Entre Uma Rapariga no Verão (1986) e A Vida Invisível (2013) cabia mais de uma dezena de filmes – curtas, longas, documentários, experimentais, telefilmes (fez um chamado Meia Noite), séries de TV, obras-primas, obras menores. Se de literatura se tratasse talvez ainda encontrássemos um baú cheio de escritos, com maior ou menor relevância. Como se trata de cinema, não há cabimento para essa esperança. Fica apenas um enorme vazio, uma página sem texto, um caminho demasiado vago entre dois eixos, não nos deixando perceber que linha os cose. Vítor Gonçalves é porventura o mais enigmático elo perdido do cinema português. E depois de A Vida Invisível continua a sê-lo. O anúncio da estreia do novo filme, quase 30 anos depois, só podia causar surpresa e curiosidade. É como se o Chalana voltasse a jogar à bola.
Ao mesmo tempo que A Vida Invisível chega finalmente às salas, depois de ter participado em meia dúzia de festivais, é reposta a primeira obra, um dos mais importantes e menos lembrados filmes portugueses dos anos 80. A reposição é uma excelente ideia, embora se encontrem escassos pontos de contacto – Lisboa como cenário, o uso da música… Tudo o resto permanece misterioso, como se fossem dois filmes longínquos, por coincidência realizados pela mesma pessoa. Talvez o cinema de Vítor Gonçalves tenha crescido com ele. Nós por cá, continuamos a preferir o retrato do artista enquanto jovem.
A resposta, quem sabe, está na escola de cinema. Porque ambos os filmes – num sentido não pejorativo – fazem sentir a escola por perto. No primeiro, claro está, do aluno recém-formado, ansioso por pôr em prática as suas ideias, com uma equipa de amigos e colegas. O segundo, na ótica mais distante e esclarecida do professor, que quer evitar redundâncias, enquanto busca uma linguagem específica.
Mas comecemos por Uma rapariga no Verão. Filme refrescante, jovem, retrato geracional, onde se sente o pulsar dos anos 80. Tem uma força intrínseca dada por essa vontade, por essa juventude, que, apesar do décor datado, faz sobressair, ainda hoje, uma certa modernidade. Aproxima-se da Nouvelle Vague, mas, mais importante do que isso, é um filme premonitor do aparecimento de um grande cineasta chamado Pedro Costa. Ele é o assistente de realização do filme, e Vítor Gonçalves viria a ser co-produtor de O Sangue (1989), o primeiro filme de Costa. No elenco, encontramos Joaquim Leitão e Rui Reininho, além de Diogo Dória, Virgílio Castelo, João Perry e Isabel Galhardo. Evita o exibicionismo estético, apesar de estar muito bem filmado, prefere a isso uma certa aproximação ao real, numa história geracional, que parte da ideia de busca ou desencontro. Está escrito numa linguagem profundamente cinematográfica, com uma justa economia de diálogo e sem recurso à voz off.
A Vida Invisível trilha um caminho completamente diferente. Há um minimalismo de personagens e de décors, compensado por uma voz off transversal. Segundo parece, perante a impossibilidade de filmar o pensamento, o realizador opta por o fazer ouvir, mas de forma mais ordenada do que caótica (nada tem de torrencial). Essa voz off (recurso cinematográfico como qualquer outro) é por vezes usada de forma redundante em relação à imagem, por outras de forma acessória e às vezes abusiva, procurando ir onde a imagem não chega (lá está, o pensamento), só que em vez de abrir janelas, estreita o sentido do filme.
O ritmo é declaradamente lento e pausado, não realista, pouco preocupado com adereços que assentem as personagens no real – a total ausência de figurantes justifica-se obviamente por opção artística e não por falta de meios. Todas as personagens são sozinhas e desenham-se em círculos curtos, descrevendo um arco de solidão. A solidão é anunciada como um destino inevitável e quase desejado ao qual Hugo se rende e não tenta fugir. Breve ironia ou âncora no real, Hugo é um funcionário público que acaba por perder o emprego. O filme, que faz jogos de luzes e têm uma saudável obsessão por janelas, tem um mérito de nos mostrar em belas imagens, uma Lisboa de contrastes (ilustram o contraste entre Hugo e Adriana), fixando-se no Terreiro do Paço e no Parque das Nações. Sobra-nos Lisboa.