Um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, Bill Gates, lidera uma rede pedófila a nível mundial que, entre outros objetivos apocalípticos, pretende escravizar parte significativa da população do planeta. Este plano conta com a colaboração da ONU e de vários dirigentes internacionais. Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, uma das principais personalidades envolvidas, até já deu ordens aos militares do seu país para começarem a sequestrar os cidadãos do arquipélago e para os vacinarem à força, de modo a que sejam “domados e prescindam das suas casas e das suas terras”. Ao contrário do que se possa imaginar, este não é o enredo de um livro de ficção ou de um filme distópico. Este é o cenário apresentado por Billy Te Kahika Junior, um guitarrista recém-convertido à política, para evitar a reeleição de Jacinda Ardern nas legislativas deste sábado, 17. Inspirado nas teorias conspiracionistas do movimento QAnon, o músico e líder do Advance Party está disposto a tudo para fazer entrar no Parlamento a sua força política − precisa de conquistar, no mínimo, 5% dos votos − e impedir que o Labour e a respetiva líder obtenham uma maioria que lhes permita governar sozinhos. As sondagens indicam que Billy Jr., filho de Billy TK (o Jimi Hendrix do Pacífico), tem mais jeito para concertos do que para comícios.
PERSPICÁCIA E BEM COMUM
Jacinda Ardern é a líder mais popular do último século na Nova Zelândia, e a atual pandemia veio reforçar a sua imagem enquanto dirigente responsável e competente. Com pouco mais de cinco milhões de habitantes, o país só registou 1 800 casos de Covid-19, de que resultaram cinco mortos. Um balanço só possível devido às criteriosas medidas adotadas pelo Executivo de Wellington. A 3 de fevereiro, à cautela e face às notícias sobre o surto na cidade de Wuhan, impediu a entrada de quaisquer viajantes oriundos da China ou que tivessem feito escala no antigo Império do Meio. A única exceção eram os neozelandeses e mesmo esses passaram a cumprir uma quarentena obrigatória de 14 dias. No final desse mês é registado o primeiro paciente positivo com SARS-CoV-2, uma pessoa que estivera no Irão. Horas depois, Jacinda e a conselheira científica, a bioquímica britânica Juliet Gerrard, chegam a acordo sobre a necessidade de fechar as fronteiras a todos os Estados onde a doença alastrava de forma incontrolada. Já no início de março, a primeira-ministra sublinha a necessidade de tais medidas e passa depois a repetir, nas suas conferências de imprensa e alocuções quase diárias através do Facebook Live, que a sua obrigação é zelar pelo “bem comum” e que não tem de “pedir desculpa” por fazer o seu trabalho. Com o número de infetados a aumentar, o Governo de coligação liderado pelos trabalhistas − de que fazem também parte os conservadores populistas do New Zealand First (uma Geringonça que conta ainda com o apoio parlamentar dos Verdes) − adota um sistema de quatro níveis de alerta para enfrentar a pandemia, inspirado no combate aos fogos florestais. A 25 de março, embora não existisse ainda uma única vítima mortal, é decretado o nível máximo e o país entra em confinamento total. A estratégia funciona e, volvidos 102 dias, Jacinda declara que a doença pandémica está
sob controlo. Pormenor adicional: as estatísticas da gripe sazonal − habitual entre os meses de abril e agosto, a estação fria no hemisfério sul − revelam uma redução de 99% dos casos, o que permitiu também salvar um milhar e meio de pessoas que, de outra forma, teriam perdido a vida devido ao vírus da influenza. Ou seja, a quarentena e a política sanitária do Governo produziram “uma mudança revolucionária na forma de abordar os agentes patogénicos respiratórios”, nas palavras do epidemiologista Michael Baker, professor na Universidade de Otago, citado pela imprensa local.
BOICOTE À JACINDAMANIA
Jacinda Ardern vê os seus esforços recompensados. A OMS enaltece o exemplo neozelandês, a revista britânica The Prospect coloca-a entre as 50 principais personalidades da era Covid (a única dirigente política,
a par de K. K. Shailaja, ministra da Saúde do estado indiano de Kerala), mais de 80% dos seus compatriotas
aprovam o desempenho da dirigente que este verão cumpriu 40 anos e ela vê reunidas todas as condições para continuar a bater recordes, a nível doméstico e internacional. Neste sábado, 17, a progressista e feminista que se tornou primeira-ministra em 2017, e despertou uma onda de entusiasmo logo descrita como
Jacindamania, prepara-se para obter uma votação sem precedentes no último quarto de século e cumprir mais um mandato de três anos no cargo. No entanto, não faltam kiwis (como também se designam os naturais e os residentes no arquipélago que está nos antípodas de Portugal) a arrasar o legado da dirigente cujos dotes comunicacionais são reconhecidos por toda a gente: “Este Governo tem sido um fracasso em quase todos os aspetos”, afirmou à revista The Economist Oliver Marc Hartwich, diretor do New Zealand Initiative, um think tank com sede em Wellington. A opinião deste analista nascido na Alemanha contrasta
com os rasgados elogios que grandes jornais internacionais, como o Frankfurter Allgemeine Zeitung e
o Financial Times, têm dedicado a Jacinda, chegando a apontá-la como um modelo para o “futuro das democracias liberais”. Mas a argumentação de Hartwich é clara e tem sido reproduzida pela generalidade dos
17 partidos que se batem agora contra a líder trabalhista. As principais promessas feitas por Jacinda Ardern
na campanha de 2017 continuam por cumprir: a habitação é cada vez mais um luxo para a generalidade dos neozelandeses e o número de pessoas à espera de casa do Estado triplicou para quase 20 mil; a luta contra a pobreza infantil, apesar de apresentada como uma prioridade, quase não teve efeitos práticos; e o combate à poluição e às mudanças climáticas, idem aspas, com a líder trabalhista a dizer que os habitantes do país poderão em breve nadar em todos os rios e lagos do arquipélago, comprometendo-se a aumentar o peso das energias renováveis e a atingir zero emissões de carbono em 2050. Os apoiantes de Jacinda desvalorizam
as críticas e preferem destacar o comportamento e a empatia da governante face às catástrofes que o país
teve de enfrentar com ela na liderança: o atentado de Christchurch, em março de 2019, em que um supremacista australiano atacou duas mesquitas e assassinou 51 pessoas, na sua maioria muçulmanas, com o objetivo de iniciar um conflito étnico e religioso; e a erupção do vulcão da pequena ilha Branca, em dezembro, que resultou na morte de 21 turistas estrangeiros. Tanto num caso como no outro, ela reagiu de
imediato e com transparência, assumiu responsabilidades e fez jus à sua fama de querer saber e controlar tudo até ao último detalhe. “Ela comunica muito bem porque tem algo realmente importante para dizer. Trata-se de uma personalidade muito sólida. (…) Não precisa de que os apparatchiks ponham coisas na sua boca”, afirmou na última semana Colin James, o decano dos jornalistas de política da Nova Zelândia, ao diário australiano The Sydney Morning Herald. Só mesmo alguém muito seguro de si se atreveria a dar ordens aos seus colaboradores para rejeitarem todas as entrevistas a órgãos de comunicação social de todo o mundo durante a campanha em curso. Motivo: Jacinda está farta da Jacindamania.
Heroínas anti-Covid
As governantes mundiais que melhor lidaram com a pandemia
ANGELA MERKEL (ALEMANHA)
CHANCELER
A ex-cientista que se doutorou com uma tese sobre química quântica foi das primeiras dirigentes mundiais a alertar para a pandemia.
K. K. SHAILAJA (ÍNDIA, KERALA)
MINISTRA DA SAÚDE
A ex-professora já tem a alcunha de “exterminadora de coronavírus”, devido ao que fez com o Nipah em 2018 e com a Covid-19.
SANNA MARIN (FINLÂNDIA)
PRIMEIRA-MINISTRA
A sua original abordagem de recorrer às redes socais e às influencers ajudaram o país a
minimizar a pandemia.
KATRÍN JAKOBSDÓTTIR (ISLÂNDIA)
PRIMEIRA-MINISTRA
Ofereceu testes gratuitos aos seus compatriotas e aplicou um eficaz plano de monitorização da doença.
METTE FREDERIKSEN (DINAMARCA)
PRIMEIRA-MINISTRA
Foi das primeiras dirigentes mundiais a realizar conferências de imprensa regulares.
TSAI ING-WEN (TAIWAN)
PRESIDENTE
No último dia de 2019, interditou os voos da cidade chinesa de Wuhan e, depois, sem ordenar
o confinamento, aplicou um plano de 124 medidas contra a doença.
ERNA SOLBERG (NORUEGA)
PRIMEIRA-MINISTRA
A massificação dos testes e a forma como comunicou – incluindo os seus discursos para as crianças – foram decisivos na contenção da doença.