25 de Maio. 9 da manhã. Primeira paragem: Cabo Espichel. O sol já tinha rompido algumas nuvens que pairavam sobre o distrito de Setúbal e os termómetros batiam os 27 graus. Ali, homens vestidos de verde e outros de azul fiscalizavam a zona. Eram elementos do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SPNA) da GRN e Vigilantes da Natureza do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
As duas entidades juntaram-se para uma ação de fiscalização e sensibilização musculada, a primeira de Norte a Sul do país. Uma parceria que contou com a participação de 170 elementos (incluindo 16 coordenadores) dos Vigilantes da Natureza, dos elementos dos SEPNA e ainda equipas cinotécnicas, com 50 viaturas.
A equipa de reportagem da VISÃO acompanhou o presidente do ICNF, Rogério Andrade, ao terreno, que lembrou que o trabalho da fiscalização é um trabalho invisível.
“O que passamos a efetuar a partir desta ação são operações musculadas, recorrendo ao corpo de Vigilantes da Natureza que existe em todo o país. Se atuarem de forma musculada nas várias ações, poderemos fazer chegar a nossa mensagem junto das populações”, explicou o presidente, relevando que os Vigilantes da Natureza – são cerca de 120 homens atualmente – serão este ano reforçados com mais 20 elementos.
“O que nós queremos é internalizar nas pessoas o valor da natureza, dos valores naturais para terem a percepção de que há agentes no terreno que os podem ajudar a utilizarem de forma correta a natureza.”
A ação nacional decorreu no Parque Natural da Arrábida, nos concelhos de Setúbal e Sesimbra, Parque Natural da Serra de São Mamede, em Arronches, Portalegre e Castelo de Vide, no Parque Natural de Montesinho, em Vinhais e Bragança, Parque Natural do Tejo Internacional, em Castelo Branco, Idanha-a-Nova e Vila Velha de Rodão, e ainda aos concelhos de Alcoutim e Tavira.
O propósito no Parque Natural da Arrábida era encontrar pescadores em zonas proibidas perto de Sesimbra e armadilhas para aves protegidas na zona do Viso, em Setúbal. Ao chegarmos à falésia do Cabo Espichel, já Rogério Andrade tinha sido informado de uma situação ilegal. “Dois indivíduos desceram a escarpa”, contava Rui Natário, coordenador da intervenção. “Eles descem em escalada e têm lá uns cabos escondidos. Identificamos a mota em que vieram, mas esconderam-se dentro dos buracos de difícil acesso.”
Os infratores são, por norma, locais que vão à pesca lúdica. “Gostam do perigo, vivem disto. Apanham sargo e vendem diretamente aos restaurantes”, comentava um dos vigilantes.
A ação do ICNF e do SPNA esteve patente durante a madrugada do dia 24 de Maio e o dia de 25. Os objetivos eram claros e estavam relacionados com a questão do furtivismo e da utilização de armadilhas.
“Como não é muito comum a situação de armadilhas no Cabo Espichel, pensamos atuar na questão da pesca à linha que as pessoas fazem. Aqui, se esse fosse pelo objetivo extremo, iríamos esperar até eles saírem para os abordar e seria levantado o auto-notícia. Como esse não é o objetivo, achamos que o conveniente era mostrar-nos. Quando saírem daqui, vão passar a informação aos colegas que realmente estamos atentos. Provavelmente já não teremos situações comuns como estas nas próximas vezes”, acredita Rui Natário.
Tudo pronto no Cabo Espichel. Ali já não havia mais a fazer. A próxima paragem era o Forte de São Domingos da Baralha, situado numa zona que também é procurada para a prática da pesca ilegal.
Rogério Andrade destacou que muitas das situações ilegais que ocorrem, acontecem por falta de informação. “É claro que também estamos no terreno para detectar situações ilegais, como hoje vimos duas ou três, desde caixas-armadilha para a captura de animais, pesca ilegal, etc… Mas sensibilizar é também a nossa mais-valia.”
À hora que chegamos ao trilho que nos levaria ao Forte, já o sol estava alto no céu e faziam-se sentir 31 graus. O caminho passa despercebido aos estranhos que lá perto andam – um segredo só ao descoberto para os locais e Vigilantes da Natureza. É um trilho estreito e em zigue-zangue, por terras sinuosas e sempre a pique durante 20 minutos. A florestação alta circundante não ajuda na descida, mas a vista que se tem da Arrábida no fim valem a pena o esforço.
O Forte de São Domingos da Baralha foi uma infraestrutura militar do Século XVIII e hoje pouco sobra daquilo que um dia foi. Naquela zona não se encontrou nenhuma anomalia. O dispositivo do ICNF e do SPNA procuraram armadilhas e pescadores furtivos, mas sem sucesso.
O presidente do instituto admitiu que as poucas infrações detetadas estão ligadas ao contínuo trabalho dos vigilantes. “Estas ações valem mais pela sensibilização, pela demonstração de que estes agentes estão no terreno e que com isso vamos tentar baixar estes níveis de furtivismo ou de práticas ilegais que são usadas contra a natureza e fauna”, referiu. “O que nós queremos mesmo é que as pessoas utilizem o espaço, mas que o saibam utilizar, com boas práticas.”
Para isso, os vigilantes e os agentes, junto das pessoas que iam passando, paravam para os informar sobre o que podem ou não podem fazer. “Essa é a nossa principal missão. O território sem pessoas perde biodiversidade, se não tiver utilização/gestão degrada-se. Queremos é pessoas nestas áreas, mas que as abordem de uma forma correta. E para isso é que a nossa função de sensibilização é essencial”, argumentou Rogério Andrade.
O ICNF, em conjunto com o SPNA da GNR, tem mais seis ações musculadas, a nível nacional. Cada uma delas com 100 a 200 homens ao longo do ano, em várias temáticas: atividade turística à defesa da floresta contra incêndios, a questões de urbanização e edificação, a espécies protegidas, às indústrias extrativas e a atividades agrícolas e pecuárias.
Mas nem só de fiscalização se faz o trabalho destes homens. Durante a ação no Parque Natural da Arrábida, o ICNF recebeu a indicação de que um homem tinha dois falcões de três semanas que queria entregar ao cuidado do instituto. Antes de voltar a Lisboa, Rogério Andrade fez um desvio para encontrar-se com o indivíduo. Este, explicou, que comprou os animais por 50 euros a outra pessoa que os tinha retirado do ninho, apesar de não ter querido denunciar o infrator. “Estes são crimes que lesam muito a natureza e devem ter penas mais pesadas para que tenham respeito. Este senhor já denunciou situações destas várias vezes, mas também tem receios de retaliações”, disse.
O ICNF recebe “algumas” denúncias sobre casos desta índole. Muitos encontram no OLX, onde se colocam anúncios de vendas de animais que não podem ser comercializados. Dali, os falcões foram entregues no Centro de Recuperação de Animais Silvestre, em Monsanto, onde serão criados, serão ensinados a voar, a caçar e por fim serão libertados.