No ano 737, um terço da população japonesa foi dizimada num surto de sarampo. Ao longo da sua história, o Japão foi atingido por várias epidemias: as gripes, a varíola, o sarampo – e agora a Covid-19.
Com vários monumentos erguidos em honra do “deus das epidemias”, os japoneses encaram a doença com respeito. O Japão não tem leis que obriguem ao uso de máscara, à distância social, à lavagem das mão ou à verificação regular da temperatura corporal – mas os seus cidadãos conhecem e respeitam essas regras.
Meses antes do resto do mundo adotar as máscaras e estar consciente dos perigos dos espaços fechados, o Japão adotou um modelo que permite conviver com o vírus sem um confinamento total. A cooperação dos cidadãos tem sido essencial para o seu sucesso, mas também tem levado a casos de discriminação.
A procura do “meio-termo”
A abordagem japonesa tem como objetivo atingir o “meio termo” entre o confinamento rígido da China e o regime permissivo da Suécia no combate à Covid-19. Desde o início da pandemia, o Japão procurou “eliminar a transmissão do vírus o máximo possível, mantendo as oportunidades económicas e sociais”, de acordo com o virologista japonês Hitoshi Oshitani.
Em maio, o país levantou o estado de emergência. Mais de 100 indústrias criaram regras de conduta para a sua reabertura, que incluíram a existência de ventilação adequada, a disponibilização de desinfetante para as mãos e a distância social. Alguns estabelecimentos adotaram medidas menos convencionais, como o incentivo aos clientes para se sentarem lado a lado, em vez de frente a frente, de forma a evitar que conversassem .
A recetividade pela população destas medidas pode explicar-se por fatores de ordem histórica – o respeito dos japoneses pelas epidemias, que já remonta há mais um milénio – mas também por fatores científicos e culturais.
Em fevereiro, uma equipa de epidemiologistas japoneses chegou a duas conclusões: os assintomáticos podem transmitir o vírus e há determinadas pessoas que têm maior propensão para infetar as outras. Atualmente, estas descobertas são aceites entre cientistas de todo o mundo, mas foram precisos vários meses para ganharem apoio fora do Japão.
Assim, o governo japonês seguiu as diretrizes deste estudo desde o início da pandemia. A prioridade dos especialistas sempre foi identificar os focos de infeção de Covid-19. Graças a isso, toda a população está conscencializada dos 3 principais comportamentos a evitar: frequentar sítios fechados com má ventilação, estar em locais lotados e o contacto próximo com outras pessoas.
Apesar de o governo reforçar a importância das medidas de prevenção, os cidadãos são incentivados a sair de casa para fazer exercício ao ar livre ou para ir à escola – desde que cumprindo as regras de distanciamento social e do uso de máscara.
O vírus da discriminação
A maioria dos japoneses usa religiosamente as máscaras. No entanto, um estudo concluiu que os japoneses usam-nas predominantemente pela “pressão de grupo” e não tanto pela prevenção da contaminação em si. De acordo com Kazuya Nakayachi, o autor do estudo, “a tendência para ceder à pressão de grupo pode ser positiva para o combate à Covid-19”. Mas o professor universitário alerta para “o perigo das pessoas se vigiarem umas às outras”.
O receio de desobedecer às regras sociais tem sido útil para a implementação das medidas do governo japonês. No entanto, a discriminação devido à Covid-19 é um dos efeitos negativos desta rigidez de pensamento, conjugada com a ideia de que o vírus é algo que vem de fora do país.
Desde o início da pandemia, o número de queixas por discriminação de estrangeiros tem crescido. De acordo com uma sondagem realizada em maio, 20% dos imigrantes da Prefeitura de Fukuoka afirmaram ter sido vítimas de discriminação relacionada com a covid-19. Na cidade de Beppu, alguns restaurantes e barbeiros colocaram sinais à porta a proibir a entrada de estudantes internacionais – que foram prontamente repudiados pelo governo local.
De acordo com Toshiri Menju, diretor do Centro de Relações Externas do Japão, “os governos locais devem tratar os residentes estrangeiros da mesma forma que os locais” e que “devem ser implementados mecanismos para garantir a interação entre todos, de forma a erradicar a discriminação”.
As críticas ao modelo japonês
Apesar desta consciência coletiva dos japoneses para a prevenção da Covid-19 e da baixa taxa de mortalidade no país, o modelo que o governo adotou tem enfrentado críticas. Vários cientistas e médicos queixam-se da falta de testes disponíveis e da dificuldade em realizar os mesmos.
Por outro lado, o governo japonês tem tido uma baixa taxa de aprovação, justificada por episódios de reação lenta e confusa aos acontecimentos da pandemia, aliada a uma profunda recessão económica. O Japão enfrenta uma crise de desemprego e uma onda de falências das suas empresa. O futuro não promete ser fácil para o recém-empossado primeiro-ministro, Yoshihide Suga.