Meticulosamente, Laura Gonçalves, 56 anos, separa pequenos fios de cerda de porco, junta-os e coloca-os numa pequena balança. Não é necessário que o peso desta rama, que há de formar o pincel, seja levado à risca, mas rondará os 14 gramas, mais coisa menos coisa. O punhado irá depois encher uma espécie de molde que os ajudará a sustentar. Laura, que aqui trabalha desde os 16 anos, vai batendo com a forma na mesa para que a cerda se uniformize. Tac, Tac! Já perdeu a conta a quantos pincéis terá feito ao longo de 43 anos de trabalho. Nas décadas de 80/90 saíam dali 10 a 12 mil por mês.
“Havia dias que chegava a fazer 600”, recorda a empregada mais antiga da Semogue, empresa familiar nascida em 1955, em S. Félix da Marinha, Vila Nova de Gaia, criadora dos pincéis para a barba com o mesmo nome (aos quais se junta a antiga marca Excelsior), e que tem conseguido resistir a décadas em que o homem foi substituindo este utensílio pela máquina ou pelas mãos no ato de barbear.
Manuel Gomes, 56 anos, filho de Francisco dos Santos Gomes que esteve na origem da empresa, prosseguiu o sonho do pai e tem mantido de pé a única unidade nacional de produção de pincéis para a barba, que chegou a ter 19 empregados em tempos áureos.
Hoje, este pequeno utensílio de higiene tornou-se quase num objeto de culto. Que muitos teimam em preservar. Há até um clube de amigos os Semogueiros fundado há três anos, que já reúne cerca de 1 200 adeptos deste apetrecho, muitos dos quais estrangeiros. E, de vez em quando, a empresa fabrica séries especiais como aconteceu no ano passado que fez vender uma centena de pincéis em apenas em dois dias. O segredo? “Eram feitos de pelo de texugo e de uma forma ainda mais artesanal, com a rama a ser colocada uma a uma. O cabo era constituído por fibra acrílica”, conta o proprietário.
Uma coisa é certa. “A tradição está de volta mas com uma outra exigência”, garante o empresário que, ao longo da sua carreira profissional se foi debatendo “com os altos e baixos no negócio”. A pior fase, relembra, foi a “invasão dos produtos chineses”, incomparáveis “em relação à qualidade”.
“Muitas vezes, os pelos desses pincéis saem nas primeiras utilizações, o que não é nada bom. Se, quando me fosse barbear, me calhasse um desses, nunca mais queria um na vida.”
FABRICO À MÃO
A qualidade do produto, feito ainda de forma praticamente artesanal, é, por isso, uma das maiores preocupações da Semogue. “O cabo tem de ser resistente à água, e o pincel feito com ramas mais densas para permitir barbeares mais requintados.” A sua produção tem, atualmente, “mais valor acrescentado”. Daí que nada seja descurado. A madeira usada nos cabos também eles de produção artesanal, a cargo da minhota Fabricabos oscila entre o amieiro, a faia, o carvalho ou a cerejeira. O ébano e o pau-preto seriam, acredita Manuel Gomes, as madeiras ideais para resistir ao contacto com a água. Mas tornariam este objeto ainda mais dispendioso. A cerda de porco é o material mais usado nos fios, mas os pincéis mais aprimorados (e que podem atingir os €100 ou mais) são feitos em pelo de javali ou texugo.
Depois de colocados os tais fios de cerda dentro de um molde redondo, é colocada uma cápsula que os irá unir com a ajuda de resina.
Após este processo de algumas horas, a base estará solidificada fazendo com que o pincel não se vá desfiando. Depois de limpos serão, então, colocados nos respetivos cabos de madeira simples ou em outro material (podem ser feitos em prata ou mesmo ouro). Manuel Gomes garante: “Um bom pincel tem uma durabilidade entre quatro e cinco anos, depende do trato.” “Convém que seja bem limpo após a sua utilização e fique virado para baixo num suporte”, aconselha. “Para os homens o ritual de fazer a barba tem que ser feito com calma, é quase um momento de relaxe e introspeção”, alude o empresário para exemplificar a importância dada a este utensílio. “Nos Estados Unidos, por exemplo, já é normal o homem deixar o pincel em contacto com a espuma de barbear enquanto vai tomar banho, para que o encontre depois mais macio”, conta. Atualmente, neste negócio com um volume de faturação a rondar os 150 mil euros, procuram-se nichos de mercado adeptos deste utensílio tanto em Portugal como no estrangeiro onde a marca já está presente (em sítios de venda online) nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda, França e Espanha.
REVIVALISMO
O amarelo-torrado e ocre dão o mote aos mais recentes pincéis fabricados pela Semogue para a marca portuguesa Antiga Barbearia de Bairro (ABB), lançados esta semana no mercado nacional. Depois da linha Príncipe Real, em redor de um bairro de Lisboa e que mereceu recentemente destaque na revista londrina Wallpaper esta empresa, que quer recordar o que é nacional, inspirou-se numa das zonas mais típicas do Porto para lançar a sua segunda linha que recupera a arte de barbear. Além do pincel guardado numa caixa de madeira, a linha Bairro da Ribeira inclui dois sabonetes fabricados pela Castelbel e, futuramente, também uma fragrância e um aftershave.
Quando, há dois anos, Luís Pereira, um dos responsáveis da 100 Ml, criadora da ABB, percebeu que existia em Portugal uma empresa de fabrico artesanal de pincéis para a barba, nem hesitou. Já que era o ritual de barbear que pretendia recuperar, teria de “ter um pincel com marca própria”. “É uma peça de qualidade que amacia e massaja a pele. Com a industrialização deixou-se cair esta tradição.” Com este projeto, ambiciona recuperar “o gosto pelas barbearias antigas de uma forma inovadora e criativa”. A “parceria” agradou, desde logo, a Manuel Gomes que viu nesta sinergia a possibilidade de prosseguir com a valorização do seu produto. “A ideia não é massificar, mas sim apostar na qualidade e na apresentação”, defende o dono da Semogue.
“O objetivo é que não se perca o ritual, reinventando alguns produtos que têm caído em desuso”, corrobora Luís Pereira, há muito ligado ao ramo da perfumaria e um apaixonado pelas memórias do que é realmente português.
“Por sorte temos ainda indústrias com este património, espero que esta crise não resfrie esse ressurgimento.” O empresário acredita que “este tipo de produtos já não cabe nas perfumarias tradicionais”, daí que a linha da Antiga Barbearia de Bairro se encontre espalhada por todo o País em mais de uma dezena de postos de venda entre lojas de design, gourmet e arte. “As barbearias, juntamente com as mercearias, desempenharam sempre um papel social na vida das pessoas” vai lembrando. Daí que a Antiga Barbearia de Bairro pretenda adquirir, no futuro, uma barbearia própria de modo a continuar com este culto. É que, hoje, embora em menor número, há quem goste de entrar nas barbearias antigas. Fazendo deste um local de tertúlia onde a barba ainda se poderá fazer à navalha, com creme e pincel … Sem pressas.