O aniversário de Camilo Castelo Branco, celebrado a 16 de março, torna-se num bom pretexto não só para falar do escritor que entrou na cadeia e saiu um clássico, mas também, já antecipando, da adaptação cinematográfica — que dará também origem a uma série de televisão para a RTP — da sua obra Memórias do Cárcere. Dois séculos depois do seu nascimento — um bicentenário comemorado em 2025 — continuamos a voltar a Camilo como quem regressa a um velho amigo que ainda sabe ferir e ironizar. E talvez não haja episódio mais cinematográfico na sua vida do que aquele que, de facto, o levou à Cadeia da Relação do Porto, acusado de adultério com uma mulher casada: Ana Plácido. Um escândalo amoroso que hoje caberia numa telenovela da tarde, mas que no século XIX dava prisão, vergonha pública e páginas de literatura. É precisamente esse episódio que o realizador Sérgio Graciano decide revisitar em Memórias do Cárcere, elevando-o ao nível de uma grande obra cinematográfica, num filme produzido por Paulo Branco, com argumento do recém-falecido Carlos Saboga e com estreia marcada para 24 de setembro de 2026. A premissa podia até parecer demasiado académica: porquê adaptar, mais uma vez, um clássico da literatura portuguesa? Mas o resultado — inesperadamente — é outra coisa. Não é apenas um filme histórico ou literário. É um filme sobre um escritor preso dentro da sua própria imaginação. E isso muda muita coisa.
Um Camilo de carne, paixão e sarcasmo: O centro da história é simples e explosivo: Camilo (Albano Jerónimo) e Ana Plácido (Maria João Bastos) apaixonam-se. Ela é casada. O marido denuncia o caso. Resultado: prisão. Em 1860, Ana entra na cadeia em junho. Camilo segue-a em outubro, depois de uma fuga algo novelesca pelo Norte de Portugal. Ficam presos mais de um ano. Hoje pode parecer absurdo. Na época, era a moral oficial. O filme acompanha esse período de reclusão e transforma-o numa espécie de laboratório emocional. Dentro da cadeia, tudo se intensifica: o amor, a culpa, a humilhação social, mas também a escrita. É nesse tempo que Camilo escreve Amor de Perdição, um dos romances mais famosos da literatura portuguesa, como se a prisão fosse simultaneamente castigo e incubadora literária. A própria obra Memórias do Cárcere nasce dessa experiência. Logo no início, Camilo descreve a primeira noite na cela com uma lucidez quase clínica: “Às nove horas da noite os guardas correram os ferrolhos… Estava sozinho. Sentei-me a esta mesma banca e nesta mesma cadeira.” Há uma solidão física e outra muito mais literária. Graciano percebe bem isso: o filme não tenta santificar Camilo. Pelo contrário. Mostra-o nervoso, irónico, vaidoso, apaixonado e profundamente humano. Albano Jerónimo interpreta-o com intensidade contida, quase como um animal intelectual enjaulado.
A Cadeia da Relação: o verdadeiro cenário do drama: Uma das grandes forças do filme é o espaço. A Cadeia da Relação do Porto não é apenas cenário, é personagem do filme. Construída no século XVIII, era um edifício sombrio onde os presos aguardavam julgamento durante meses ou anos. Os mais pobres amontoavam-se nas enxovias húmidas. Os mais ilustres ocupavam os chamados “quartos da malta”, pequenas celas individuais. Camilo ficou na cela n.º 12. O ambiente era miserável: latrinas pestilentas, pedra fria, corredores sombrios. Quando o rei D. Pedro V visitou o local, em 1861, terá exclamado: “Isto precisa de ser completamente arrasado.” Nunca foi. E talvez ainda bem, porque essa arquitetura opressiva funciona no filme como uma espécie de prisão mental. Ali, Camilo convive com uma fauna humana extraordinária: ladrões, assassinos, prostitutas, revolucionários falhados. Entre eles surge também Zé do Telhado, salteador lendário que Camilo viria a imortalizar nas suas memórias. Esse universo marginal — quase dickensiano — transforma o filme numa galeria de personagens estranhas e fascinantes.
Entre Oliveira e Raul Ruiz: Curiosamente, Memórias do Cárcere não parece um filme típico de Sérgio Graciano — embora já tenha realizado Os Papéis do Inglês (2024), sobre o poeta, romancista e cineasta Ruy Duarte de Carvalho. É um realizador que oscila entre o cinema e a televisão. Quem conhece a sua carreira televisiva poderia esperar outra estética. Mas a produção de Paulo Branco empurra o projeto para um território mais autoral. O resultado aproxima-se curiosamente de dois fantasmas do cinema português: Manoel de Oliveira e Raul Ruiz. De Oliveira vem a teatralidade elegante, o gosto pela palavra, o tempo contemplativo. De Ruiz — sobretudo do seu monumental Mistérios de Lisboa — vem a sensação de labirinto narrativo, de histórias dentro de histórias, de personagens que parecem saídas diretamente de um romance oitocentista. Não é coincidência: também esse filme era baseado em Camilo. Graciano parece compreender algo essencial: Camilo não se adapta ao cinema naturalista. Camilo exige exagero, ironia, melodrama e um certo barroco narrativo. O filme abraça isso sem medo.
O Camilo humano, não a estátua: O projeto nasce também de uma coincidência simbólica: precisamente o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Mas o objetivo de Graciano não é museológico. Pelo contrário. O realizador procura mostrar “o homem por trás do escritor”, num momento de crise onde tudo se mistura: paixão, desespero, génio criativo. E, nesse sentido, o filme faz algo importante: tira Camilo do pedestal. Mostra-o vulnerável. Ciumento. Sarcástico. Excessivo. Um escritor que escreve para sobreviver.
No fundo, um homem que transforma o sofrimento em literatura. E talvez por isso a última ironia seja esta: Camilo nunca explicou realmente por que foi preso. Nas próprias Memórias do Cárcere escreve: “Eu devia ter dito porque estive preso um ano e dezasseis dias. Não disse, nem digo, porque verdadeiramente ainda não sei por que foi.” Claro que sabia. Mas Camilo tinha uma relação peculiar com a verdade. Preferia sempre a literatura.
Um filme sobre paixão, escândalo e escrita: Memórias do Cárcere não é apenas um drama histórico. É um filme sobre o nascimento da literatura dentro da adversidade. Sobre como a prisão pode transformar-se em matéria narrativa. E também sobre como o amor — mesmo quando ilegal — pode gerar grandes histórias. Num tempo em que Camilo ainda era acusado de adultério, hoje talvez fosse trending topic nas redes sociais. Mas, felizmente, no século XIX, a internet chamava-se romance. Camilo não aparecia na televisão, mas sabia escrever muito melhor do que muitos dos que por aí andam e publicam livros.