“Investir na infância não interessa apenas às pessoas que têm filhos. Tem benefícios financeiros para a própria economia”

“Investir na infância não interessa apenas às pessoas que têm filhos. Tem benefícios financeiros para a própria economia”

É jornalista, foi correspondente do The Guardian na Escandinávia e, nos últimos anos, tornou-se autora best-seller na área da psicologia e da parentalidade. Não se assume como especialista porque a maioria dos seus livros são escritos a partir da sua própria experiência: viveu 12 anos na Dinamarca, o que lhe permitiu tomar contacto com um quotidiano bem diferente daquele onde nasceu há 45 anos, em Inglaterra. Em Como Educar um Viking (Alma dos Livros, 310 págs., €19,45), conta que tudo começou quando deu por si a “googlar” “melhor machado para crianças” (se isto não chega para despertar o interesse…). A retórica de Helen Russell pode até parecer um pouco proselitista, mas também não restam dúvidas de que é possível encontrar ensinamentos úteis no seu testemunho. 

Sobre crianças e parentalidade, todos dizem que não há receitas. Posso concluir que, na sua opinião, existe uma receita chamada “espírito viking”?
[Risos.] Não tenho grandes certezas de que vou aperfeiçoar estes métodos, mas penso que existem muitas maneiras de comprovar que os países nórdicos possuem algumas coisas que fazem muito sentido. Estão sustentadas pela Ciência e funcionam, parecem ajudar. Os países nórdicos estão sempre nos tops dos rankings da felicidade, sondagem após sondagem, ano após ano. Portanto, admitindo que existe uma receita, estou a tentar usar o caminho viking. Vi que funciona, em termos científicos. E observei como as pessoas acabam por ser mais gentis, inclusivas, adotam formas de ser mais justas.

Há quanto tempo vive na Dinamarca?
Vivi na Dinamarca durante 12 anos, regressei apenas no final do ano passado.

E regressou para a Inglaterra?
Sim, para o Sul. Agora, estou a tentar usar todas estas ideias em Inglaterra. 

Que idade têm os seus filhos?
Dez anos e os gémeos têm sete.  

Em síntese, o que entende por “espírito viking”?
Penso que passa muito por dar responsabilidade às crianças, dar-lhes liberdade, tentando ser justo de maneira a que elas não entrem nas ideias hierárquicas, de que algumas pessoas são melhores do que outras ou de que os adultos são sempre fonte de autoridade. Em vez disso, julgo que existe uma maneira de todos estarem prontos para dar um passo à frente ou, pelo menos, pensar sobre isso, deixar as crianças usar os seus cérebros para seguirem os seus interesses. Também acho fundamental que as crianças brinquem muito.

Em Portugal, nos últimos anos, tem havido muitos especialistas a insistir no papel da brincadeira.
Concordo absolutamente. É preciso menos ênfase na aprendizagem formal, pelo menos até que as crianças sejam muito mais velhas. É preciso insistir na aprendizagem através da brincadeira, na importância do aprender a colaborar e a comunicar com os outros. Todos estes aspetos são agora acentuados pela questão da Inteligência Artificial, que os torna mais importantes do que nunca. O que nos faz realmente humanos? Sinto que os nórdicos criam os seus filhos com mais liberdade e também com mais responsabilidade, em suma.  

Há outra palavra-chave que usa no seu livro: confiança. Acha que se aplica da mesma maneira a todas as latitudes?
Certamente, é mais fácil num país com taxas de criminalidade violenta mais baixas. Nestes contextos, compreensivelmente, é mais fácil que os pais deixem os filhos ter essa liberdade. Ainda na semana passada, no último relatório do World Happiness, verificámos que, muitas vezes, subestimamos os outros. O estudo das carteiras perdidas, então, é muito interessante: a maioria das pessoas é simpática e devolve a carteira ao seu dono. A maioria das pessoas não só é gentil e simpática como faz o que está correto: devolve a carteira ao dono. Não sei o que se passa consigo, mas eu cresci num mundo assustador em que qualquer estranho representava um perigo. 

O mundo em que as crianças são ensinadas a não falar com estranhos.  
Sim, a ouvir conselhos desses, como é que as crianças não hão de crescer com medo? O espírito nórdico ensina as crianças a defenderem-se, a serem fortes, a serem vikings, a descobrir o mundo, incluindo através de brincadeiras que envolvem riscos. Até do ponto de vista físico é importante porque, dessa maneira, as crianças têm muito mais confiança no seu próprio corpo. Na escola, isso também tem consequências: as crianças ganham confiança em si próprias, acreditam que as suas ideias valem a pena, sabem defendê-las lá fora. Tudo isto é muito diferente de uma cultura em que as crianças têm de usar uniforme e não são tratadas pelo nome próprio: tens de fazer o que eu digo porque eu sou o professor. 

Há evidência científica de que, quando uma criança cresce nesse ambiente, pode de facto ser um adulto diferente?
Sim, sim. Cresci num ambiente onde não havia o hábito de elogiar, mas hoje há efetivamente muita teoria em torno da parentalidade que defende que o facto de elogiarmos as crianças permite-lhes não ter um sentido distorcido de si mesmas, permite-lhes que avaliem as coisas por si próprias. Não precisamos de olhar para o mundo exterior para obtermos uma validação. A confiança de que falou há pouco, por exemplo, é fundamental na questão da brincadeira: olhamos para uma árvore e sabemos que, se for preciso, somos capazes de subir para aquela árvore. Isso mostra que temos maior domínio sobre o corpo, mas também propicia a confiança e reduz a possibilidade de virmos a ter fobias. Pensa-se até que pode minimizar doenças como a ansiedade e a depressão. Muitos estudos revelam que, se não permitirmos que os nossos filhos tenham a oportunidade de escalar árvores, de ter brincadeiras com algum grau de risco, é mais provável que eles, na adolescência, quando os patins são muito mais altos, venham a procurar comportamentos de risco muito maiores e, potencialmente, muito mais perigosos. Por isso, considero que é melhor deixá-los correr esses riscos enquanto são pequenos do que envolvê-los, digamos, numa redoma de algodão. 

Do seu ponto de vista, tudo o que se investe na infância tem um retorno posterior?
O mais possível. No Reino Unido, o Early Childhood Center, encabeçado pela princesa de Gales, tem repetidamente revelado estudos que o demonstram. E isto não interessa apenas às pessoas que têm filhos, também interessa às pessoas que não têm filhos. Porque esta perspetiva tem benefícios financeiros para a própria economia. As crianças da próxima geração também serão os vossos vizinhos e os vossos colegas. Todo o investimento que se fizer numa criança até aos cinco anos de idade, mais tarde, produz efeitos significativos. No Canadá, um estudo também demonstrou que por cada dólar que se investe na educação infantil obtém-se um retorno económico de, pelo menos, 1,5 dólares (pode ir até aos 2,80 dólares).   

Portanto, não se trata apenas de defender um certo estilo de vida, “fofinho”, digamos, é também uma aposta económica?
Acho muito frustrante que as pessoas olhem para estas ideias de forma simpática, ah e tal, é um estilo de vida confortável. Não é apenas isso: mesmo que as pessoas não queiram saber de crianças, têm de investir na próxima geração. Caso contrário, mais tarde, isso terá consequências financeiras terríveis. Já para não falar da saúde mental. Digo sempre que o meu livro se destina a qualquer pessoa que esteja interessada em perceber por que razão os países nórdicos funcionam. Porque eles investem logo a partir do zero.   

Deixe-me fazer uma pergunta um bocadinho provocadora: não há crianças felizes fora dos países nórdicos?
Claro que há, claro que sim. Há vários aspetos que é preciso considerar: é evidente que existem diferentes abordagens em relação ao significado da felicidade, que pode ser um conceito muito subjetivo. Também é verdade que existem países, provavelmente Portugal e Espanha, com melhor qualidade das próprias relações familiares. O que achei interessante é o facto de os países nórdicos aparecerem, ano após ano, nos lugares cimeiros dos índices de felicidade. E isso deve-se às políticas públicas e às decisões culturais que foram tomadas ao longo do tempo e que acabam por ser um impacto grande na próxima geração. Sempre soube que não iria viver na Dinamarca para sempre. Mas queria retirar daquela experiência algumas lições que me parecem exportáveis, que julgo que é possível usar noutros países e noutras comunidades. Mas, voltando à sua pergunta, claro que existem crianças felizes noutros lugares do mundo, graças a Deus!

É preciso insistir na aprendizagem através da brincadeira, na importância do aprender a colaborar e a comunicar. Todos estes aspetos são acentuados pela Inteligência Artificial: o que nos faz realmente humanos?

Considera que essas lições não são apenas úteis para as crianças e jovens, mas também para os seus pais? 
É justamente essa a minha intenção ao publicar o livro. Acho fundamental a ideia de os pais compreenderem que podem relaxar um pouco e não estarem sempre a fazer micromanagement com tudo. Chega, chega de stresse! Estou em cerca de 11 grupos de Whatsapp de pais e observo a aflição de ter filhos e, ao mesmo tempo, ter um emprego a tempo inteiro. É preciso capacitarmos as nossas crianças, de uma vez por todas! Eu, pela minha parte, não sinto que, em 2025, seja capaz de ter três filhos à maneira antiga e, simultaneamente, um emprego a tempo inteiro. 

Em Portugal, notícias recentes dão conta de pais que tentam acompanhar os seus filhos, adultos, nas universidades. Não é preocupante?
Participei no podcast The Happiness Lab e a Laurie Santos, professora universitária, também me disse que isso estava a acontecer nos EUA. Por isso, são tão importantes as questões da autonomia, da responsabilidade e da independência. Antes ainda de os bebés saberem andar. Na Dinamarca, o facto de as universidades serem financiadas pelo Estado também permite que os jovens não estejam tão constrangidos financeiramente.

Mas o ponto também é: será assim tão fácil aplicar esses modelos a outras culturas e, sobretudo, a outras realidades socioeconómicas, a outros países com outras políticas públicas?
Claro que nos países nórdicos é mais fácil, mas tenho estado a fazer isso e, agora, não estou lá, estou em Inglaterra, num lugar com outra cultura e outras políticas. Muitas vezes, sinto-me em contramão, a fazer ao contrário o que todos os outros pais à minha volta estão a fazer. Por exemplo: dar ênfase à brincadeira, à brincadeira ao ar livre, mesmo quando está frio ou está a chover, ou não pôr muita pressão na questão académica. Muitas vezes, acabo por encontrar outros pais online, nesta grande comunidade virtual em que agora também vivemos. Posso fazer muita coisa dentro de casa, coisas que controlo. Ainda outro exemplo: a sociedade inglesa continua muito ligada à questão da classe social e, apesar disso, posso dizer aos meus filhos que eles não são melhor do que ninguém, que não quero saber quanto dinheiro têm os outros, que não me importo se eles são lord ou lady. Posso ensiná-los que a instituição da família se apresenta de muitas maneiras diferentes, posso educá-los sem uma ideia de hierarquia. 

Outra provocação: e regras, não há regras no seu modelo?
Certo. Gostaria de dizer que não sou, de forma alguma, o especialista. Sou o aluno, estou a aprender. Tudo o que sei provém da psicologia dos países nórdicos, da investigação científica e também dos meus amigos que vivem nos países nórdicos. Em resposta à sua pergunta, os meus amigos diriam qualquer coisa como: as regras são muito simples, “eu sou tua mãe”, “tens de ser simpático comigo”, “tenta não apanhar muito frio”, “sê amável para as pessoas”. Também ajuda bastante explicarmos as razões que estão por detrás das coisas, ainda que isso possa ser um bocadinho demorado e cansativo, sobretudo nos momentos em que estamos mais exaustos.

Tudo isso, também é uma questão de tempo.
Sim, claro. Mas a questão não é não existirem regras, é explicar que, se não fizermos determinada coisa de determinada maneira, é inevitável que algo aconteça. Não é fácil, é verdade, mas é mais fácil do que ter um milhão de regras. Se eles perceberem porquê, então, eles têm uma escolha e ganham autonomia em optar.

Há uma certa incongruência entre duas ideias que parecem ser, mais ou menos, razoáveis: os pais não devem ser os melhores amigos dos seus filhos, embora, ao mesmo tempo, devam estar próximos deles do ponto de vista afetivo.  
Diria assim: os meus amigos dinamarqueses, a minha mãe e o meu pai dinamarqueses, não estariam a tentar ser os melhores amigos dos seus filhos; estariam a tentar ser os seus role models [os seus modelos, um exemplo]. Se quisermos que algo exista na nossa comunidade, devemos voluntariarmo-nos, devemos contribuir. Seja nos impostos, seja nos treinos de basquetebol, seja no que for, todos contribuem. Agora, em Inglaterra, sou voluntária na biblioteca local e no clube de corrida. E os meus filhos veem-me fazer esse voluntariado, é normal.

Já viu a série da Netflix, Adolescência?
Está na minha lista para começar uma destas noites [risos].

Também gostava de saber a sua opinião sobre o impacto deste imenso mundo digital no crescimento das crianças e dos jovens.
Tenho muito prazer em contar que, desde que escrevi o livro, houve um verdadeiro despertar na Dinamarca na questão da tecnologia. Quando o escrevi, adorei todas as formas como, na Dinamarca, as pessoas se relacionavam com a parentalidade, à exceção da tecnologia, devo dizer. Em relação às crianças, havia este código social em direção à liberdade. Um legado da II Guerra Mundial, adquirido de certa maneira durante a ocupação nazi. Maravilhou-me esta ideia de darmos liberdade às crianças para as ensinar a defenderem-se. O problema é que os dinamarqueses também deram essa mesma liberdade relativamente aos tempos de exibição e aos dispositivos digitais. Durante muito tempo, houve muita relutância em afirmar: não, isto não é bom para os nossos filhos, não fomos criados para isto, não compreendemos o impacto que isto está a ter nas nossas cabeças. Recentemente, na Dinamarca, decidiram tirar os telefones das escolas. Fiquei muito contente. Além de todos os buracos negros que podemos encontrar, como Adolescência revela, também existe a questão do custo-benefício, o tempo que se gasta na internet é tempo em que não se está a tocar um instrumento, em que não se está a brincar com os amigos, em que não se está a ler um livro, em que não se está a construir um Lego… O tempo que se gasta em frente a um ecrã elimina todas estas possibilidades.

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