“A situação é especialmente complicada no Beatriz Ângelo e no País inteiro”, começou por dizer o infecciologista Paulo Rodrigues, o convidado desta semana do programa Conversas VISÃO Saúde.
O diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, considera o atual número médio de infeções diárias pelo vírus SARS-CoV-2 “avassalador” – só esta segunda-feira, 9, foram contabilizados 4 096 novos casos.
À data de hoje, estão internados 81 doentes com Covid-19 no hospital de Loures, oito deles em cuidados intensivos. No total, o País soma 2 651 pessoas hospitalizadas, um recorde desde o início da pandemia.
O infecciologista admite que o Beatriz Ângelo enfrenta uma situação de “muita sobrecarga”, mas recusa utilizar a palavra caos.
“É aflitivo ter nove doentes para internar e só ter duas vagas e três altas para dar”, ilustra. A solução passa, muitas vezes, por enviar os doentes para outros hospitais ainda com camas livres.
A última fase do plano de contingência do Beatriz Ângelo permite a abertura de mais 30 vagas para doentes com Covid-19 mas, neste momento, elas estão ocupadas com doentes com outras patologias, que também poderão vir a ser transferidos para outras unidades.
É aflitivo ter nove doentes para internar e só ter duas vagas e três altas para dar
paulo rodrigues, diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures
Paulo Rodrigues destaca a importância da solidariedade entre hospitais e lamenta que a estrutura de gestão das vagas a nível regional só tenha sido concluída agora, ou seja, “tardiamente”.
No entanto, lembra que “se todos estiverem no vermelho, não poderá haver solidariedade”.
Mas não é apenas o número de camas que é crucial no combate à pandemia: “Os recursos humanos são o mais crítico”, sublinhou, alertando para a falta de profissionais qualificados no mercado. “Antes de esgotarem as camas, esgotam os profissionais de saúde”, afirmou.
“Apelo à responsabilidade individual de cada um ou não vamos ser capazes”, admitiu, antes de acrescentar: “Há o perigo de colapso do serviço nacional de saúde”.
Quebrar as cadeias de transmissão do vírus é essencial para evitar a derrocada do SNS. O diagnóstico precoce, o rastreio dos contactos dos doentes infetados, o distanciamento físico ou a utilização da máscara são algumas das medidas essenciais para controlar o contágio, assim como o confinamento da população.
O médico acredita que o desconfinamento, após a primeira vaga, foi “demasiado rápido” e considera as atuais medidas do Governo, que incluem recolher obrigatório, “algo tímidas”, mas ressalva que é médico e não economista.
Porém, não tem dúvidas: “Se houver mil mortos por dia, a Economia será relegada para segundo plano”.
No fio da navalha
A imprevisibilidade da doença é um dos fatores que mais perturba o infeciologista. “Já tivemos um jovem de 24 anos, sem comorbilidades, ventilado, e uma senhora de 93 anos que saiu bem”, compara.
Paulo Rodrigues não pretende “diabolizar os jovens”, mas apela ao seu sentido cívico. “A doença é ligeira nos mais novos, mas há exceções. Além disso, os jovens têm familiares mais velhos e, por isso, vulneráveis”. A mensagem que lhes deixa é simples: “Tenham mais cuidado”. E é extensível a todas as faixas etárias.
Se houver mil mortos por dia, a Economia será relegada para segundo plano”
paulo rodrigues, diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures
O infeciologista também abordou o “equilíbrio instável” entre a resposta aos doentes infetados com o SARS-CoV-2 e o atendimento de quem sofre de outras doenças. “Se o número de casos de Covid-19 não diminuir, não vão diminuir os internamentos e esse equilíbrio não existirá”, nota.
Um cenário que poderá contribuir para “um grande aumento da morbilidade e da mortalidade durante a pandemia”, alerta.
O especialista não acredita que a vida regresse ao normal nos próximos meses. “O desenvolvimento da vacina será moroso e a vacinação massiva da população não será fácil”, nota.
Por isso, apela à responsabilidade de todos os cidadãos e lembra que, quando se fala da pandemia, “fala-se de pessoas”. Pessoas que adoecem, pessoas que veem os seus familiares doentes, pessoas que morrem. E sublinha: “Esta luta não é dos médicos, nem mesmo do Governo, é de todos nós”.
Paulo Rodrigues foi um dos doze diretores de hospitais que estão na linha da frente do combate à pandemia entrevistados na edição desta semana da VISÃO.
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