Foi por razões políticas que Carlos Fuchs, 56 anos, deixou o Brasil, mas é por simpatia que leva “cafezinho” aos vizinhos. “Se pudesse, fazia-o todos os dias, só pela sensação de acolhimento”, diz o produtor, que, com a mulher, a cantora Valéria Lobão, 57 anos, trocou Santa Teresa, no Rio de Janeiro, pelo Bonfim. Na Rua Duque de Saldanha, encontrou a atmosfera encantadora de um bairro onde todos se cumprimentam. Em julho, abriram o Dona Mira, um café-bar muito ao jeito informal brasileiro, decorado como se fosse uma sala de estar. Além de exposições temporárias, tem centenas de livros e fotografias de músicos famosos captadas no antigo estúdio do casal.
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Duas portas ao lado, naquela mesma rua que mais parece uma avenida, encontra-se o Pedra no Rim, o atelier de cerâmica de Israel Pimenta, 49 anos, e Fabrizio Matos, 46. Abre apenas às quartas, pois a intenção é funcionar online. A viver nas imediações, desde os anos 90, eles hão de explicar que, além de bem-humoradas e algo grotescas, as peças de cerâmica são feitas a partir de despojos encontrados nas ruas do Bonfim. Há gatos, camélias, gaivotas e naperons moldados à mão, que refletem as diferentes vivências do bairro.
N’Aquela Kombucharia, a primeira taproom do Porto dedicada à bebida fermentada, inaugurada no final de 2020, a porta está aberta de segunda a sexta, da parte da tarde. Com duas mesas cá fora, e outras tantas no interior, junto à zona de produção, serve kombucha à pressão com “sabores divertidos”, como o de tangerina, lançado este ano, de hortelã e de morango com hibisco (€2,50).
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“É um chá com vida, uma alternativa saudável”, diz Maria Lima, a mentora, que, em 2019, optou também por viver nesta rua e acabou por conhecer as pessoas nas redondezas. “O Bonfim é uma mistura entre o novo e o antigo, não perdeu a essência”, continua. A ideia é partilhada por Priscilla Santos, 40 anos, que fez da freguesia tema da sua tese de mestrado em Sociologia, apresentada, em 2021, na Faculdade de Letras do Porto. “É a vida local, o sentido de comunidade que seduz os estrangeiros, que querem, acima de tudo, inserir-se e fazer parte do bairro”, afirma.
O pacote perfeito
Seduzido pela vizinhança, também Vasco Coelho Santos escolheu o Bonfim para abrir, há cinco anos, o Euskalduna Studio, o restaurante de experiências memoráveis, ao qual irá juntar, no final deste mês (espera-se!), uma padaria. Na Ogi (significa pão, em basco), vai ter pão de fermentação lenta, cookies e croissants de confeção própria. A dois minutos dali, e sem sair da Rua de Santo Ildefonso, encontra-se já uma pequena padaria artesanal e pastelaria vegan, a servir tostas e sanduíches, “com calma e muito sabor.”
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Há também pizza de tomate seco e alecrim e pão de azeitonas com tomilho, acabados de sair do forno – e, por isso, cheira bem mesmo antes de entrarmos na Odete Bakery, aberta há dois anos. Lucas Batista, o proprietário, chegou ao Porto como chefe de cozinha, estudou fermentação e acabou por tornar-se vegan. Das experiências em volta da massa surgiram nove tipos de pães diferentes: trigo, com gengibre, chia, amêndoa e cebola caramelizada (€3,50), entre outros. “Todos fermentam, no mínimo, 24 horas”, assegura Lucas, acrescentando que o glúten não é um vilão. Na parte da pastelaria, desfilam croissants (€1,80), muffins (€2), tarteletes (€3,50) e rolinhos de canela (€2), feitos sem ingredientes de origem animal.
Pelo caminho, haveríamos de passar pela Mercearia do Duque, a funcionar desde o final de janeiro, para espreitar os legumes frescos à porta e os produtos a granel dispostos ao longo das janelas debruçadas sobre a Avenida Rodrigues de Freitas, uma das artérias centrais do Bonfim. Não paramos, o relógio marca a hora do almoço e resolvemos ir espreitar a ementa do asiático Porto Express, na Rua Joaquim António Aguiar. Cá fora, numa das janelas, rasgadas de alto a baixo, lê-se “With love from Vietnam” (Com amor, do Vietname), mas é a ampla e luminosa sala, e a cozinha aberta, que nos despertam a curiosidade.
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A conversa devia fazer-se em alemão, porém, foi em inglês que nos entendemos com Manuel Jochen, para ficarmos a saber mais sobre a mudança deste luso-alemão e da mulher, Loan, para o Porto. O casal conhecia bem o País, pois tem família a viver cá, e, em novembro, instalaram-se no bairro. “No Bonfim, encontrámos o pacote perfeito”, diz Manuel, que elogia a boa vizinhança, a tranquilidade e a dinâmica artística da freguesia na zona oriental da cidade. A cozinha simples, cheia de cor e aromas, já ganhou fama, seja pela frescura dos rolinhos vegetarianos, de camarão ou de porco (€4,20), seja pelo conforto do pho ga, um caldo delicado feito com fatias de carne, massa de arroz, brotos de feijão, cebola e ervas (€9,50), naquela cozinha. Antes de sairmos, não resistimos ao aromático café vietnamita (€2,50) nem a meter a colher no “tiramisu líquido” (€3,20), como lhe chamam.
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Um pouco mais à frente, na direção da Praça da Alegria, encontra-se a Senhora Presidenta, a galeria irrequieta e com radar alargado a marcar a cena artística do Bonfim. Aberta, em 2018, pelos artistas Dylan Silva, 28 anos, Mariana Malhão e Luís Cepa, ambos de 27 anos, em parceria com a designer Célia Esteves (dos tapetes artesanais GUR), expõe ilustração, fotografia, cerâmica e livros de autor. Mariana destaca o aumento do número de famílias a querer viver nestas ruas. “O bairro está a ficar trendy, sem perder as suas rotinas, e todos se conhecem.”
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No Atelier, lugar de trabalho partilhado e showroom, situado do outro lado da rua, a porta está aberta e os ténis da marca portuguesa Wayz, produzidos com materiais amigos do ambiente, convidam a entrar. Ao fundo, vemos Maria João dos Reis, 40 anos, dedicada às malhas vistosas e de desenho original da Snool, feitas numa máquina de tricotar dos anos 70, e às peças utilitárias e decorativas de cimento e cerâmica da Oyo. Às criações dos residentes juntam-se também marcas independentes e locais. Na porta mesmo ao lado, está agora a Gazete Azulejos. Em redor de uma mesa comprida, cheia de tintas e pincéis de vários tamanhos, a designer Alba Plaza, 39 anos, e a produtora Marisa Ferreira, 42 anos, ensinam estrangeiros a pintar os diversos padrões de azulejo espalhados pelas fachadas dos prédios do Porto.
Sem recorrer à serigrafia ou a outras técnicas de impressão, dizem, os desenhos são pintados à mão, e quem visita o atelier pode levar para casa a réplica de um azulejo (a partir de €8). Além de darem a conhecer a tradição, as aulas financiam o inventário digital do património azulejar, iniciado há seis anos, e que soma já quase 300 desenhos (estimam que sejam mais de dois mil). A viver no Bonfim, desde 2020, Mariana, a Miserável começou por pintar em formato pequenino; agora, está na Gazete a trabalhar num mural de azulejos de quatro metros, uma encomenda da Quinta de São Bernardo, no Douro. “É uma arte que está a morrer”, afirma a ilustradora.
Invertemos o sentido, mas não paramos no vizinho Izakaya Japanese Cuisine. O novo japonês de apenas 12 lugares estava fechado (abre apenas para jantares, e convém fazer reserva), mas vale a pena, diz-nos quem vive por aqui, experimentar os gunkans, nigiris e outros pratos da cozinha nipónica. Seguimos para o M.Ou.Co, um antigo armazém convertido em sala de espetáculos, restaurante, bar e hotel, onde a música marca cada recanto. Com uma programação regular, eclética e multicultural, vale a pena ficar atento à agenda de concertos.
É também com sons que se escreve a história recente do Centro Comercial Stop, a que chamam a verdadeira casa da música da cidade, com lojas transformadas em salas de ensaio, paredes grafitadas e janelas tapadas a dar-lhe um ar de abandono. Foi ali que Avelino Barros, 47 anos, encontrou morada para a sua Oficina de Reparação de Letras. Alinhadas, há 49 telas, pintadas a óleo, cadernos de reflexões e letras dispostas em tabuleiros. “Isto é original. Cada tela encerra uma história e abre caminho a outras”, confidencia. Na verdade, o artista plástico tem três alter-egos: o escritor Guilherme Barros, o Barro’s “wood”, um apaixonado pelo trabalho com madeiras, e o Avellino, que se dedica aos cadernos feitos à mão. Um fervilhar de ideias e de histórias, que afinal tem tudo que ver com este Bonfim.
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Guia de passeio
ARTES
M.Ou.Co > R. de Frei Heitor Pinto, 67 > seg-sex, dom 11h-24h, sáb 11h-1h
Oficina de Reparação de Letras > C.C. Stop, R. do Heroísmo, 329 > T. 91 417 0040
Pedra no Rim > R. Duque de Saldanha, 449 > qua 10h-17h
Senhora Presidenta > R. Joaquim António Aguiar, 65 > T. 91 158 9193 > qui-sáb 14h-19h
COMPRAR
Atelier > R. Joaquim António Aguiar, 72 > seg-sex 9h-13h, 14h30-18h, sáb 10h30-13h30, 14h30-16h
Gazete Azulejos > R. Duque de Palmela, 230 > T. 91 289 1581 > seg-ter, sex-dom 11h-13h, 15h-17h
COMER
Aquela Kombucharia > R. Duque de Saldanha, 345 > seg-sex 15h-19h
Dona Mira > R. Duque de Saldanha, 431 > T. 22 098 4768 > seg-sex 12h-22h, sáb 10h-22h
Izakaya > R. do Barão de São Cosme, 90 > ter-sáb 19h30-23h30
Odete Bakery > R. de Santo Ildefonso, 478 > T. 91 086 6107 > ter-sáb 10h-19h
Porto Express > R. Joaquim Aguiar, 149 > T. 22 537 1104 > seg 12h-18h30, qui-sex 12h-16h, 18h30-22h30, sáb 12h30-16h, 18h30-22h30, dom 12h30-19h30