Na madrugada de 21 de fevereiro de 2003, a polícia tenta em vão terminar uma festa barulhenta num bairro residencial de Paris. Os guardas são insultados pela dona de casa, herdeira de uma das mais antigas linhagens aristocráticas francesas. Também por Marine Le Pen, em «avançado estado de embriaguez», segundo o relatório de polícia, que os trata por «bardamerdas» (trous du cul) e grita que «é mais fácil atacar os bons franceses do que os árabes».
A polícia abre um processo contra Marine Le Pen, contra a sua amiga de infância, Marie d’Herbais de Thun e o marido desta, Frédéric Chatillon, cujo aniversário servira de pretexto à etílica festa. Marine e Chatillon eram amigos desde os tempos da faculdade de Direito, onde ele dirigia o GUD, um movimento estudantil ultraviolento de extrema-direita. O caso será arquivado, mas consolida a reputação de «boémia» e «leviana» de Marine Le Pen que, ainda nessa altura, lhe dificultava a ascensão na Frente Nacional, o partido fundado e dirigido pelo pai, Jean-Marie Le Pen.
Marine tem então 34 anos, é advogada, está divorciada do pai dos seus três filhos e casada pela segunda vez (vai divorciar-se de novo em 2006), e já começa a ser conhecida politicamente. Em 2002, dirigira a campanha eleitoral de Jean-Marie e conduzira-o à segunda volta das eleições presidenciais. Nessa noite de 21 de abril de 2002 chora de alegria, enquanto a França, em estado de choque, descobre a extrema-direita à beira do poder supremo.
Atentado e ‘milagre de Todos-os-Santos’
As lágrimas são também de desforra por uma outra noite, que terá sido fundadora da sua tomada de consciência política.
A mais nova das três filhas de Le Pen, batizada Marion Anne Perrine, mas a quem sempre chamaram Marine, tinha oito anos quando, na madrugada de 2 de novembro de 1976, por volta das quatro da manhã, sobreviveu sem um beliscão a uma explosão que estilhaçou o apartamento parisiense da família. O pai, a mãe, Pierrette, e as duas irmãs mais velhas, Marie-Caroline e Yann, também saem ilesas do atentado. A bomba tinha sido colocada junto à porta de entrada. No dia seguinte, o jornal Le Parisien faz uma manchete célebre: «O milagre de Todos-os-Santos».
Os autores nunca foram apanhados. Para Marine Le Pen nascia uma ambição política inseparável da do pai.
«Foi precisa esta noite de horror para eu descobrir que o meu pai fazia política», revela Marine Le Pen na sua autobiografia, À contre flots (2006). «E é assim, na idade de brincar com bonecas [.] que isso vai tornar-se um elemento determinante da minha própria construção». Em 2004, num debate na televisão, a filha mais nova do líder da extrema-direita fora mais explícita: «Quando se nasce filha de Le Pen, morre-se filha de Le Pen. É o homem da minha vida. Ele construiu a mulher que eu sou». Palavras que deleitam hoje os psicanalistas no combate mortífero entre pai e filha pelo espólio político da FN. Mas para o resto dos mortais, parece curioso que Marine não tivesse sabido até aos oito anos que o pai fazia política. Le Pen fora candidato às presidenciais de 1974. Uma emissão de televisão dos anos 70 mostra-o em família, a brincar com as filhas e a ser servido pela mulher, com uma pala preta a cobrir-lhe um olho que perdera numa rixa política no Quartier Latin em 1958 (só mais tarde recorrerá a uma prótese de vidro). O casal recebia amiúde, em casa, políticos e jornalistas.
Torturador, sedutor e libertino
Provocador de natureza, Jean-Marie Le Pen começara a assombrar a política francesa desde muito novo, nos anos 1950. Ainda hoje gosta de recordar a infância pobre, a mãe costureira e o pai pescador, morto no mar quando o filho único tinha 14 anos, em 1942. Alcunhado o «Menir» por causa do seu físico e das suas raízes bretãs, Jean-Marie Le Pen adere à extrema-direita na faculdade. Em 1954 já era advogado, mas parte como militar voluntário para a Indochina. Regressa a Paris em 1956, ingressa no movimento populista de Pierre Poujade e é eleito, aos 28 anos, o deputado mais jovem de França (uma proeza que será repetida em 2012 pela sua neta preferida, Marion Maréchal-Le Pen). Mas depressa deixa o hemiciclo para ir combater na guerra da Argélia, onde os seu feitos de armas, reivindicados, são a tortura.
Em meados de 1957 está de volta a Paris. Cada vez mais provocador, é derrotado nas legislativas de 1962.
A travessia do deserto será curta. Egoísta e sedutor, grosseiro e culto, patético e brilhante, feroz e pândego «violento», dirá mais tarde Pierrette, já depois do divórcio tribuno excecional, aguarda-o um destino político que ultrapassará as suas ambições.
Por ora, tem uma empresa que edita cânticos militares, a SERP, que rende pouco e lhe valerá dissabores com a justiça por causa de um catálogo consagrado aos cânticos nazis dos Waffen SS. Quem paga as faturas, nessa época, é a mulher, graças ao património que herdara do pai. O casal é profundamente hedonista e viaja muito.
Uma amiga de Pierrette geria a casa e as filhas durante as ausências dos pais. As festas sucedem-se até meados dos anos 70. «Era Woodstock», afiança Marine Le Pen na sua autobiografia, recordando as pessoas que encontrava de manhã adormecidas nos sofás, pela casa fora.
É em 1972 que Jean-Marie Le Pen funda a Frente Nacional, unindo nacionalistas de extrema-direita e saudosistas do III Reich com o símbolo de uma chama tricolor decalcada da dos fascistas italianos do MSI. Nas presidenciais de 1974 obtém apenas 0,75% dos votos.
Da herança suspeita à capa da ‘Playboy’
Depois do atentado de 1976, ninguém sabe ainda, mas os problemas de dinheiro dos Le Pen estão acabados. Em setembro, Jean-Marie herdara o equivalente, hoje, de 17 milhões de euros legados por Hubert Lambert, último rebento sem descendência de uma família que fizera fortuna na indústria do cimento. Alcoólico, bipolar, Lambert financiava a FN desde o início a troco de uma promessa de ser um dia ministro da Defesa de Le Pen. Um médico contou mais tarde que o líder da FN se fechou com Lambert na sua imensa propriedade de Montretout, em Saint-Cloud, às portas de Paris, no que seriam os últimos três dias de vida do milionário de 42 anos.
Uma vez resolvido o contencioso com a família Lambert, que contestava a legalidade do testamento (há quem avente que o atentado de 2 de novembro estava ligado à herança, e não à política), o clã instala-se no solar de Montretout. As festas boémias pertencem ao passado.
Em Montretout, os Le Pen passam a dar inúmeras receções faustosas. A partir de 1983, a FN entra em expansão política com teses xenófobas e anti-imigrantes. O jornalista Alain Duhamel lembra-se de um debate na televisão, em 1984, em que Jean-Marie vem acompanhado pela mulher e as três filhas, altas e loiras: «Era a primeira vez que as via, e tinha a impressão de assistir a uma ópera de Wagner».
Na realidade, a família estava a poucos meses de uma tragicomédia escabrosa.
«A mamã partiu»: é Yann, mais velha de quatro anos, já a trabalhar na FN, que vai buscar Marine ao liceu, a 10 de outubro de 1984 e lhe anuncia que a mãe fugira de manhã do domicílio conjugal para ir viver com um jornalista do Figaro.
Marine Le Pen tinha 16 anos. Pierrette reclama metade do património a Jean-Marie que responde, na imprensa: «Ela que vá ganhar a vida como mulher a dias». A mulher vinga-se aparecendo nua, só com um miniavental e um espanador, na revista Playboy.
Dissidentes, bastardos e privilegiados
As três irmãs repudiam a mãe publicamente. Le Pen será de novo deputado em 1986, divorcia de Pierrette e casa com uma herdeira que tem uma rede poderosa de relações financeiras e mundanas, Janny Pachos.
Marie-Caroline era a delfim política. Casada com um quadro da FN, Philippe Olivier, a filha mais velha lança-se numa série de conquistas eleitorais a partir de 1985.
Mas em 1999 será repudiada pelo pai, porque apoia com o marido um «putsch» do número dois da FN, Bruno Mégret. Le Pen previne: «Não se joga contra o chefe e ainda menos contra o pai». A sua carreira política fica esfrangalhada.
Yann, discreta, tem uma filha em 1989, Marion Maréchal-Le Pen. Segundo a lenda familiar, durante dois anos Marine «servirá de pai» à sobrinha, que Yann cria sozinha até casar com Samuel Maréchal, presidente da Juventude da FN, em 1991, que adota Marion. A pequena família vive numa ala do solar de Montretout.
Jean-Marie Le Pen mistura os nomes dos outros netos, mas adora Marion, tão parecida com ele. Deputada aos 22 anos, em 2012, Marion casou em julho de 2014 e em setembro deu à luz uma menina, Olympe. Só em finais de 2013 se soube que o pai biológico de Marion é na realidade o jornalista, futuro embaixador e antigo mercenário, Roger Auque, que em 1987 fora refém em Beirute do movimento Hezbollah. Marion só o conheceu em 2002, e considera Samuel Maréchal como o seu verdadeiro pai. Yann e Samuel divorciaram-se em 2007. Auque morreu de cancro em 2014. No começo de 2015, Maréchal casou com uma africana, bisneta do defunto ditador da Costa do Marfim, Félix Houphouët-Boigny.
Invejas, humilhações e assassínios políticos
Ainda estudante, Marine transformou as cavalariças de Montretout na sua residência, onde viveu com os filhos e cada um dos maridos, e ainda com o seu atual companheiro, Louis Alliot. Mas sairia da propriedade familiar há poucos meses, quando, já em plena luta de sucessão, viu os dobermans do pai a matarem o seu gato.
Marine Le Pen herdou o talento oratório do pai, um misto de linguagem refinada e de bem falar popular. A diferença, imensa, é que Marine Le Pen quer o poder político. Ficou–lhe de lição aquela noite de 21 de abril de 2002 em que viria a descobrir o velho líder assustado com a perspetiva da vitória.
Eleita presidente da FN, em 2011, Marine Le Pen adota uma estratégia de «desdemonização » do partido. Mantém os temas anti-imigração, pedestal da FN, mas vai buscar quadros aos outros partidos, namora o voto gay, lança uma aproximação com Israel e corta, pelo menos em público, com amigos extremistas como Marie d’Herbais e Frédéric Chatillon. O sucesso não tarda: Marine tem quase 18% dos votos na presidenciais de 2012, a FN torna-se o primeiro partido de França nas europeias em 2014 e implanta-se em todo o país nas regionais e autárquicas.
Invejoso e admirativo ao mesmo tempo, Le Pen, presidente honorífico vitalício da FN, não admite a nova orientação do «seu» partido e começa a minar a chefia da filha com declarações antissemitas. Marine Le Pen decide «matar» o pai, expulsando-o do partido. Mas o velho tribuno não morre. Derrota a filha nos tribunais, que ordenam a sua reintegração na FN. A presidente, humilhada, vai agora recomeçar o processo de expulsão.
A saga dos Le Pen está longe de ter acabado.
CLIQUE EM BAIXO PARA LER O ARTIGO NA VERSÃO ORIGINAL