
Os violoncelistas Vanessa Pires e Filipe Quaresma, com o musicólogo Tiago Hora, conceberam este jantar/espetáculo
É uma história de amor à antiga, daquelas que não terão sido, certamente, bem aceites em pleno final do século XIX, esta que juntou a violoncelista portuense Guilhermina Suggia ao violoncelista catalão Pablo Casals. E será essa história de amor – pouco duradoura, contudo – que será recordada pelos dois violoncelistas residentes da Casa da Música, no Porto, Vanessa Pires e Filipe Quaresma (curiosamente, casados na vida real), acompanhados na narração pelo musicólogo Tiago Hora, durante um jantar encenado esta sexta e sábado, 15 e 16. “Há muito que tanto eu como o Filipe tínhamos vontade de apresentar este projeto, que resume aquilo que a Guilhermina e o Pablo tocavam na altura”, conta-nos Vanessa.

Guilhermina Suggia e Pablo Casals
No início deste jantar-concerto, que terá o restaurante da Casa da Música como palco, os dois violoncelistas começam por tocar em lados separados da sala – tal como aconteceu no início desta história de amor à antiga, que terá começado quando, aos 13 anos, Guilhermina Suggia conheceu Pablo Casals, em Espinho, cidade onde se juntavam os grandes nomes da música clássica. Aos poucos, na sala, Vanessa e Filipe hão de juntar-se e tocar juntos, retratando o reencontro entre Suggia e Casals, anos mais tarde, já depois de a violoncelista ter ido estudar para Leipzig, na Alemanha. Os dois músicos passaram a viver juntos, em 1906, na Villa Molitor, em Paris, o que não terá agradado à sociedade da época. “Já não seria bem visto que uma mulher tocasse violoncelo, quanto mais estar a viver com um homem sem ter casado”, nota Vanessa Pires.
Esse amor, que duraria apenas sete anos, teve sempre a música como cúmplice. Exemplo disso é a Suíte para dois violoncelos, do compositor húngaro Emánuel Moór, amigo de então dos dois, e que será tocada agora pelos dois violoncelistas portugueses de 36 anos. “É uma peça muito pouco tocada, mas reflete o tipo de música escrita na altura, pensada para ser tocada em casa, nas soirées”, relembra Vanessa. Além desta, os dois músicos interpretam Suítes para violoncelo solo, de Bach – terá sido Pablo a redescobrir as suas partituras numa biblioteca em Barcelona – Aprés un Rêve, de G. Fauré, Suite para 2 violoncelos, de Popper (o compositor era grande admirador do talento de Suggia) e Concerto para 2 violoncelos, de Vivaldi. Quase todas as obras têm alguns arranjos dos dois músicos à semelhança do que acontecia no início do século XX, quando se ajustava a partitura ao número de músicos presente na sala. “Queremos que as pessoas levem deste jantar o mesmo ambiente musical que eles geravam à volta deles”, resume Vanessa Pires, que tocará com um vestido azul rendado nas costas, a fazer lembrar a forma sumptuosa como Suggia gostava de se vestir na época. Filipe vestirá um fato.
Falta falar do menu do jantar, preparado pelo chefe de cozinha Artur Gomes, de modo a combinar três regiões fundamentais nesta história de amor: Porto, Catalunha e Paris. À mesa chegará uma variação do Bacalhau à Gomes de Sá, o tradicional crema catalana (idêntico ao nosso leite creme) e o parisiense vol-au-vent de cogumelos. Requinte q.b, portanto.
Jantar encenado Guilhermina Suggia e Pablo Casals, a paixão pela música > Restaurante Casa da Música > Av. da Boavista, 604, Porto > T. 22 012 0220 > €42,50 (com aperitivos e jantar)