O mundo dos símbolos é de uma natureza não racional. Aderimos e sentimos algum sentimento perante uma bandeira ou um hino, não porque racionalizamos a relação que esse símbolo nos cria com um coletivo, mas porque aderimos a essa ligação, a esse mediador, como parte da nossa própria natureza. Não se é português por opção entre outras possíveis. É-se português, tal como se é espanhol, francês, etc, porque há uma ligação entre cada um de nós e o coletivo com que se identifica, que está como que colada à pele.
E, se a adesão a um símbolo é não racional, a forma como vivenciamos e valorizamos esses símbolos é ainda mais não racional, tomando muitas vezes formas verdadeiramente a-racionais. Hoje, um pouco por todo o mundo, o desporto, especialmente o futebol, fez concentrar em si grande parte dos momentos da vivenciação simbólica nacional. Recordo, há uns largos anos, uma criança que, ao colo do pai, dizia, alegre, perante o Hino Nacional que era tocado junto ao Palácio de Belém: “Olha, a música do futebol!”
De facto, há poucos temas de tão grandes histerias coletivas, e angústias individuais, como o futebol. Se o campo deste jogo for o da “seleção”, então tudo é exponenciado e ganha foros de existencial, como temos visto recentemente no “caso Ronaldo”.
A “ronalidade” ou, em algumas anedotas, o “cristianismo” (a religião dos seguidores de Cristiano), ganha tonalidades de comicidade que chegam ao ridículo de, a um jogador de futebol, se fazer corresponder toda uma identidade coletiva, como se as subtilezas de centenas de anos de História fossem capazes de ser comprimidas, na sua essência, num indivíduo… Nesta linha simplista, Luís Montenegro, no final de um recente jogo com Espanha, afirmava: “É a maior referência da Portugalidade no mundo”, afirmação esta confirmada com os célebres telefonemas que terá feito no dia a seguir à birra que levou o capitão da seleção a abandonar um estágio.
Se quisermos sair do tom do gracejo, porque merece a pena ir um pouco mais fundo, importa tentar compreender porque se vive, gostemos ou não, um certo símbolo com tal intensidade. Por definição, um símbolo é algo que nos liga a uma realidade superior e impossível de atingir; um símbolo é um mediador e uma porta de acesso a essa dimensão, a essa realidade que se quer tocar. Certas figuras, com mais ou menos carisma, ou mais ou menos valor, são transformadas numa imagem idealizada de um coletivo e, dessa forma, transformam-se no repositório de tudo o que esse ecossistema deseja e vê em si mesmo, seja isso verdade ou construído.
Ronaldo é o sucesso que muitos desejamos. Ronaldo é a ambição e a capacidade que se deseja. Ronaldo é o reconhecimento que gostaríamos de ter. Nos seus penteados, nos seus brincos, nas suas roupas de marca, nos seus carros de luxo, nas suas conquistas amorosas, Ronaldo é uma máquina de sucesso. Um sucesso imediato, aqui e agora, um reconhecimento altivo que se impõe.
Estamos longe de a imagem cultuada de Ronaldo corresponder ao que existe. Qual utopia distante, Cristiano é a anti-identidade portuguesa através do seu oposto. Somos sucesso? Somos os carros e as marcas? Somos a altivez? Felizmente, não somos nada disso. Se alguma coisa quisermos definir de identitário para este coletivo que habita este retângulo “à beira-mar plantado”, o sucesso made in Ronaldo encaixa muito pouco em nós.
Não se trata de um símbolo, mas de um anti-símbolo. Ele não nos liga ao que somos, mas ao que desejaríamos ser. E, por mim, ao que não desejaria ser…. mas isso é problema meu, que não me revejo em quase nada do tal “cristianismo”.
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