Falámos com médico epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, sobre os riscos do coronavírus para determinados grupos. O especialista faz questão de frisar que ainda estamos a aprender como se comporta este vírus.
Já morreram alguns médicos jovens que, tanto quanto se sabe, eram saudáveis. Isto muda alguma coisa em relação ao que se pensa serem os grupos de maior risco?
Quem está na linha da frente tem maior risco. Os médicos e enfermeiros têm maior exposição do que outras pessoas. Por isso, os equipamentos de segurança (máscara e luvas) são essenciais e a retirada dos mesmos, depois de tratar doentes infetados, também tem um risco associado e deve ser feita de acordo com as normas. A doença é mais severa para quem patologias crónicas como a diabetes, por exemplo, porque tem menor capacidade para enfrentar outras doenças, mas isso não invalida que jovens saudáveis não possam contraí-la.
A exposição repetida (caso dos médicos e enfermeiros) aumenta o risco de contrair o vírus?
Quanto maior é a exposição maior é a possibilidade de ter a doença o que não quer dizer, por exemplo, que, se estiverem 20 pessoas numa sala e uma delas espirrar todas vão ficar infetadas.
O que pode ser problemático é muitos profissionais de saúde ficarem doentes ao mesmo tempo, porque, nesse caso, os cuidados de saúde ficam comprometidos.
Quais são, então, os grupos de maior risco?
Pessoas que estão em contacto direto com os doentes (profissionais de saúde); do ponto de vista da severidade, as pessoas com idade mais avançada e com outras doenças; por outro lado, quem trabalha diretamente com o público (como restaurantes ou lojas) e quem anda de transportes públicos está mais suscetível a contrair a doença.
O que é que ainda não sabemos sobre este vírus e pode ser importante?
Ainda estamos a aprender coisas. Vamos conhecendo o vírus à medida que vai evoluindo. No início pensava-se que não era transmissível de pessoa para pessoa e, afinal, é. Atribuía-se a transmissão ao contacto social (tosse, espirros), mas agora sabemos que pode ser, também, através das fezes.
O que se passou na China é diferente do que se está a passar em Itália onde, no espaço de três dias, se registaram 200 novos casos. A propagação foi muito rápida e não sabemos qual foi o link epidemiológico.
Também falta terapêutica direcionada (medicamentos), só temos terapia de suporte. Importa saber que tipo de medicamentos podem ser eficazes. Além disso, caso haja mutação do vírus, ou seja, se as suas características se alterarem, será mais difícil controlar o surto. Pode mudar a severidade da doença ou a forma de contaminação.
Há quem faça comparações entre o coronavírus e o vírus da gripe. Faz sentido?
É sempre mais fácil comprar com o que já se conhece, até porque os sintomas são parecidos com a gripe, mas não são comparáveis. A taxa de mortalidade na gripe é mais baixa.