
A galerista Ana Matos e o artista e promotor cultural Cláudio Garrudo são os responsáveis pelo Mapa das Artes
José Caria
É puro serviço público, que serve tanto a gente ligada ao setor como a qualquer pessoa com algum interesse por arte contemporânea disposta a deambular pelas ruas de Lisboa. E, como bem sabemos, por estes dias o que não falta é gente, das mais variadas proveniências, a deambular pela capital portuguesa… À conversa com a galerista Ana Matos, 45 anos, fundadora, há 14, da Galeria das Salgadeiras, e com o artista, mas também promotor cultural (ou vice-versa), Cláudio Garrudo, 40, juntos na associação, com nome diretamente inspirado num célebre quadro de Magritte, Isto Não É um Cachimbo.
É o segundo ano em que editam o Mapa das Artes. Significa que sentiram a utilidade do projeto com a primeira edição?
Ana Matos: Sim, a primeira motivação para este mapa nasceu de um outro projeto da associação Isto Não É um Cachimbo, o Bairro das Artes, que já existe desde 2010, centrado nas galerias da sétima colina. Começámos a aperceber-nos que as pessoas continuavam a usar o programa do Bairro das Artes como orientação, mesmo depois de o evento acabar e de já estar desatualizado. Esse foi o primeiro momento em que pensámos na necessidade de fazer um mapa completo, um roteiro dedicado dos diversos espaços expositivos de Lisboa…
Cláudio Garrudo: Com programação regular. A ideia é que os espaços tenham uma programação regular de exposições de arte contemporânea, não incluímos lugares que também podem expor ocasionalmente. Só espaços que têm essa vocação expositiva na sua génese.
A.M.: E excluímos também o objetivo de darmos a programação dos espaços. Para isso há outros instrumentos, agendas, blogues… Interessou-nos fazer um roteiro e atualizá-lo anualmente.
C.G.: Na versão online, em mapadasartes.pt, o conteúdo é atualizado regularmente. A versão em papel é anual. O apoio da Fundação Millennium BCP permitiu- -nos este ano imprimir 30 mil mapas, aumentámos a tiragem. Os do ano passado desapareceram todos… Tínhamos gente de galerias a pedir-nos e já não havia. A distribuição é garantida pelos sítios todos que estão no mapa, cerca de 100, e pela rede da Câmara Municipal de Lisboa, da EGEAC, postos de turismo…
Quando tiveram a ideia em quem estavam a pensar?
C.G.: Bom, a missão da nossa associação é precisamente a promoção e a divulgação da arte contemporânea. A gratuitidade, quer do mapa, quer da representação das galerias e outros espaços no mapa, permite-nos chegar a muita gente.
A.M.: Como pessoas que gostam de arte contemporânea e vão a inaugurações de exposições, tivemos a perceção de que o público das galerias funciona um pouco em circuito fechado. Ou seja, cada galeria tem o seu público específico, seja por uma questão geracional, pelo tipo de arte que é exposto… Quando saiu o primeiro mapa, falámos com muitas pessoas que frequentam galerias e que descobriram aqui algumas que desconheciam. Isso deu-nos ainda mais força para apostar neste projeto… Por isso, o público é muito transversal. Obviamente o turista interessado que chega a Lisboa e espera que exista um mapa assim, como há em Nova Iorque, Berlim, Londres, Madrid… Mas também o público da cidade que descobre aqui novos sítios, fora dos seus circuitos habituais. Acho que pouca gente tinha a noção de que existiam tantos espaços de arte contemporânea com estas características na cidade. Este ano há 53 galerias no mapa, um número abaixo do de outras capitais europeias, mas já são algumas…
Houve muitas mudanças no mapa de um ano para o outro? Sabemos que Lisboa está numa fase especial, a feira de arte ARCO apostou na cidade…
A.M.: Sim, apareceram algumas galerias novas…
C.G.: E houve muito poucas a desaparecer, o que é bom.
A.M.: O caso da ARCO Lisboa, para mim, acaba por ser mais uma consequência do que uma causa para essa dinâmica… O facto de terem vindo para cá significa que perceberam essa efervescência na cidade. Noto é que, ao longo dos últimos anos, o público em geral está mais recetivo, habituado e tem mais curiosidade em relação à arte contemporânea. E, aqui na galeria [Galeria das Salgadeiras], noto que há uma maior afluência de turistas, pessoas mais velhas, com outro poder de compra e que provavelmente são frequentadores do circuito de arte contemporânea nos seus países de origem.
O Mapa das Artes é um roteiro atualizado anualmente, que já vai na segunda edição