Quantas revoluções cabem na História de Lisboa? A resposta está numa exposição no Palácio Pimenta

Quantas revoluções cabem na História de Lisboa? A resposta está numa exposição no Palácio Pimenta

Há um lugar onde é possível votar todos os dias: na última sala de Lisboa em Revolução, 1383-1974, encontra-se uma cabina de voto onde podemos assinalar, num boletim bilingue, em português e inglês, a resposta a uma pergunta essencial: O que o levaria a participar numa revolução? As nove possibilidades à escolha incluem “a ameaça à liberdade”, “a conquista da democracia”, “a falta de direitos no trabalho”, “a emergência climática”. E riscado o quadradinho e dobrado o boletim, pode depositar-se o voto numa urna próxima. É um final perfeito para uma exposição que, entre reconstituição documental e obras de arte, embalada pelos 50 anos da Revolução dos Cravos, evoca seis momentos históricos que instauraram mudanças políticas.

Foto: Marcos Borga

Pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, vídeos, fotografias, memorabilia, tudo é munição usada em Lisboa em Revolução, 1383-1974, patente no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta. Património museológico e cultura popular convivem aqui democraticamente: tanto se contempla um belíssimo Estudo para a Alegoria à Constituição de 1822 pintado por Domingos António de Sequeira (1768-1837), emprestado pelo Museu Nacional de Arte Antiga, como encontramos o cartaz comercial estilo Arte Nova da Fábrica da Pampulha (um brinde da Casa José Joaquim dos Santos, na Rua do Benformoso), ou uma gravura humorística sobre D. Miguel (de um ângulo, vê-se o monarca, do outro, a efígie de um burro…), ou a câmara Nikon usada pelo fotógrafo Alfredo Cunha durante o 25 de Abril de 1974.

Aula de história

A espada atribuída a D. João I é a porta de entrada para 1383-85, quando Lisboa defendeu o “seu” Mestre de Avis, resistiu ao cerco castelhano e celebrou a vitória na Batalha de Aljubarrota, numa sala dominada pelas estátuas equestres de Leopoldo de Almeida. Segue-se a Restauração de 1640 e a batalha por uma dinastia independente, em que nem todos tiveram final feliz: uma gravura de autor desconhecido ilustra a defenestração do político pró-Filipes Miguel de Vasconcelos…

O terceiro momento “fotografa” 1820: com a Corte portuguesa no Brasil, dá-se um levantamento popular, exige-se a Constituição e marcam-se eleições – agitação social e institucional que Veloso Salgado pintará em As Cortes de 1821, óleo pertencente ao Museu da Assembleia da República, aqui reproduzido. Estatuária domina 1836, recordando o golpe de 9 de setembro, em que elites e classes populares se juntaram para derrubar o anterior regime, e a posterior reposição da Carta Constitucional de 1826.

Foto: Marcos Borga

Chegados a 1910, o triunfo republicano é assinalado por um conjunto diverso nas paredes vermelhas: o manuscrito do Auto da Proclamação da República Portuguesa, a pintura José Relvas Tocando Violino, de José Malhoa, a maqueta do cruzador Adamastor (de onde foi bombardeado o Palácio das Necessidades). E o busto da República acompanhado por uma inédita imagem da sua modelo, Ilda Puga, posando no atelier do escultor Simões de Almeida, a 4 de novembro de 1911, e fotografias de homens e mulheres, armados, junto à rotunda do Marquês do Pombal.

Virando a esquina num semáforo vermelho, chega-se a 1974 e a familiaridade instala-se: Salgueiro Maia, os tanques militares, os cartazes da pintora Vieira da Silva a comemorar o 25 de Abril, os vinis das Cantigas do Maio, de José Afonso, as pinturas murais…

Foto: Marcos Borga

Portanto, o povo português foi sempre revolucionário? “A participação cívica dos portugueses manifesta-se sempre que é posta em causa a independência nacional”, assinala à VISÃO o curador Daniel Alves. Com os colegas Rosa Fina e Sérgio Abrantes, o investigador de História Contemporânea procurou uma narrativa que unisse seis momentos históricos tão diferentes, e encontrou pontos em comum. “Para começar, há uma geografia: Terreiro do Paço, Rossio, Largo do Carmo, Sé, concentraram revoluções. Há também a forma como eram construídas as conspirações e como acontecia a intervenção popular, tanto nos séculos passados como em 1974 – por exemplo, quando o Movimento das Forças Armadas ordena às pessoas para ficarem em casa, estas desobedecem.”

Para começar, há uma geografia: Terreiro do Paço, Rossio, Largo do Carmo, Sé, concentraram revoluções. Há também a forma como eram construídas as conspirações e como acontecia a intervenção popular, tanto nos séculos passados como em 1974

Daniel Alves, curador da exposição

Daniel Alves sublinha outra intenção curatorial: “Retirar as mulheres da invisibilidade histórica. O papel da mulher foi importante na Revolução Republicana e no 25 de Abril de 1974, mas também ao longo da História: veja-se o caso da mulher de D. João IV, D. Luísa de Gusmão, que incitou grandes decisões políticas.” Um retrato da soberana, pintado por José de Avelar Rebelo, é paragem obrigatória na exposição.

Lisboa em Revolução, 1383-1974 apresenta materiais inéditos ou pouco vistos em Portugal, diz o curador: a reprodução do navio que, em 1836, trouxe do Porto os deputados da oposição, recebidos aos gritos pelos lisboetas revolucionários – o navio foi encontrado em Inglaterra. Ou o conjunto de objetos quotidianos que celebram a Revolução Republicana, como a bola de neve decorada com efígies da República, ou o tinteiro com o Zé-Povinho a abraçar a dita.

Mas a pièce de resistance é o mapa das operações da Revolução do 25 de Abril: uma frágil folha de papel vegetal, traçada a vermelho, azul e verde, com rotas, horas, nomes dos capitães de Abril. “O mapa estava na posse de António Marques Júnior [1946-2012] e a sua viúva encontrou-o por acaso, no meio dos livros. O mapa, segundo nos disseram, vai ser cedido à Torre do Tombo.” A revolução continua? Diz Daniel Alves: “Nós queremos que a exposição apele à interrogação, à reflexão sobre o que aconteceria se alguns dos direitos [alcançados] estivessem em causa. A liberdade, nunca está conquistada.”

Lisboa em Revolução, 1383-1974 > Museu de Lisboa – Palácio Pimenta > Campo Grande, 245 > T. 21 751 3200 > até 5 jan 2025, ter-dom 10h-18h > €3

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