Quando a história se precipita nas ruas, qual deverá ser o papel dos atores? Em Neva, que se estreia esta quinta-feira, 29, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, a ação situa-se em janeiro de 1905, em São Petersburgo (mas poderia ser Santiago do Chile ou Lisboa), naquele que ficou conhecido como o “domingo sangrento”. Fechados num teatro para ensaiar O Cerejal, de Tchékhov, estão três atores, um dos quais é Olga Knipper, viúva do dramaturgo, que morreu há seis meses de tuberculose, mas antecipou na sua obra a revolução e as mudanças na sociedade russa. No exterior ouvem-se as balas dos oficiais do czar a disparar contra o povo, que marcha para melhorar as suas condições de vida. Olga, Masha e Aleko (interpretados por Lígia Roque, Sara Barros Leitão e Cristóvão Campos, respetivamente), questionam-se sobre a utilidade do teatro nestes tempos incertos e violento. Em sentidos opostos, assiste-se à desconfiança relativamente às revoluções assumida pela diva Olga, temendo pela sua carreira, para quem “o mais importante é o teatro e representar”, e ao discurso inflamado da jovem Masha, acusando o teatro de ser “uma armadilha burguesa”.
O texto multipremiado do chileno Guillermo Calderón foi a escolha de João Reis para regressar às encenações e também ao Porto, onde viveu alguns dos momentos mais marcantes da sua carreira enquanto ator. “Foi uma demanda de dois anos, à procura de uma peça para poucos atores. Mal li Neva fiquei agarrado”, conta. “É um texto muito especial, de atores e para atores, que levanta a questão da pertinência de se fazer teatro, independentemente das circunstâncias.” O espetáculo representa também o reencontro de João Reis com Nuno Carinhas, desta vez em papéis inéditos, com o o diretor artístico do Teatro Nacional São João (que já tinha encenado O Tio Vânia), a assumir a responsabilidade dos cenários e dos figurinos. “As personagens de Neva, com os seus desejos, ambições e afetos são plasmados da obra de Tchékhov”, considera Nuno Carinhas. “É um gesto bonito do autor, o de trazer este universo tchekhoviano condensado, como um laboratório com animaizinhos que se estudam uns aos outros.” Até ao final, a peça deixa em aberto uma conclusão. Recordemos as palavras de Guillermo Calderón: “Talvez o teatro não sirva para nada, mas pelo menos serve para nos juntarmos com outras pessoas e esperar por um momento de lucidez.”
Neva > De Guillermo Calderón. Enc: João Reis > Teatro Carlos Alberto, R. das Oliveiras, 43, Porto > T. 22 340 1910 >29 out-15 nov, qua 19h, qui-sáb 21h, dom 16h > €10