Hoje em dia é fácil morrer. Estamos a andar na rua e zás! Interpretamos mal o semáforo e pronto já fomos. Ainda no outro dia, um turista asfixiou num pastel de nata, só que não é verdade e acabei de o inventar. Mas quando passeio pelos cemitérios, vejo a quantidade de mãos dadas que a terra uniu. Lápides com inscrições e túmulos antigos cujas vozes os séculos silenciaram. Tudo é frágil – qual folha ao vento – e uma tosse que se prolonga já anuncia qualquer final.
Lembrei-me disto enquanto preenchia o IRS, porque há algo de memento mori em tratar das finanças. Lembrei-me que sou um número e que outros são os números deste grande baile: o número de telefone que não tocou mais; o 334 do hospital que, pelo Natal, parei de visitar; a ambulância a riscar a noite numa onomatopeia tensa.
Mas quem diz números diz palavras. Num vídeo que circulou, um soldado ucraniano dizia poesia persa em plena guerra: “o teu amor ardeu até às cinzas a selva do meu coração”, e são estas coisas que me lembram o quão fácil é hoje em dia morrer. É tão fácil, que deveríamos, por exemplo, apostar mais nos “bons-dias”, buzinar menos, sair mais cedo do trabalho… Inclusive amanhã escrevo finalmente uma carta para o estrangeiro, daquelas bonitinhas como nos ensinaram na escola, assim com um P.S. “Não te esqueças de responder, Inês”.
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