Ao celebrar o seu 30° aniversário, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa enfrenta talvez o momento mais decisivo da sua existência. Estes primeiros 30 anos provaram que era possível construir uma Organização Internacional em torno da Língua Portuguesa, os próximos terão de demonstrar algo muito mais exigente: que a CPLP é capaz de melhorar a vida dos seus cidadãos, gerar conhecimento e desenvolvimento, criar oportunidades.
Durante três décadas, a comunidade privilegiou legitimamente a cooperação intergovernamental. Era necessário criar confiança política, consolidar instituições e afirmar uma identidade comum. Mas o resultado é paradoxal: a CPLP tornou-se relativamente conhecida entre diplomatas e decisores políticos, permanecendo ainda distante da vida quotidiana da maioria dos cidadãos dos seus Estados-Membros. Para muitos jovens, empresários, investigadores ou estudantes, a CPLP continua a ser uma realidade abstrata.
É precisamente aqui que reside o maior desafio da Comunidade. Nenhuma organização pode aspirar a um papel relevante se não conseguir produzir benefícios concretos para aqueles em nome de quem existe. Por isso é chegado o momento de celebrar não apenas os trinta anos da CPLP mas o início de uma nova etapa da sua história. A grande pergunta dos próximos 30 anos não é “quantos milhões de pessoas falarão a língua portuguesa?” mas sim “o que conseguiremos construir em conjunto por falarmos todos a mesma língua?”.
A língua portuguesa deve abrir portas e ser motor da criação de oportunidades. Um jovem que faça parte do espaço lusófono não pode ver inutilidade no facto de perceber e dominar um idioma como o nosso. Num mundo cada vez mais competitivo, nenhuma comunidade pode desperdiçar os seus maiores ativos. E a Língua Portuguesa é, provavelmente, o maior ativo estratégico comum de que dispõem os nossos países.
Mas um ativo só produz valor quando é colocado ao serviço de uma estratégia. Chegou o momento de fazer da língua comum não apenas um património que orgulhosamente preservamos, mas uma ferramenta que em conjunto utilizamos para construir conhecimento, criar oportunidades, gerar riqueza e aumentar a influência internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.
Se a CPLP for trabalhada no sentido de apresentar a língua portuguesa como instrumento de sucesso e desenvolvimento para os seus cidadãos, povos e Estados, a Comunidade Lusófona terá um valor enorme para cada um dos seus membros. Uma língua internacional só se torna verdadeiramente estratégica quando produz benefícios palpáveis para aqueles que a utilizam, quando faz a diferença no quotidiano dos seus falantes. A influência positiva no dia a dia de cada cidadão lusófono será a condição de sucesso da própria Comunidade de Países de Língua Portuguesa. O idioma será o meio através do qual se motivam e concretizam políticas sectoriais que produzam esse impacto.
As organizações internacionais raramente se transformam de um momento para o outro, evoluem por etapas. Passadas três décadas, a nossa geração tem o privilégio de ser a primeira a ter nascido após o momento fundacional, e com isso a responsabilidade de contribuir para uma CPLP de terceira geração. Após a fundação e a consolidação, é chegada a hora da aproximação e da transformação da Comunidade da Lusofonia numa comunidade de povos e cidadãos.
Os blocos internacionais mais relevantes compreenderam que a sua força não reside apenas na cooperação entre Governos, funda-se na densidade das relações entre as suas comunidades. E é este o passo que a CPLP tem de dar. A terceira geração da Comunidade deverá caracterizar-se por uma mudança de paradigma, deixando de ser apenas uma comunidade de Estados e apostando numa maior integração e políticas públicas conjuntas que melhorem a vida dos cidadãos da lusofonia.
A CPLP de terceira geração deve colocar os cidadãos no núcleo do projeto lusófono e basear-se em três transformações fundamentais: liberdade de movimentos através da criação do passaporte lusófono; mercado económico integrado que permita a circulação de trabalhadores, bens e serviços; comunidade científica e empresarial que valorize a língua portuguesa enquanto língua de conhecimento, inovação e empreendedorismo.
A comunidade da lusofonia tem de passar de comunidade linguística a comunidade de oportunidades. O cidadão lusófono deve sentir que fazer parte desta comunidade produz efeitos concretos na sua vida, seja na melhoria das infraestruturas da sua terra, na educação que os seus filhos recebem, nas possibilidades de emprego e de empreendedorismo que surgem, e nos serviços públicos e privados a que tem acesso.
Passados 30 anos, este é o momento de responder à questão “o que ganha um cidadão por pertencer ao espaço lusófono?”. Se apenas obtiver burocracia, o sonho da Lusofonia fracassará. Mas se ganhar oportunidades de estudar, trabalhar, desenvolver-se como pessoa, cidadão e profissional, de aceder a redes científicas e empresariais, de desenvolver os seus projetos a outra escala, de contribuir para o desenvolvimento do seu território e comunidade, de se projetar em diferentes continentes e no mundo … Nesse caso o sucesso da CPLP será infindável. E é com esse sucesso que sonhamos.
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