As férias são o momento mais desejado na vida de uma sociedade que anda cansada, perturbada, cheia de tarefas, compromissos e até de violência, ameaças e medos. De um mundo que nos parece sem cura, sem solução. Ainda bem que aí vêm as férias!
Nestes momentos de pausa tentamos fazer tudo o que nos faz falta. Procuramos estar com as pessoas de quem gostamos, organizamo-nos em família, com amigos ou – em alternativa – escolhemos estar sozinhos. Organizamo-nos da melhor forma possível. Procuramos mudar de ambiente, de sítio, escolhemos um destino, mais perto ou mais distante. Optamos por uma forma de viver – seja num hotel com todo o conforto, seja num parque de campismo perto da natureza. Desafiamos os nossos hábitos e as nossas rotinas. E cuidamos do nosso corpo e da nossa alma. Caminhamos junto da praia e pela natureza, lemos o livro que está à espera há meses, descobrimos novos espaços, visitamos museus que abrem mais o nosso horizonte.
Sabemos que nem todos podem usufruir destes benefícios. O descanso não está ao alcance de todos. A muitas pessoas faltam os meios para passar férias, outras estão em profissões que exigem a sua permanência. Reconhecemos, por isso, que estas pausas são um privilégio muito valioso que merece a nossa gratidão. Que bom seria, transformar esse privilégio num direito para todos.
Também sabemos que nem tudo depende só de nós. Pelo contrário, a companhia que escolhemos pode revelar-se menos agradável ou até conflituosa. O destino pode não cumprir as nossas expectativas, o hotel não proporcionar o conforto que procuramos ou a natureza ser avessa à nossa vivência.
Também podemos ser nós próprios a contribuir para que as férias não cumpram o seu objetivo. Continuamos preocupados, não conseguimos desligar e ignorar as más notícias. Queremos fazer tanto e tanta coisa que o descanso acaba por se transformar no stress de correr de um lado para o outro.
Mas mesmo nestas circunstâncias adversas, as férias fazem-nos lembrar que há outra forma de viver e de estar: um espaço para a esperança, para a vontade de escapar, de tranquilizar, de ir mais além. E na medida em que planeamos os períodos de descanso, aplicamos intuitivamente o que uma Ecologia Integral sugere para a sociedade em geral: uma renovação atenta à necessidade da terra e das pessoas, consciente das nossas vulnerabilidades e das nossas esperanças. Quem estuda esta abordagem reconhece que tudo está interligado, que o nosso cansaço tem uma razão de ser.
A Ecologia Integral lembra-nos que a relação com o outro, a boa companhia que procuramos e que oferecemos fazem a diferença. A Ecologia Integral convida-nos a procurar os caminhos que escolhemos, a entender as condições e as restrições, a reconhecer os privilégios e a lutar pelos direitos. Talvez sejam as férias que nos ensinam: que podemos fazer diferente, que podemos definir o nosso destino, que podemos escolher outra forma de viver, que podemos recuperar a integralidade entre nós e o mundo, lá longe e cá perto. Recuperar as forças pode ser o primeiro passo para devolver ao mundo e a todos o que precisamos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.