“Sentimos que prestamos um excesso de cuidados de saúde a quem deles não necessita e não estamos disponíveis para quem precisa”, o desabafo é feito por Daniel Pinto, médico na Unidade de Saúde Familiar (USF) de São Julião, em Oeiras.
Já sabemos que a grande maioria dos infetados com o coronavírus não chega a apresentar sintomas ou sofre formas muito ligeiras da Covid-19. No entanto, o protocolo estabelecido pela Direção-Geral de Saúde obriga a um seguimento diário por parte de um médico, enquanto a pessoa está em casa, a cumprir o isolamento e até que tenha um teste negativo. Este acompanhamento é feito pelo telefone e destina-se a avaliar a evolução dos sintomas e a definir a data de marcação do já famoso teste de diagnóstico. Só que na maior parte dos casos – felizmente – a situação dos infetados é estável, não havendo novidades a reportar de uma chamada para a outra. “Ligamos e a conversa resume-se sempre ao mesmo. Acaba por ser um desperdício de tempo”, reforça o médico.
São as zonas mais afetadas, em que há mais casos, aquelas que têm mais carência de médicos de família
Daniel Pinto
Esta nova obrigação que recaiu sobre o especialistas de Medicina Geral e Familiar veio sobrecarregar uma especialidade em que há falta de profissionais, em particular na região de Lisboa e Vale do Tejo – precisamente a zona do país atualmente com mais casos positivos. “São as zonas mais afetadas, [como a Amadora, Sintra] em que há mais casos, aquelas que têm mais carência de médicos de família”, sublinha Daniel Pinto, que se assume como um “privilegiado”, por trabalhar em Oeiras.
Os números são exemplificativos.“Tivemos até agora 40 mil casos positivos, no pico, 20 mil em simultâneo. Neste momento serão à volta de 12 500. Destes, 96% estão em casa”, enumera o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira. É fazer as contas … No início da pandemia, a previsão era de que a distribuição dos casos acontecesse de acordo com a seguinte proporção: 80-15-5, significando 80% dos casos em cuidados domiciliares, acompanhados pelo médico de família, 15% em enfermaria geral e 5% em cuidados intensivos.
“Tivemos metade dos internamentos previstos inicialmente, mas uma sobrecarga muito maior da Medicina Geral e Familiar.
Rui Nogueira
Na realidade, a percentagem de casos graves tem sido inferior à prevista, estimada a partir do que se passou na China, o que é uma boa notícia para o Sistema Nacional de Saúde. Mas veio sobrecarregar os centros de saúde mais do que o previsto. “A nossa realidade é de 92-6-2” diz Rui Nogueira. “Tivemos metade dos internamentos previstos inicialmente, mas uma sobrecarga muito maior da Medicina Geral e Familiar.” Um problema que se torna ainda mais complicado quando há uma explosão de casos em regiões de baixa densidade populacional, logo com poucos médicos de família, como é o caso de Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, em que um surto originado num lar de idosos obrigou a reforçar o atendimento com profissionais de localidades próximas. “Há um milhão de doentes crónicos que temos de continuar a seguir e a Covid tem representado um peso muito elevado na atividade dos centros de saúde”, complementa Rui Nogueira. “Só daqui a algum tempo é que vamos perceber verdadeiramente o impacto que isto está a ter no tratamento dos novos casos de cancro. Temo que estejamos a atrasar milhares de diagnósticos”, alerta o presidente da APMGF.
“Este acompanhamento da Covid por parte dos centros de saúde foi decidido de um dia para o outro, sem que tenhamos sido ouvidos. Foi uma imposição”, denuncia Rita Viegas, da USF da Cova da Piedade, Almada. “Não sei como será possível manter esta atividade quando chegarmos ao inverno e além da Covid tivermos a gripe e as outras infeções respiratórias típicas dos meses mais frios”, antecipa e especialista em Medicina Geral e Familiar. Mesmo assim considera que em Almada a situação acaba por ser mais controlada, uma vez que o seguimento às pessoas Covid positivas está a ser gerido a partir de uma central de atendimento, designada ADC (Atendimento ao Doente Covid). “No início [da pandemia] havia uma equipa dedicada ao atendimento telefónico de doentes Covid. Agora que estamos num regime misto, em que damos suporte ao ADC mas também fazemos consultas presenciais tornou-se mais difícil de gerir”, relata a médica Marta Marquês que fez parte da equipa do ADC desde o início. Apesar de admitir que a rotina normal já se começou a instalar nos centros de saúde – “os doentes já querem vir outra vez e já chegamos a ter até falsas urgências” – Marta Marquês teme que o verdadeiro impacto do coronavírus só se venha a revelar mais tarde. “Em Medicina Geral e Familiar há muito aquele ‘já agora’, que nos leva a detetar problemas de saúde quando eles ainda não estão totalmente declarados. E isto só acontece em consultas presenciais.”