Apertou o cerco financeiro ao país, agudizou-se a crise política (com um empurrãozinho dos dois partidos com maior expressão parlamentar) e aqui estamos nós a caminho de eleições antecipadas.
Mas como para análises políticas já existem muitos e, provavelmente, mais capazes, gostava de recordar aqui o outro lado dos processos eleitorais.
Por alturas de eleições, os partidos e os candidatos acabam por fazer um pouco como certas marcas do nosso mercado, ainda que sabendo que não é a publicidade que fará com que a sua quota aumente ou diminua, apostam na mesma para que o consumidor (seja de produtos ou de ideologias) não se esqueça deles. É um pouco como um grito de “Ei, ainda estou aqui e com a mesma força”.
Mas se é verdade que, em muitos dos casos, a publicidade comercial envolve em grande parte os media, com anúncios de rádio, televisão e revistas, a publicidade política vive muito à base de cartazes (ou, como está na moda dizer, de outdoors), de bandeiras e de brindes. Chovem, por estas alturas, porta-chaves, canetas, t-shirts, bandeiras, fitas, autocolantes, pins, entre toda uma multitude de artigos perfeitamente supérfluos, para além dos milhões de panfletos informativos que muitos poucos chegarão a ler.
Mas por que razão os partidos se deixam levar por essa torrente de desperdício financeiro e de recursos? Sim, porque como na maioria dos casos, todo o desperdício de recursos (logo, ambientalmente pouco sustentável) acarreta um desperdício financeiro em paralelo. Ainda que, numa tentativa de captação de votos, alguns partidos tenham já anunciado o não recurso a cartazes para estas eleições, em consonância com os esforços a nível nacional para ultrapassar a crise. Mas já anunciaram também que terão que ser criativos.
Respondendo à pergunta do porquê. Bem, porque os políticos, e os seus diretores de campanha, adoram distribuir brindes e outras guloseimas, como forma de olear a abordagem ao cidadão e de, ao mesmo tempo, deixar com ele uma marca da sua campanha. E quanto mais progredimos do central (legislativas e presidenciais) para o local (autarquias) o número de brindes aumenta exponencialmente.
E o cidadão não fica isento de culpa dado que, de certa forma, assim o exige. Se fizermos a pergunta a alguém sobre se votaria num partido ou candidato pelo número de brindes que este distribui, creio que a resposta em geral seria que não. Mas o candidato que se apresente na rua sem qualquer brinde para oferecer, caso não seja uma estratégia adotada por toda a classe política, rapidamente se verá numa posição de desvantagem.
As campanhas eleitorais, como regra geral todas as campanhas de publicidade intensiva restringidas a um determinado intervalo de tempo, deixam atrás de si um rasto de lixo e desperdício de itens descartáveis.
Mas como em todo o tipo de consumo, nós temos a última palavra.
E porque não recusarmos os brindes, panfletos e outros mimos que tais? E porque não procurarmos educar os candidatos respondendo-lhes que preferimos que não desperdicem o nosso dinheiro e o nosso planeta em propaganda, e que se concentrem em informar-nos sobre as ideias que têm para tornar os nossos mundos (o pequeno e o grande) um pouco melhores? E porque não tentarmos isto tudo, e mais, para invertermos a situação e deixarmos que seja o candidato que desperdiça aquele que mais se destaca, mas pela negativa?