As perguntas de escolha múltipla são o tipo de item mais simples de corrigir automaticamente. Uma resposta certa, três erradas. Um algoritmo que lê, compara e atribui a nota. É o item mais blindado que existe.
O Júri Nacional de Exames confirmou um erro de parametrização no item 7.1 da versão 2 da prova de FQ: 12.603 alunos com a nota errada. Mais de 11 mil viram a classificação subir depois da correção. Mais de mil viram a nota descer. Jovens que, durante dias, tomaram decisões sobre a sua vida (candidaturas, a segunda fase de exames, o futuro académico) com base numa informação que se veio a revelar falsa.
O ministro Fernando Alexandre tentou enquadrar o caso como um mero “parâmetro mal inserido” e até como uma prova do sucesso da classificação eletrónica, alegando que o problema foi resolvido de forma “sistemática e célere, nunca antes existente”. Mas isto é inverter os factos: o sistema não detetou nem corrigiu a falha por ser eficiente. Fê-lo porque foi encurralado pelos alertas e reclamações de professores.
Um erro humano na introdução de um dado é uma coisa. O erro não ser detetado é outra, bem mais grave.
Correr testes de validação do código num sistema antes de o colocar a “trabalhar” é o nível zero de qualquer controlo de qualidade. Bastava ter testado a leitura automática contra um lote de respostas conhecidas para confirmar se os resultados batiam certo. Não fazer isto à escala de um exame nacional ou fazê-lo às três pancadas, revela um desleixo inaceitável para quem gere a vida académica de tantos estudantes do País.
Se isto falhou nos testes mais simples, o que mais terá passado despercebido nas partes menos visíveis da avaliação?
Um erro tão elementar só ser descoberto depois da divulgação dos resultados gera um problema de confiança. Deixa de existir fundamento para afirmar, com segurança, que os restantes procedimentos estão isentos de falhas. E sabemos que há muitos mais erros.
Insistir no discurso da “transparência” sem mostrar relatórios de validação, os casos de teste utilizados ou quem deu o ok final é apenas retórica.
Da mesma forma, alegar que “ninguém foi prejudicado” choca de frente com a realidade dos 1.117 alunos que viram a sua nota descer depois de já ter sido publicada em pauta e que tiveram uma expectativa errada durante dias. Foi um grande prejuízo.
O ministro quer separar a falha do sistema da responsabilidade política. Não pode. Não pode colher os louros quando corre bem e alhear-se quando corre mal. Decidir avançar com o calendário como se nada se tivesse passado, sem anunciar uma auditoria independente nem suspender o processo para dar garantias de integridade, é uma leviandade.
Quando a única barreira contra o erro é a pressão pública, e não o controlo interno, devemos ficar alarmados e não tranquilizados.
Muito mais há para dizer… e tem sido dito e bem dito por muitos.
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