Já tem alguns anos, a história do Ateliê-Museu Júlio Pomar. Começa em 2000, quando a Câmara Municipal de Lisboa prometeu instalar no número 7 da Rua do Vale o ateliê do pintor. Os anos passaram e só agora, 13 anos depois, o antigo armazém da editora Sá da Costa dá lugar ao novo museu. Na mesma rua onde Júlio Pomar vive há mais de 20 anos. Que, diga-se de passagem, quase podia chamar-se rua Júlio Pomar.
A recuperação do antigo armazém é da autoria do arquiteto Álvaro Silva Vieira, que optou por manter a estrutura original do edifício. O visitante entra pelo pátio, o portão estará, garante a diretora Sara Antónia Matos, 34 anos, sempre aberto. Como se fosse um prolongamento da rua, de resto.
Nas traseiras, ao ar livre, há quatro tigres de bronze e um painel de azulejos com camelos e caracóis. “A obra demorou tanto.”, costuma comentar, a propósito, Júlio Pomar, que mantém, aos 87 anos, o sentido de humor de sempre.
O Ateliê-Museu é um espaço aberto, mantendo, aliás, o espírito dos ateliês dos pintores. Quase todas as zonas são visíveis, ao entrar. Siza Vieira, que assina também todo o mobiliário, manteve as traves originais e a luz natural entra de tal maneira que a diretora diz que, até às seis da tarde, não é necessário ligar a eletricidade. No rés do chão, começa a exposição Em torno do acervo, patente até setembro. Está organizada em quatro núcleos cronológicos. Primeiro, o período neorrealista dos anos 40/50, nas palavras de Sara Antónia Matos, “uma linguagem mais rápida, mais dura e mais envolvida com a realidade”. Depois, os anos 60, um conjunto que integra algumas das 400 obras da Fundação Júlio Pomar que nunca foram exibidas como, por exemplo, desenhos para tapeçarias.
Seguindo o percurso cronológico, o terceiro núcleo inclui obras que Júlio Pomar produziu nos anos 80, depois de ter visitado a Amazónia e de ter assistido, no Brasil, à festa do Divino Espírito Santo. Para as escadas que dão acesso ao primeiro piso, a diretora selecionou um conjunto de ilustrações dos anos cinquenta.
Em cima, o visitante continuará com a mesma visão radial, vê-se quase todo o espaço do ateliê-museu. Nesta zona, estão expostas algumas colagens e assemblages, que Júlio Pomar produziu nas décadas de 70 e oitenta. Sara Antónia Matos costuma dizer que se trata do “hemisfério quente”. Regressam os felinos, aqui já integrados em corpos humanos.