Segunda causa de morte em Portugal (e no mundo), o cancro tem revelado uma tendência crescente. Dados do último Registo Oncológico Nacional (RON) mostram que, em 2019, foram diagnosticados quase 58 mil novos casos, a maioria em homens, o que traduz um crescimento de 19,3% em relação a 2010. E as perspetivas não são animadoras, prevendo-se um aumento significativo do número de casos e mortes nos próximos anos – segundo a Organização Mundial da Saúde, um quarto da população portuguesa corre o risco de ter cancro até aos 75 anos e 10% desses casos deverão ser fatais.
Acresce ainda que o risco de contrair a doença aumenta substancialmente com o avançar da idade (segundo a American Cancer Society, 60% dos tipos de cancro atingem pessoas com 60 anos ou mais).
“A maior parte dos casos de cancro ocorre entre os 60 e os 74 anos”, confirma Fátima Vaz, diretora do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia (IPO) Lisboa, para sublinhar que se trata “claramente de uma doença dos mais velhos”, ou seja, “as pessoas com mais idade têm maior probabilidade de ter cancro: aos 40 anos, o risco aumenta, aos 50 aumenta mais e aos 60 mais ainda”.

Mariana Malheiro Rodrigues, oncologista no Hospital CUF Tejo, comprova que “a incidência da maioria dos cancros aumenta com a idade”, adiantando que “cerca de 60% dos diagnósticos são feitos depois dos 65 anos e a idade mediana de diagnóstico é 65-69 anos”, com os idosos a apresentar “10 vezes mais probabilidade de ter uma doença oncológica e 15 vezes mais possibilidade de morrer por esta causa do que pessoas com menos de 65 anos”.
Por isso é que “passar a barreira dos 50 anos deve ser motivo de preocupação”, alerta, por seu turno, Mónica Gomes, bióloga e investigadora da Liga Portuguesa contra o Cancro do Porto, reconhecendo igualmente que “a idade é, de facto, um fator de risco acentuado”.
Em idades avançadas, a doença assume incidências particulares. De acordo com dados do Global Cancer Observatory (Globocan), os cancros mais frequentes em Portugal depois dos 60 anos são, no homem, o da próstata (17,3%), o do pulmão (15,5%) e o colorretal (11,6%). Na mulher, temos o da mama (19%), seguido do colorretal (11,9%) e do pulmão (11,1%). Note-se que nem sempre o maior número de casos corresponde a uma maior mortalidade – apesar do cancro da próstata ser o mais frequente no homem, é o do pulmão que mata mais. Porque, como nota Fátima Vaz, “o cancro da próstata (tal como o da mama) consegue-se ‘cronicizar’, o do pulmão nem sempre”, apesar da “grande evolução” que se tem registado nos últimos anos no tratamento deste tumor.
Envelhecimento celular
Mas a que se deve a maior prevalência e risco nestas idades? A investigadora Mónica Gomes explica que, “com a idade, os genes de reparação, mecanismos do nosso organismo que regulam e corrigem os erros de DNA, vão perdendo capacidade, o que leva às mutações celulares que originam o cancro”.
E esta desregulação acontece não só devido ao envelhecimento natural mas também à exposição continuada a determinados riscos, sejam eles uma alimentação desequilibrada, o tabagismo ou o excesso de sol. “Por isso é que, quando somos mais novos, reagimos muito melhor”, sublinha.
A prevenção do cancro é possível em qualquer idade e nunca é tarde para começar
Mariana Malheiro Rodrigues, Oncologista no Hospital CUF Tejo
Mas, ao contrário daquilo que poderia pensar-se, a doença oncológica a partir dos 60 não tem necessária e exclusivamente que ver com a degeneração natural, em particular com as alterações morfológicas celulares. Na verdade, “a correlação entre o cancro e a idade é complexa e para muitas questões ainda não se tem uma resposta certa”, reconhece a oncologista Mariana Malheiro Rodrigues.
“A idade é um fator importante, mas seria arriscado apontar o envelhecimento celular como causa prioritária porque, geralmente, existem muitos outros fatores, como os ambientais, os genéticos ou história familiar”, acrescenta Fátima Vaz, especificando: “No cancro do ovário, por exemplo, sabe-se agora que a história familiar é muito importante (10% a 15%) e, no do pulmão, o tabaco é um fator muito bem definido”. Outros elementos pesam conforme o tipo de tumores, dependendo de “questões ambientais, como o tabaco, a obesidade, a poluição, a carne vermelha ou o álcool”. Por outras palavras, “cada cancro é um caso especial” e não há que generalizar.
Idade funcional
Outra ideia a desmistificar é a de que o cancro detetado em idades tardias é geralmente menos agressivo. “A idade avançada não significa que um tumor seja mais indolente”, salienta a diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO, insistindo em que “não é garantido que uma pessoa com mais de 60 anos vá ter um tumor menos agressivo”. O importante, defende Fátima Vaz, “é fazer a caracterização do tumor e a caracterização da pessoa”, uma avaliação que fornecerá informações fundamentais para avaliar o estado da doença e do paciente e, a partir daqui, definir a melhor terapia a seguir.
Mas, também no tratamento, a idade não é fator determinante na decisão. “O que conta não é a idade biológica, mas a idade funcional, as comorbilidades [existência de mais de uma doença], os défices que existem, o estar ou não apto”, explica, notando que “os medicamentos para tratar o cancro não provocam todos reações adversas e não é por ter mais de 60 anos que vamos tratar a pessoa de forma diferente”. A propósito, a investigadora Mónica Gomes lembra que “há pessoas com 50 anos num estado muito debilitado e pessoas com 80 num ótimo estado”.
A oncologista Mariana Malheiro Rodrigues concorda: “O importante aqui é definir o envelhecimento para além da idade cronológica e ter em conta a idade funcional – nem todos os jovens são funcionais e ‘fit’ e nem todos os idosos são doentes e dependentes.”
Por outras palavras, como salienta Fátima Vaz, “nós ajustamo-nos ao doente e não deixamos de tratar as pessoas por causa da idade”. E, quando surgem dúvidas, prossegue, pede-se “uma avaliação geriátrica que é feita por uma equipa multidisciplinar”, atualmente simplificada graças à existência de uma ferramenta de triagem de oito itens (a chamada G8), que dá o “alerta” caso exista algum problema que impeça o tratamento. Em suma, mais do que a idade, o que conta é o “estado geral” do paciente.
Os mais frequentes
Depois dos 60 anos, em Portugal, estes são os tumores que mais aparecem
No homem
17,3%
Próstata
15,5%
Pulmão
11,6%
Colorretal
Na mulher
19%
Mama
11,9%
Colorretal
11,1%
Pulmão
Ainda assim, Mariana Malheiro Rodrigues reconhece que, no doente mais velho, “as decisões de tratamento são muitas vezes mais complicadas”, designadamente devido à redução da esperança de vida, aos riscos associados às comorbilidades, à menor tolerância ao tratamento ou a potenciais interações com outra medicação. “Os doentes mais velhos, muitas vezes, apresentam reservas reduzidas em vários sistemas orgânicos, e associar um fator de stresse como a cirurgia, a quimioterapia ou uma infeção aguda podem levar a sintomas gerais em vez de sintomas específicos de órgãos.”
Além de que, nota, nestes casos “os sintomas do cancro podem ser mais difíceis de interpretar pelas comorbilidades, o que pode atrasar o diagnóstico”, uma vez que “estes doentes muitas vezes apresentam sintomas ocultos ou atípicos de apresentação de doenças (por exemplo, podem não ter febre durante uma infeção ou dor no caso de um enfarte agudo do miocárdio)”.
Especificidades que merecem cada vez mais atenção. “Há grupos de trabalho dedicados à oncogeriatria que estudam e tratam os cancros em idades mais avançadas”, porque a doença nestas idades é, de facto, “peculiar” e os “tratamentos têm de ser ajustados e individualizados”, avança a bióloga Mónica Gomes.
Saúde personalizada
Apesar dos avanços nos tratamentos e do aumento da sobrevida nos doentes oncológicos (segundo um relatório da OCDE, em Portugal as taxas de sobrevivência dos cancros mais comuns são superiores às médias em toda a União Europeia), a grande aposta continua na prevenção. Sem alarmismos, Mónica Gomes reconhece que, dados os “riscos acrescidos” aos 60 anos, “é muito importante estar alerta, atento aos sinais” e, claro, fazer sempre os rastreios necessários. Por isso, recorda, “é que os rastreios ao cancro da mama e as colonoscopias são feitos a partir dos 50 anos”.
Mas a prevenção passa também, e sobretudo, pela promoção de hábitos de vida saudáveis. E atenção: vai sempre a tempo!, ou seja, “a prevenção do cancro é possível em qualquer idade e nunca é tarde para começar”, defende Mariana Malheiro Rodrigues. Fátima Vaz partilha da mesma opinião: “O ideal é começar o mais cedo possível a fazer uma vida saudável. Mas mesmo que comece só aos 60 anos, ainda vai a tempo!”, sublinha.
A oncologista do IPO destaca a importância de uma alimentação saudável, dos malefícios do tabaco e do álcool (no limite, duas bebidas diárias no homem e uma na mulher), mas também da importância do controlo do peso e da prática do exercício físico. “O exercício é muito importante. Pode prevenir a obesidade, que é um fator de risco para muitas doenças, e aumentar a capacidade pulmonar. E, ao ajudar a controlar o peso, há uma regulação de algumas hormonas e do sistema imunitário, o que faz com que esteja associado à prevenção de 15 tipos de cancro”.
A maior parte dos casos de cancro ocorre entre os 60 e os 74 anos. É claramente uma doença dos mais velhos
Fátima Vaz, Diretora do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Lisboa
De facto, vários estudos têm vindo a comprovar os benefícios do exercício físico na prevenção do cancro (uma pesquisa recente, publicada na JAMA Oncology, e que contou com uma amostra de 22 mil pessoas, revela que apenas um ou dois minutos de exercício vigoroso intermitente por dia são suficientes para reduzir o risco), mas também no tratamento e na recorrência da doença – para os sobreviventes dos diferentes tipos de cancro, a American Cancer Society indica a prática de pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos semanais de intensidade vigorosa.
A importância é tal que, em alguns casos, defende Fátima Vaz, “devia ser o médico de família a prescrever exercício físico”, porque há pessoas “que precisam da orientação de um profissional”. Aliás, prossegue, o médico devia ter um papel mais ativo na promoção de estilos de vida saudáveis: “Devia haver planos personalizados de promoção de saúde, adequados a cada pessoa.”
Mariana Malheiro Rodrigues vai mais longe: está provado que “as escolhas de estilo de vida podem afetar as hipóteses de ter uma doença oncológica” diz, mas reconhece que “mudar o comportamento humano não é fácil” e que pouco tem sido feito. “Fazer com que mais pessoas adotem e sigam os comportamentos preventivos, especialmente entre grupos, tem sido pouco promovido e isto poderia reduzir significativamente o número de pessoas diagnosticadas com cancro.”
Com tantas vantagens comprovadas e ainda tanto para fazer, poderá estar na hora de dar o primeiro passo… seja ele qual for. Pela sua saúde.
Berta Teixeira, 72 anos
“Fiquei revoltada!”
Todos os anos, invariavelmente de seis em seis meses, Berta Teixeira fazia consultas e exames de rotina. Por isso, a surpresa não podia ser maior quando lhe foi diagnosticado um cancro nos ovários
Aconteceu há dois anos. Berta Teixeira, então com 70 anos, reformada, estava a estender a roupa quando, ao roçar com a barriga no parapeito, sentiu uma dor. “Aquilo passou, mas quando ia evacuar, a dor voltava… e tornava a passar”, conta. O “grande susto” veio depois, com a urina meio cor-de-rosa, o que parecia indiciar a presença de sangue. Não hesitou e foi à médica, que lhe prescreveu os exames necessários. Dias depois, o relatório da ecografia sugeria “um estudo mais aprofundado”. Novos exames e o diagnóstico cruel: um carcinoma no ovário esquerdo, alojado entre o útero e o intestino.
“A médica disse-me logo que era maligno e que tinha de ser operada”, recorda, confessando ter ficado “um bocadinho revoltada” porque, diz, “eu sou uma pessoa que tem muito cuidado com a saúde: vou ao médico e faço sempre os rastreios a horas, tenho uma alimentação saudável, não fumo nem bebo, faço caminhadas…”. Um pouco “descontrolada”, lá acalmou com as palavras da médica, que lhe explicou que “este tipo de tumor, quando é pequeno, esconde-se, é difícil de ser detetado e, quando já está grande, tenta alojar-se noutro sítio e é assim que geralmente é descoberto, que foi o que me aconteceu”.
Recuperou “muito bem” da cirurgia e, dois meses depois, iniciou os tratamentos de quimioterapia. E foi então que se deu o “grande choque”, conta. “Ao fim de cinco dias da primeira sessão, começou a cair-me o cabelo. Eu sempre disse que não me importava se isso viesse a acontecer, mas quando a minha filha me rapou o cabelo e me vi ao espelho pensei: ‘É o meu fim!’ Foi, de facto, a pior coisa que me aconteceu!”
Na altura, a filha e a neta deram-lhe forças e não a deixaram esmorecer. Acabou por sair de casa da filha com um lenço na cabeça e depressa o choro deu lugar ao riso. “Sempre fui assim e foi isso que sempre me ajudou.” Aceitou o novo visual e até passou a gostar de se ver com lenços e boinas.
A quimioterapia decorreu sem grandes sobressaltos durante três meses, seis sessões de 22 em 22 dias. Tirando as náuseas à carne e ao peixe, que lhe dificultavam a ingestão destes alimentos (a certa altura, ganhou uma anemia), “tudo correu muito bem”. Hoje, já só toma medicação por via oral e aguarda com expectativa os exames finais, que estão para breve. “Estou quase curada”, revela, otimista. O “efeito dos químicos” ainda se faz sentir – os enjoos e as náuseas (que persistem) a certos alimentos, o formigueiro nas pontas dos dedos e as dores nas articulações –, mas sente-se “muito bem”.
“Sou uma sobrevivente!”, dispara. “Só ainda não consigo fazer o meu tricô nem coser à máquina por causa da falta de sensibilidade nos dedos”. Quando ao resto, o cabelo cresceu, já retomou as caminhadas e “os ovários não fazem falta nenhuma”, conta, divertida. E, tal como antes, não para em casa. Faz questão de deixar um elogio sentido a todos os médicos e enfermeiros que lhe “salvaram a vida” mas, reconhece, foi fundamental o rastreio e o diagnóstico atempado. “Só consegui superar tudo porque fui diagnosticada a tempo!”
Artigo publicado na VISÃO Saúde nº 34