A Catalunha foi a primeira região autónoma a encurtar o período de quarentena da Covid-19 de 14 para dez dias, mas a medida deverá estender-se a todo o território espanhol.
Até ao momento, só os casos positivos que não manifestassem nenhum sintoma da doença durante 72 horas podiam ver o seu período de isolamento reduzido a uma dezena de dias, já os contactos de alto risco de um caso confirmado apenas podiam ser dispensados de completar 14 dias de quarentena se, ao décimo dia, realizassem um teste de rastreio PCR com resultado negativo.
O Ministério da Saúde espanhol pretende, agora, dispensar os contactos de alto risco da necessidade de realizarem o teste e estabelecer, por definição, o período de quarentena em dez dias.
Inicialmente, a comunidade científica acreditava que a fase de incubação da doença se prolongava, no máximo, até aos 14 dias, mas os dados dos últimos meses revelam que a probabilidade de desenvolver a infeção dez dias após ter estado em contacto com o SARS-CoV-2 é residual.
“Metade das pessoas desenvolvem a doença entre cinco a seis dias após terem contactado com o vírus”, sublinha o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Ricardo Mexia.
Metade das pessoas desenvolvem a doença entre cinco a seis dias após terem contactado com o vírus
Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública
Espanha não será o primeiro país a reduzir o tempo de quarentena. Também a Holanda impõe, agora, dez dias, tal como a Alemanha e o Luxemburgo. França foi ainda mais longe e reduziu o período de isolamento a sete dias. A medida aplica-se a quem tenha tido sintomas de Covid-19, a quem tenha feito um teste de rastreio PCR com resultado negativo e a quem tenha estado em contacto com um doente positivo.
O governo francês justificou a alteração não só com base no conhecimento científico disponível, mas também com o argumento de que é mais fácil as pessoas cumprirem de forma rigorosa uma quarentena mais curta, o que alivia, igualmente, o trabalho das equipas de saúde pública – razões igualmente apontadas pelas autoridades espanholas.
Ricardo Mexia considera a opção francesa de reduzir o isolamento a metade “arriscada” e discorda da invocação do argumento de que é menos complicado respeitar uma quarentena mais curta: “Naturalmente que é mais fácil, mas não pode ser esse o motivo para tomar decisões. A razão tem de ser o conhecimento científico, que revela uma reduzida possibilidade de infeção ao fim de dez dias”.
Portugal aguarda decisão
A Direção-Geral da Saúde (DGS) não exclui a possibilidade de também diminuir o período de quarentena para dez dias, em Portugal. “Temos de ser muito cuidadosos. Parece que começa a haver algum consenso à volta deste décimo dia, sobretudo para os doentes, o que seria uma ótima notícia”, afirmou a diretora-geral da saúde, Graça Freitas, em conferência de imprensa, na semana passada.
A Direção-Geral da Saúde não exclui a possibilidade de também diminuir o período de quarentena para dez dias em Portugal
A redução do período de isolamento pode implicar o cumprimento de alguns critérios clínicos e ser apenas admissível para pessoas que tiveram sintomas ligeiros da doença, que não sejam imunodeprimidas ou que estejam há 72 horas sem apresentar quaisquer sintomas. Questiona-se se os dez dias podem ser aplicados apenas aos casos confirmados ou também aos suspeitos.
“Os dez dias são mais ou menos consensuais para as pessoas positivas. Mesmo os franceses, que encurtaram para sete dias em relação aos doentes, no que diz respeito aos contactos de alto risco testam ao sétimo dia e, eventualmente, se o teste for negativo, só libertam essa pessoa do isolamento ao décimo dia”, notou Graça Freitas na mesma ocasião.
Ricardo Mexia veria com bons olhos a redução da quarentena para dez dias por parte da DGS – “não me surpreenderia” – e acredita que a decisão poderá ser tomada “nos próximos dias”.
O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano também passou a recomendar apenas dez dias de quarentena para os casos positivos que cumpram os critérios clínicos. No entanto, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) ainda não se pronunciou.