Enquanto o mundo anseia por uma vacina para a Covid-19, já são várias as investigações com resultados prometedores, depois de testadas em humanos. Os mais recentes estudos dos ensaios clínicos da Universidade de Oxford e da empresa de biotecnologia Moderna sugerem que as suas vacinas podem gerar imunidade sem causar danos graves. Mas os gabinetes de relações públicas das instituições podem estar a mitigar os casos mais graves que surgiram.
Após o início do primeiro ensaio clínico da Universidade de Oxford, em abril, os investigadores passaram a administrar paracetamol aos voluntários a cada seis horas durante um dia, nas 24 horas seguintes à injeção. Isto não aparece noticiado nem pelo marketing das instituições nem pela generalidade dos meios de comunicação social, escreve o The Wire.
O estudo da Universidade de Oxford dá conta de efeitos colaterais mínimos. E se é certo que as reações leves eram muito mais comuns do que as outras, também é verdade que os danos moderados a graves não foram poucos. Cerca de 30% das pessoas que receberam a vacina contra a Covid-19 sofreram arrepios moderados ou severos, fadiga, dor de cabeça, mal-estar e/ou febre. Quase 10% tiveram pelo menos 38º graus de febre e mais de 25% desenvolveram dores musculares moderadas ou graves.
As primeiras pessoas a serem testadas em ensaios clínicos são cuidadosamente escolhidas: são as menos propensas a ter uma reação negativa à vacina. Por isso, se estas estão a desenvolver respostas negativas, importa saber o que irão provocar em pessoas menos saudáveis.
A estratégia de comunicação da Moderna é diferente: a empresa de biotecnologia selecionou os dados dos estudos nos seus comunicados de imprensa para acrescentar valor ao seu produto. A 18 de maio, a Moderna divulgou algumas conclusões sobre os resultados provisórios do seu primeiro estudo em humanos e o valor das suas ações subiu 30%.
De acordo com o comunicado de imprensa de maio, não houve consequências graves no grupo de 30 mil voluntários que recebeu duas injeções de 100 microgramas da vacina Covid-19, na fase 3 do ensaio clínico. Mas o estudo mais recente assinala que quem tomava as duas doses sofria imediatamente de dores de cabeça, arrepios ou fadiga, e pelo menos 80% das reações encaixam-se no que se considera serem efeitos moderados a graves.
Um voluntário desta investigação, que sofreu de dores de cabeça e desmaiou, mostra-se no entanto otimista na melhoria destas técnicas, e ressalva que os ensaios clínicos, sobretudo os preliminares, têm como principal objetivo identificar problemas. Estes efeitos desagradáveis devem ser conhecidos da população, apesar de poderem assustar, defende.
“Nós damos vacinas a pessoas saudáveis, prevendo que elas possam entrar em contacto com o vírus mais adiante. Mas, porque as damos a pessoas saudáveis, os nossos padrões de segurança são mais altos do que os de drogas”, explicita William Schaffner, professor doenças infeciosas no Centro Médico da Universidade Vanderbilt. O objetivo dos estudos é, por isso, estabelecer um limite para minimizar efeitos colaterais graves de modo a garantir a segurança de quem é vacinado.