O “fenómeno brasileiro” deu-se nas últimas décadas, com a vinda em massa de migrantes daquele país irmão, onde quase 30% da população se identifica como evangélica.
A imprensa registou o recente surgimento dum “movimento de mulheres conservadoras”, associando o mundo evangélico ao Chega, o que é abusivo, no mínimo.
O meu colega e amigo Donizete Rodrigues, professor na Universidade da Beira Interior, considera que este movimento de mulheres conservadoras contribui para uma estratégia política de Ventura fazer do Chega uma espécie de partido oficial dos evangélicos em Portugal, encontrando em Rita Matias uma emulação lusitana de Michelle Bolsonaro, de modo a chegar às mulheres evangélicas. Mas creio que o investigador conhecerá melhor os grupos neopentecostais do que a amplitude e diversidade da realidade evangélica portuguesa, apesar de aqui viver há muito.
Isto porque, no Brasil, esses grupos religiosos são erradamente considerados parte do movimento evangélico mas não em Portugal. A Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) não aceita a filiação de grupos desse segmento porque age em coerência com as bases doutrinárias e a praxis evangélicas, nas quais não se encaixam estes grupos religiosos.
Vejo alguns equívocos na imprensa, como, por exemplo, colocar evangélicos dum lado e pentecostais do outro como se fossem distintos. Não são. As igrejas pentecostais históricas integram desde sempre a AEP de pleno direito tal como as batistas, igrejas dos irmãos e tantas outras.
A confusão nasce com a emergência dos neopentecostais no Brasil, a partir dos anos setenta. Mas até mesmo essa designação nos parece incorreta visto que tais grupos constituem uma realidade religiosa claramente distinta do pentecostalismo histórico ou clássico, quer na praxis quer na ortodoxia, e com o qual não têm qualquer relação. Em nosso entender, chamar-lhes neopentecostais (“novos pentecostais”) não passa duma desconsideração para com o movimento pentecostal no mundo, que tem uma história longa e se pauta pela credibilidade.
O que sucede é que alguns grupos pentecostais independentes, atraídos pelo aparente sucesso das práticas neopentecostais começaram a imitá-los, criando assim uma zona híbrida. Por um lado, mantêm o nome de pentecostais (normalmente “Assembleia de Deus”), mas funcionam como émulos da IURD e quejandos.
Para complicar ainda mais o cenário, temos uma realidade nova em Portugal, com o surgimento de inúmeras comunidades de fé constituídas pela migração brasileira, que aqui se limitam a reproduzir fielmente a cultura religiosa do seu país.
Embora o meio evangélico possa ser considerado habitualmente conservador, leva o estado laico muito a sério, e a verdade é que os fiéis das igrejas evangélicas portuguesas votam desde a esquerda à direita, passando pelo centro, e os púlpitos não servem para fazer propaganda eleitoral nem os pastores dão indicação de voto. Não há misturas entre Deus e César.
Os evangélicos portugueses nunca se envolveram em disputas político-partidárias, à semelhança do Brasil dos velhos tempos, e por isso nunca foram notados pela comunicação social. Mas o lamentável envolvimento do setor neopentecostal na política brasileira, onde se tem enterrado até às orelhas, provavelmente numa lógica de tentar criar uma teocracia cristã em Brasília (longe vá o agoiro!), provoca evidentes reflexos por cá.
O excelente comunicado da AEP apenas vem repor a verdade. A esmagadora maioria das igrejas evangélicas portuguesas integram esta plataforma e não se revêm no modus operandi brasileiro de associação a partidos de extrema-direita, radicais, populistas ou quaisquer outros. Simplesmente, não dão para esse peditório.
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