzirmos, algures em Portugal, um hábito americano que conhecíamos do cinema. Estão a ver: Dirty Harry, baixa de São Francisco, Magnum 44 em punho, vagabundos, carrinhos de supermercado, latas de refrigerantes.
Mas esse estado de coisas durou pouco. Apareceram os acusadores. O Volta trazia problemas de salubridade. O Volta alimentava uma economia paralela. O Volta e a droga — a droga do Volta! Era preciso fiscalizar o Volta, rever o Volta, acabar com o Volta. Então responderam os defensores. O Volta era bom, o Volta não fazia mal a ninguém, o Volta apenas revelava problemas que já existiam. Era preciso acabar com a pobreza, acabar com a sujidade, acabar com a droga. Abaixo a miséria, viva o Volta! Estávamos divididos em relação a um assunto que, verdade seja dita, não estava, nem está, a ser visto à luz das suas implicações existenciais.
Pois bem. O Volta, como vou agora tentar explicar, é amigo do homem contemporâneo como o lagar de fuso era amigo do homem antigo. Não no sentido ecológico, mas no sentido neurológico. E isto não é uma opinião. É um diagnóstico, que qualquer um pode confirmar por si mesmo.
Reparem. Uma pessoa vai acumulando vasilhames na marquise. As garrafas e as latas amontoam-se umas por cima das outras e começam a perturbar as operações quotidianas como passar a ferro ou ir buscar o saco das ervilhas à arca congeladora. Os dias vão passando até que chega finalmente o grande momento. Enfia-se tudo num daqueles sacos enormes e feiosos que se arranjam nos supermercados. A marquise fica impecável — e este é o primeiro mérito do Volta: criar um problema e uma solução ao mesmo tempo. Prossigamos: segue-se para o carro com o saco, mete-se o saco na bagageira, conduz-se até ao supermercado, estaciona-se, agarra-se no saco, pára-se a meio do percurso para apanhar uma lata que caiu ao chão e aproxima-se finalmente da máquina do Volta. Pousa-se o saco no chão, pega-se na primeira garrafa e “ca-trchh”.
O leitor pode julgar que este “ca-trchh” é apenas o som de uma embalagem a ser esmagada. Engana-se. Aquele “ca-trchh” é o som da alma do vasilhame a ser libertada pela máquina do Volta. E o som do nosso modesto júbilo. Depois do primeiro, queremos outro. E outro. E outro. A certa altura, já não vamos à máquina para nos vermos livres das garrafas, mas guardamos as garrafas para as podermos levar à máquina.
Pode dizer-se que com o Vidrão se dava o mesmo fenómeno. Em princípio, sim. Na prática, o Vidrão sempre prometeu aquilo que nunca foi capaz de cumprir. A maior parte das garrafas resiste ao impacto, obrigando o cidadão a arremessá-las lá para dentro, correndo o risco de bater com os dedos ou o pulso no rebordo do orifício ou de ficar salpicado de vinho branco ou néctar de pêssego. Na óptica do utilizador, a experiência deixa muito a desejar.
Dando razão às modernas superstições tecno-optimistas, desta vez o progresso tecnológico trouxe, de facto, uma melhoria à vida das pessoas. É notável: a humanidade precisava de aperfeiçoar os seus instrumentos para conseguir esmagar coisas com o máximo de prazer e o mínimo de incómodo, e conseguiu.
A satisfação que o Volta proporciona e o Vidrão só promete pertence à mesma família de prazeres inconfessáveis: pisar folhas secas, partir vidros de casas abandonadas ou comer daqueles palitos italianos só pelo gozo de os trincar. O homem civilizado vive contido, precisa de desordem só para ter o prazer de a corrigir e procura a libertação nesses pátios de barbárie onde tudo se compraz. Valha-nos o Volta. No fim, ninguém vai preso e passa-se com distinção no exame de Cidadania e Desenvolvimento.
Há quem vá à caça e há quem vá ao Volta. Confesso que, de tudo o que fui ouvindo sobre o tema, o que mais me surpreendeu foi a indignação dos que associaram o Volta ao consumo de drogas. Foram os únicos que estiveram perto de compreender o fenómeno, mas passaram ao lado do essencial. Não é crack. É “ca-trchh”.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.