Michael Haneke ganhou mais de 60 prémios, um Oscar e tem uma carreira no cinema, na televisão, no teatro e na ópera e, ainda assim, nunca pareceu particularmente interessado em que gostássemos dele e dos seus filmes. Num cinema cada vez mais preocupado em saber se o público se divertiu, chorou no sítio certo e saiu satisfeito para recomendar cinco estrelas aos amigos, Haneke pertence a uma espécie quase extinta: o realizador que não presta serviço ao cliente. Compra-se o bilhete por nossa conta e risco.
A partir de 17 de setembro, a Leopardo Filmes e a Medeia Filmes fazem aquilo que se deve fazer com cineastas desta dimensão: devolvem-nos ao cinema. São 17 filmes, as 12 longas-metragens e cinco trabalhos para televisão, vários deles inéditos comercialmente em Portugal, em cópias restauradas. O ciclo começa no Medeia Nimas, em Lisboa, e no Teatro Campo Alegre, no Porto, passando depois por Braga, Coimbra, Figueira da Foz e Setúbal. E convém mesmo vê-los numa sala. Haneke num telemóvel seria uma espécie de vingança póstuma de O Vídeo de Benny.
Nasceu em Munique em 1942, cresceu na Áustria, filho de atores, estudou filosofia, psicologia e teatro em Viena e passou anos a trabalhar para televisão antes de chegar tarde ao cinema. Tinha 47 anos quando realizou O Sétimo Continente (1989), o que talvez explique porque nunca perdeu tempo a comportar-se como jovem promessa.
Logo à primeira longa-metragem, uma família austríaca perfeitamente respeitável decide destruir metodicamente todos os seus bens e depois matar-se. Sem violinos. Sem flashbacks traumáticos. Sem um psiquiatra a aparecer no último ato para explicar tudo.
Bem-vindos ao mundo de Michael Haneke.
Vieram depois O Vídeo de Benny (1992) e 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994), completando aquilo a que se chamou a “Trilogia da Glaciação”. O nome continua ótimo. Haneke descobriu muito cedo que nas sociedades ocidentais podíamos ter aquecimento central, supermercado cheio, televisão em todas as divisões e uma temperatura emocional próxima dos dez graus negativos.
Em O Vídeo de Benny, um adolescente mata uma rapariga e interessa-se quase tanto pela gravação do crime como pelo crime propriamente dito. Era 1992. Não havia TikTok, Instagram, vídeos de execuções a circular pelo WhatsApp nem pessoas a filmarem acidentes antes de chamarem uma ambulância. Haneke, como acontece demasiadas vezes, chegou cedo.
Mas foi Brincadeiras Perigosas (1997) que transformou definitivamente a relação entre Haneke e o espectador numa guerra conjugal. Dois jovens impecavelmente educados entram na casa de férias de uma família e massacram-na sem razão aparente. O filme conhece perfeitamente as regras do thriller e utiliza-as para nos retirar exatamente aquilo que esperamos receber dele.
Haneke chegou mesmo a fazer uma coisa extraordinariamente arrogante e, por isso mesmo, admirável: dez anos depois realizou novamente o filme, plano por plano, nos Estados Unidos, com Naomi Watts e Tim Roth, chamando-lhe Brincadeiras Perigosas U.S.. Hollywood queria um remake americano? Muito bem. Recebeu o mesmo filme. Nem sequer teve direito ao desconto.
Depois, tornou-se francês sem deixar de ser austríaco.
Em Código Desconhecido (2000), Juliette Binoche circula por uma Paris onde as pessoas se cruzam mas raramente se encontram. Em A Pianista (2001), Isabelle Huppert transforma uma professora de piano sexualmente reprimida numa das criaturas mais perturbadoras — e simultaneamente mais vulneráveis — do cinema europeu das últimas décadas. O filme deu a Haneke o Grande Prémio do Júri em Cannes e prémios de interpretação a Huppert e Benoît Magimel.
O Tempo do Lobo (2003) retirou-nos água, eletricidade e civilização para perceber quanto tempo demorávamos a regressar à barbárie. A resposta não era muito animadora.
E depois chegou Nada a Esconder (2005), talvez um dos grandes filmes europeus deste século. Daniel Auteuil e Juliette Binoche começam a receber misteriosas gravações da própria casa. Alguém observa. Alguém sabe. Alguma coisa aconteceu. Haneke transforma uma cassete VHS num tratado sobre culpa privada, memória colonial francesa e a confortável capacidade burguesa de esquecer aquilo que lhe estraga o jantar. Cannes deu-lhe o prémio de realização.
Seguiu-se O Laço Branco (2009), uma aldeia alemã antes da Primeira Guerra Mundial onde crianças educadíssimas, famílias respeitáveis, religião, disciplina e repressão vão preparando qualquer coisa que nós sabemos que virá depois. Primeira Palma de Ouro.
Três anos mais tarde, Amor parecia quase uma provocação suplementar: Michael Haneke tinha feito uma história de amor.
Só que, evidentemente, era uma história de amor sobre envelhecer, adoecer, perder autonomia e morrer. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva transformaram um apartamento parisiense num universo inteiro. Haneke ganhou a segunda Palma de Ouro e depois o Oscar de Melhor Filme Internacional. Rita Blanco aparece num pequeno papel e Portugal pode, portanto, reclamar uns discretíssimos milímetros dessa glória.
A retrospetiva tem ainda a enorme virtude de mostrar que Haneke não nasceu em 1989. Estão lá os trabalhos televisivos Três Caminhos para o Lago (1976), Lemingues, Parte 1 – A Arcádia e Lemingues, Parte 2 – As Feridas (1979), A Rebelião (1993) e O Castelo (1997), todos inéditos comercialmente em sala em Portugal.
E há ainda o Haneke da ópera. Porque, aparentemente, não lhe bastava traumatizar espectadores de cinema. Encenou Mozart, incluindo Don Giovanni e Così fan tutte, levando para o palco lírico a mesma precisão cruel, o mesmo horror ao decorativo e a mesma convicção de que por baixo das convenções sociais existe sempre alguém prestes a fazer uma coisa terrível.
O último filme continua a chamar-se, com aquela ironia que só pode ser deliberada, Happy End (2017). Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, uma família rica, Calais, telemóveis, refugiados e uma burguesia demasiado ocupada consigo própria para perceber o mundo que existe à porta. Talvez seja esse o verdadeiro fio que une Haneke durante meio século. Não a violência. Não a crueldade. Nem sequer a culpa. A indiferença. Aquela extraordinária capacidade humana de jantar tranquilamente enquanto alguma coisa se desmorona na divisão ao lado. É também por isso que esta retrospetiva chega numa altura particularmente apropriada. Os filmes têm décadas, mas o mundo parece ter trabalhado muito para ficar à altura deles. A partir de 17 de setembro regressa Michael Haneke. Não é exatamente uma boa notícia para a nossa tranquilidade. Para o cinema, felizmente, é excelente.